Maurício Vargas - 29/12/2009
Uma das maiores críticas à Copa São Paulo é com relação ao aumento abusivo de clubes participantes nos últimos anos – em 1996, eram 32; quatro anos mais tarde, em 2000, o número dobrou para 64; e desde 2005 são 92 times divididos em 23 grupos, o maior campeonato disputado no Brasil anualmente, considerando amadores ou profissionais. Isso diminuiria consideravelmente o nível técnico da competição, o que também foi motivo para se reclamar da mudança de faixa etária, de sub-20 para sub-18.
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Mas a chiadeira maior foi motivada mesmo pela invasão de times desconhecidos, clubes de empresários e equipes de aluguel formadas apenas para a disputa, em busca de negociações rentáveis com os inúmeros observadores que invadem o interior de São Paulo a cada janeiro, devidamente munidos de máquina fotográfica, papel, caneta e uma boa capa de chuva – os temporais de verão no final da tarde são marca registrada da Copinha.
O alto número de vagas disponíveis e a enorme vitrine que ainda é a Copa São Paulo fazem mais clubes se acharem no direito de pleitear a participação, buscando uma fatia do bolo graças a um desempenho razoável nos estaduais ou em qualquer uma das diversas competições de base que acontecem todos os anos. Entretanto, por ser um campeonato não oficial, existe uma briga muito grande em busca dos convites que a Federação Paulista tem em mãos todos os anos para distribuir a quem bem entender – e é aí que a influência da política de bastidores entra em campo.
Neste especial, contamos algumas dessas histórias, especificamente da edição 2010. Clubes que tinham vagas garantidas e perderam-na de um dia para o outro, outros que foram convidados às pressas, cidades-sede que não terão sua equipe em campo e até representante definido na moedinha. Depois de ler, talvez você entenda melhor, ao assistir aos jogos, o porquê de Bambalas, Arimateias e tantos outros desconhecidos do mundo da bola estarem em campo ao lado de Flamengo, Corinthians, São Paulo e outros grandes.
Mato Grosso do Sul: o incrível campeonato que não aconteceu
A história não é nova aqui no Olheiros: trouxemos-na em setembro, na coluna Ponto Futuro, mas vale a lembrança. O presidente da federação sul-mato-grossense, Francisco Cezário de Oliveira, foi condenado a quatro anos e cinco meses de prisão por ter supostamente desviado verbas da FFMS para sua campanha política para prefeito no município de Rio Negro, em 2000.
No poder desde 1998 (data da última eleição na federação), Cezário foi obrigado a devolver quase R$ 60 mil aos cofres da FFMS, mas suspeita-se que tenha desviado muito mais, afinal, seu controle sobre a tesouraria da entidade é bastante rígido. Ninguém garante, por exemplo, que o valor devolvido – se efetivamente devolvido – não retorne aos bolsos do monarca do futebol no estado.
Com isso, milhares de reais que deveriam ter sido investidos nos clubes (incluindo as bases) nos últimos dez anos acabaram tendo outro destino. Para piorar, a briga entre Cezário e os clubes chegou aos campeonatos de base. Por ordem federação, só poderiam participar da Copa MS Sub-18, o estadual da categoria, os clubes que tivessem disputado o Sul-Mato-Grossense profissional nos últimos três anos. Além disso, somente atletas profissionais seriam aceitos. Ou seja, todos os clubes seriam obrigados a registrar profissionalmente os garotos de 16, 17 e 18 anos e pagar as taxas devidas de filiação.
Depois de muita confusão, apenas oito clubes se inscreveram e a federação determinou o cancelamento da Copa MS, anunciando que, pelo ranking da categoria, o Comercial de Campo Grande seria o representante sul-matogrossense na Copa São Paulo, já que o campeonato é que definiria o classificado.
Isso fez com que toda uma geração de jovens atletas perdesse um ano de sua formação, sem disputar o campeonato mais importante do calendário local, prejudicando o desenvolvimento deles e, por tabela, do próprio futebol do estado, que deveria ser defendido pela federação. Alega-se que Cezário possui vínculo próximo ao Comercial e que, por isso, o time da capital tenha sido o escolhido.
Curiosamente, a Federação Paulista acabou por convidar o Operário, maior campeão estadual e semifinalista do Brasilerão de 77, a participar da Copinha. No site da Federação, a participação dos dois clubes é citada em uma notícia em que coloca entre aspas o convite ao Operário e ressalta o fato de o Comercial “ser a única equipe devidamente inscrita na Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS) no Sub-18”. Quanto à preparação, apenas notas a respeito do trabalho do Saci da Vila, maior rival do Operário. Não é de se estranhar, portanto, que o esporte não se desenvolva no estado.
A cidade sem time e outras histórias
Mas se a FPF fez “justiça” com o Operário, muitos clubes se manifestam indignados com a organizadora da Copinha. Em Mogi Guaçu, a 160 quilômetros de São Paulo, o estádio Alexandre Augusto Camacho, com capacidade para pouco mais de 5 mil pessoas, será sede da competição pela primeira vez. Mas dificilmente as arquibancadas estarão cheias, e nem é pelo fato de não haver um grande clube na chave J.
Acontece que o Clube Atlético Guaçuano, o time da cidade, não foi chamado a participar. Torcida, clube e imprensa local ficaram revoltados, ainda mais porque o vizinho e rival Mogi Mirim estará jogando ali pertinho, em Limeira – mesmo com Mogi Mirim não sendo sede. Poderia-se até usar o argumento de que o Guaçuano disputa apenas a quarta divisão do futebol do estado, mas em 2009 ele foi mais longe que o Primavera de Indaiatuba, por exemplo, e o Fantasma será novamente uma das sedes. A última esperança era a vaga que se abriu com a desistência do Portsmouth, da Inglaterra, justamente no grupo de Mogi Guaçu. Mas a FPF preferiu convidar o XV de Piracicaba, que às pressas formou um time para a disputa da competição.
Quem também não está nada contente é o Cerâmica Atlético Clube, de Gravataí (RS). Vice-campeão estadual sub-20 em 2009, o ascendente time conhecido como Ligeirinho tornou-se profissional apenas em 2007 e já irá debutar na Copa do Brasil em 2010, além de ter batido na trave na briga pelo acesso ao Gauchão. Campeão da Copa Alceo Bordignon de Juniores, torneio sub-19 criado neste ano para manter em atividade as equipes gaúchas, o Tricolor do Gravatão reclama a falta de espaço para outros clubes disputarem a Copa São Paulo. Grêmio, Inter, Juventude e São José (agremiação ligada ao presidente da FGF, Francisco Noveletto Neto) serão os representantes do estado pelo quarto ano consecutivo.
Para encerrar nossos exemplos, outro time que disputará a Copinha graças a um convite e a boas relações com a Federação Paulista e o governo local é o Americano, do Maranhão. Campeão estadual em 2005 mas sem futebol profissional nos últimos anos, quando passou a atuar somente nas categorias de base, o time de Bacabal sequer chegou ao quadrangular decisivo do Maranhense Sub-18, mas foi chamado a participar da competição. Isso irritou os clubes rivais, especialmente IAPE, Pindaré e Codó, que disputaram a fase decisiva ao lado do Marília, que se sagrou campeão e garantiu sua vaga.
“No início do campeonato, a federação anunciou que seriam duas vagas para a Copa São Paulo, para o campeão e o vice. Os times grandes, como Sampaio Corrêa e Moto Club, ficaram de fora da decisão, e a regra foi mudada no meio da disputa, com apenas uma vaga indo para o campeão e a outra por convite. E foi aí que o Americano entrou”, conta João Ricardo, repórter do jornal O Imparcial, de São Luís. Até se esperava que Sampaio ou Moto fossem chamados, por serem os mais tradicionais do estado, mas o bom relacionamento do Americano e o fato do clube ter sido campeão estadual sub-20 e da Copa Maranhão em 2008 acabaram pesando.
São apenas alguns dos tantos exemplos de times que caíram de gaiato na Copa São Paulo, aproveitando o momento mais para fazer turismo e conhecer o estado mais desenvolvido do país do que propriamente entrando no campeonato com algum objetivo. Mais que um torneio, a Copinha tornou-se o maior balcão de negócios do futebol brasileiro. Uma grande festa, que para entrar é preciso ter o bilhete VIP.
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