Lincoln Chaves - 02/12/2009
Nesta semana, será dada a largada para a quarta edição do Campeonato Brasileiro Sub-20. Embora muito jovem, se comparado a outras competições de base mais tradicionais como a Copa São Paulo e a Taça Belo Horizonte, o torneio assumiu rapidamente a posição de “terceira força” do cenário do futebol de base nacional, além de marcar o encerramento das atividades do ano no estado onde, conforme o Ranking Olheiros, estão as duas principais potências no trabalho de formação no país: Internacional e Grêmio.
Uma posição alcançada com uma gradativa evolução da organização, aliada ao maior acompanhamento da mídia e, evidentemente, ao peso de seu nome e de seus organizadores: a CBF e a Federação Gaúcha de Futebol (FGF). No entanto, ao término de suas últimas edições, o sentimento de que “algo ainda estava faltando” persistiu, e é assumido, inclusive, pela própria organização do torneio. “A gente sabe que ainda precisa melhorar bastante, mas estamos aprendendo a cada torneio”, admite o gerente de marketing da FGF e supervisor da competição, Diogo Rimoli.
Calendário
Na edição inaugural, em 2006, o nível técnico chamou a atenção, especialmente com as atuações destacadas de Alexandre Pato, que, no fim do ano, seria alçado à titularidade do Internacional, campeão do mundo no Japão. O elevado número de clubes e a data, situada no meio da temporada e no rigoroso inverno gaúcho, por sua vez, geraram críticas dos participantes. “Houve, também, um tempo curto, entre a confirmação do torneio e o início. Para um campeonato grande, era complicado”, conta Rimoli.
Em 2007, as modificações mais marcantes foram a transferência do torneio para o final do ano, visando um maior alcance de mídia (a competição tem início um dia após o fim do Campeonato Brasileiro, e passa a ser a única em andamento no país) e uma maior atenção por parte dos clubes participantes; e a redução do número de equipes para 20 (teoricamente, as que estão na Série A); no entanto, as mudanças não foram suficientes para fazer deslanchar a competição).
Uma das consequências foi justamente a ausência do elenco sub-20 de algumas equipes. O Santos, por exemplo, que disputava a fase final do Paulista da categoria, não levou ao Sul seus principais destaques, como Alemão e Tiago Luís, e rumou ao estado com uma base mista de atletas não utilizados na Sub-20 com a equipe juvenil, que já fora eliminada do estadual. O próprio Cruzeiro, campeão, acabou contando com jovens (promissores, é verdade) como Zé Eduardo e Bernardo, mas viu os principais nomes de seu elenco campeão da Copa São Paulo, como Guilherme, já no profissional.
No ano passado, mais uma vez, algumas equipes não vieram completas. Basta lembrar que o Santos, que, novamente, partiu com um time misto, apesar de avançar à segunda fase, foi goleado pelo sub-20 do Juventude, eliminado, e não conseguiu se sobrepor à força (até física) do Internacional nas quartas. E, além disso, há a proximidade com a Copa São Paulo, considerada a menina dos olhos das categorias de base, e que leva muitos times a adotarem o Brasileiro Sub-20, no máximo, como um estágio preparatório. Caso, por exemplo, de Corinthians, Atlético-MG, dentre outros.
Contraponto
O calendário, apesar de não propiciar elencos completos, não é, na visão de Rímoli, um agente prejudicial. “Se a gente avaliar de uma maneira fria, apenas São Paulo e Rio de Janeiro estão na reta final de suas competições, diferente de outros estados, como o próprio Rio Grande do Sul, que encerra o torneio de juniores no meio do ano”, lembra. “Claro, não adianta mandarem uma equipe meia-boca para cá, mas entendemos que, depois de tudo, não é certo largarem o estadual, que é um torneio importante, no meio do caminho”, analisa.
A proximidade da Copa São Paulo e a predileção de alguns clubes em investir no Brasileiro Sub-20 como um estágio de teste, por sua vez, também é vista como positiva pelo coordenador do campeonato. Segundo ele, isso já sinaliza a importância do torneio. “Também é importante quando os times optam em se preparar para a temporada pelo Brasileiro, pois quando alguém decide investir grana aqui, é porque reconhece que esta é uma grande competição, ideal para colocar os grandes frente a frente, para testes realmente competitivos”, avalia.
Ainda assim, Rímoli admite que o cenário ainda não é o ideal. “A questão da participação dos jogadores é uma discussão frequente na organização, e a conclusão nossa é a de unificar o período dos estaduais de base”, defende. “Deve haver um cuidado, para adequar as competições aos grandes torneios nacionais, como o Brasileiro, a Taça BH e a Copa São Paulo, na preparação de um calendário. Mais cedo ou mais tarde, isso será motivo de nova conversa. É muito necessário”, afirma o gerente de marketing da FGF.
Ausências
Há, ainda, uma outra questão: os principais destaques sub-20, fatalmente, já estão vinculados aos times profissionais, o que afasta, por exemplo, nomes como os garotos da seleção brasileira sub-20 da competição. Apesar disso, a mudança de categoria do Brasileiro está fora de cogitação. “Ela nasceu para ser sub-20 e já está consolidada. E mesmo assim, já vimos muitos bons jogadores passarem pela competição além do Pato, como o William, Renato Augusto, Carlos Eduardo, Anderson Lessa, Ciro, Sandro, Rafael Carioca... Há uma gama grande”, pondera.
E não são apenas as ausências de jogadores que chamam a atenção. A desistência de equipes também ganhou destaque nos últimos anos, às vezes, por motivos alegados bastante estranhos. Em 2007, por exemplo, América-RN e Vasco optaram em não jogar a competição no Rio Grande do Sul. Em 2008, segundo Rímoli, os cariocas, alegando estar em período eleitoral (a eleição já fora realizada anteriormente), também ficaram de fora.
Desde 2008, quem não dá as caras no Brasileiro é o São Paulo. Algo que se repetirá em 2009. “No ano passado, a alegação era que os alunos estavam em período escolar na época da competição”, revela Rímoli. Vale lembrar que o tricolor paulista possui alguns entraves políticos com a CBF e a FGF, além de priorizar uma preparação separada para a Copinha.
Agora vai?
Mas, apesar disso, a edição 2009 tem boas perspectivas. Primeiramente porque a maioria dos times envolvidos já estão com seus elencos sub-20 liberados — ou não tem desculpas de “outros torneios” para impedir as participações completas. Fora Palmeiras e Barueri, que estão nas semifinais do Paulista Sub-20, os demais clubes de São Paulo (exceto o tricolor) já estão livres. Tanto que o Santos, que vem de duas disputas com elencos juvenis, enfim irá ao Brasileiro Sub-20 completo, com Breitner e companhia.
No Rio, nenhum dos grandes atualmente na Série A chegou à decisão da Taça OPG (o Vasco foi campeão), o que também abre a possibilidade dos cariocas virem com força máxima. Situação semelhante às dos gaúchos, mineiros, pernambucanos, catarinenses e paranaenses. O que, em tese, pode levar, pelo menos, 18 dos 20 participantes a apresentarem o que têm de melhor ao Rio Grande do Sul, ainda que se espere que alguns sub-17 apareçam, como sempre, visando a Copinha, em janeiro.
Diogo Rímoli avalia, ainda, que a escolha das sedes será outro atrativo da competição, em virtude, principalmente, do ponto de vista de exposição do torneio. Para 2009, Novo Hamburgo retorna às cidades selecionadas pela FGF, sendo acompanhada por Erechim, Santa Rosa e Santa Maria. E o principal ganho, segundo o supervisor do Brasileiro, são as parcerias com as prefeituras, “que ajudarão na questão de logística e estrutura”. “Essas quatro cidades, com mais ênfase nas três últimas, contam com uma mídia interna muito forte e veículos de comunicação presentes, com dois a três jornais grandes. Além disso, Novo Hamburgo tem a proximidade com Porto Alegre”, completa.
Por fim, há o pensamento de que, após três edições, o aprendizado foi grande, e diferentemente dos outros anos, não foram detectadas maiores dificuldades no trabalho de organização. Para Rímoli, a manutenção das 20 equipes — e apenas um dos times da primeira divisão brasileira estar ausente na edição deste ano — estão entre esses sinais. “A redução da idade das outras competições, como a Copinha (sub-18) e a Taça BH (sub-19), abriu espaço para que nos tornássemos referência no sub-20”, avalia. “Claro, no aspecto global, há chão a ser trilhado, mas no ponto de vista de forma e conteúdo, chegamos a um ponto interessante, e seguimos aprendendo”, finaliza.
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