Dassler Marques - 22/11/2009
Santos e São Paulo estão entre os grandes formadores de talentos do futebol brasileiro. Também têm grandes e modernas infraestruturas para os jovens jogadores e sempre estão na cabeça pelos títulos nas principais competições de base no Brasil e no exterior. O que não quer dizer, porém, que ambos tenham conceitos similares na formação e no aproveitamento desses garotos criados em casa, o que reflete o jeito de ser de suas administrações e a própria cultura dos dois clubes.
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Seja na prospecção dos talentos, na forma de trabalhá-los ou no momento identificado para lançá-los entre os mais velhos, Santos e São Paulo têm mentalidades muito diferentes.
Uma das poucas coincidências, no Santos e no São Paulo, é a formação das comissões técnicas nas categorias de base, marcadas pela presença de ex-jogadores. A exceção nas três principais equipes são-paulinas é Bruno Petri, mas ainda militam por lá Zé Sérgio, do juvenil, e Vizoli, dos juniores, ambos com passagem pelo clube nos tempos de jogador.
Os santistas têm também um “estranho” no sub-15, que é Claudinei Oliveira. Nos times mais velhos, porém, está Paulo Robson, que comanda o sub-17 junto com Flavinho, outro ex-nome do clube. O sub-20 é de Narciso, que herdou o posto de Márcio Fernandes e tem a seu lado o eterno Lino, como auxiliar, e até o ex-goleiro Arzul, responsável pela preparação dos guardiões santistas.
Em 2009, os dois clubes traziam grandes expectativas com as categorias de base, mas só o Santos conseguiu certo êxito. Neymar e Paulo Henrique se estabeleceram, puxando André e Alan Patrick, embora a geração de Tiago Luís tenha sido definitivamente enterrada. O São Paulo, que encantou com seus /91 Oscar, Henrique, Bruno Uvini, Bruno Formigoni e Wellington na Copinha, mais uma vez priorizou os nomes mais velhos, apesar do fim do império Muricy Ramalho.
Santos: vale tudo pela garotada
Desde o sucesso de 2002, as categorias de base se tornaram um assunto sério na Vila Belmiro e a busca por novos talentos se intensificou. Com o dinheiro de vendas como a de Robinho, foi construída uma nova estrutura com todo o necessário ao respaldo para a formação das promessas. Vanderlei Luxemburgo, que havia deixado o clube em 2007, retornou dois anos depois e já sabedor de que, desta vez, precisaria olhar com mais carinho para as equipes de base.
Isso porque atualmente o Santos emprega esforço muito grande na prospecção de talentos de outros clubes que estejam contratualmente desprotegidos, estratégia na qual o Internacional se tornou referência em todo o futebol brasileiro. Só em 2009, o Peixe buscou Elivélton (ex-Corinthians), Crystian (ex-Vila Nova), Nikão (ex-Palmeiras e Mirassol), Rafael Caldeira (ex-Marília), Dimba (Goiás) e Esquerdinha (Fluminense), entre outros.
Nesse sentido, a parceria com o Grupo Sonda é decisiva e, também, dá margem a críticas por parte dos opositores do presidente Marcelo Teixeira. Os investidores possuem porcentagens nos direitos econômicos de boa parte dos jovens das categorias de base santistas. Muitos deles, inclusive, como Crystian, foram contratados pelo próprio parceiro, que usa as equipes inferiores santistas como vitrine.
No Santos, o lançamento dos jovens valores no time de cima se dá de forma muito menos conservadora em relação ao rival São Paulo. Dos últimos quatro anos, praticamente todas as promessas tiveram mais de três oportunidades nos profissionais, o que acontece pelo momento conturbado do profissional no período, além de um culto interno muito maior às promessas.
Outra característica marcante da base santista nos últimos anos é o tratamento megalomaníaco que se dá às promessas mais especiais. Neymar, que ganha salário de jogador profissional há mais de três anos, chegou ao time adulto com vencimentos na casa dos R$ 80 mil, além de ter recebido parte de seus direitos econômicos como luvas em renovações – e depois vendido por uma boa grana ao Sonda. Pelo mesmo caminho vem Jean Chera, com aproximados R$ 25 mil por mês aos 14 anos.
São Paulo: muitos gastos, pouco resultado
Ao contrário do que ocorre no Santos, o São Paulo tem uma postura muito mais conservadora em relação às suas categorias de base. São poucos os atletas prospectados em outros clubes e talvez Henrique e Lucas Piazon, ambos ex-Atlético-PR, sejam duas raras exceções. A aposta é no poder de observação dos olheiros do clube, nas indicações que trazem nomes como Breno e principalmente na boa e velha peneira.
É bem provável que não haja um só jovem sequer na base são-paulina que tenha seus direitos econômicos ligados a grupos de investidores. A aposta do São Paulo é sempre em captar seus valores muito novos e, com a ótima estrutura do CT de Cotia, ver os garotos crescerem como homens e jogadores, criando laços mais fortes com a instituição.
Isso faz com que o São Paulo, historicamente, seja um dos grandes fornecedores de talentos para as seleções brasileiras de base, como foi com Denílson, por exemplo, um dos destaques da primeira equipe sub-15 da história verde-amarela. Nota-se, nos meninos são-paulinos, um tipo de preparo mental bastante interessante e cuidadoso.
Se o Santos cultiva estrelas desde a própria base, o São Paulo também vê a situação com outros olhos. O trabalho da imprensa é bastante limitado e o clube, propositalmente, evita de expor suas promessas em público. As informações a respeito dos jogadores mais jovens são restritas e as possibilidades de entrevistas, remotas. A seleção de competições a ser disputada é bastante criteriosa, a fim de evitar que outras equipes possam “raptar” as pérolas mais valiosas, como aconteceu há dois anos com Oscar, escondido na Espanha por Juvenal Juvêncio.
Apesar do altíssimo investimento financeiro e do minucioso cuidado com cada azulejo no Centro de Treinamento em Cotia, o São Paulo adota uma postura muito lenta no que diz respeito ao lançamento das promessas entre os profissionais, o que ganhou força nos últimos cinco anos.
Além de Rogério Ceni, um nome extraclasse, o São Paulo só possuía dois jogadores formados em casa no último tricampeonato brasileiro: Jean e Hernanes, que curiosamente precisaram passar por empréstimos, e acabaram reciclados por Muricy quando já eram quase cartas fora do baralho.
Casos como o de Breno, que subiu e já jogou, são raríssimos, e o clube praticamente abdicou de toda a geração vice-campeã da Copinha em 2007, com nomes como os laterais Jackson e Cazumba, os volantes Serginho e Luan, os atacantes Thiago e Eric e o meia Léo Gonçalves. Remanescentes da turma, Aislan e Sérgio Mota estão à margem do elenco profissional.
Há dois anos, Juvenal Juvêncio deu entrevistas afirmando que, para 2010, o plano era ter um time todo de garotos da casa, apostando na maravilhosa geração /91. Hoje, observando o cenário dentro do Morumbi, é difícil crer que mesmo Oscar, o astro daquela companhia, possa ser titular no próximo ano.
Se estivesse na Vila Belmiro, Oscar possivelmente já teria a camisa 10 nas costas, daria 500 entrevistas por semana e teria seus direitos repartidos com investidores...
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