André Rocha - 07/02/2010
É possível imaginar um clube de bairro vencendo duas enormes potências que dominaram o cenário de clubes nos anos anteriores na Europa e na América do Sul? Esse foi o feito do Vélez Sarsfield da Villa Luro em 1994. Superando todas as desconfianças, a equipe de Buenos Aires, considerada “zebra” já na primeira fase da Libertadores, superou os papões do início da década e eternizou seus heróis com uma conquista tão improvável quanto inesquecível.
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A montagem da base no Clausura 1993
A epopéia começou no ano anterior, com a conquista do Clausura, segundo título nacional do clube. Ou no segundo semestre de 1992, com a chegada de Carlos Bianchi, maior artilheiro da história do Velez com 206 gols, que iniciou sua carreira de treinador na França em 1984 e assumiu o comando técnico do time que o consagrou como jogador.
A conquista que classificou “El Fortín” para a competição continental veio na décima-oitava rodada do torneio com um empate em 1 a 1 fora de casa com o Estudiantes de La Plata.
A equipe era formada por jogadores da base como o volante Marcelo Gómez, o meia Christian Bassedas e os atacantes Omar Andrés Asad e José Turu Flores, aos quais se somaram atletas mais rodados, vice-campeões no ano anterior sob a direção de Eduardo Luján Manera, entre os quais o goleiro paraguaio Chilavert, os zagueiros Roberto Trotta e Víctor Sotomayor, o lateral Raúl Cardozo e o volante José Basualdo.
Libertadores: exterminador de brasileiros, rei dos pênaltis
Na primeira fase, um autêntico “grupo da morte”, com o Boca Juniors, campeão do Apertura comandado por César Luis Menotti, Palmeiras, então campeão brasileiro, e Cruzeiro, vencedor da Copa do Brasil.
Os empates em 1 a 1 com Boca em casa e fora contra o Cruzeiro deixaram a equipe em desvantagem na chave. Mas o gol de Omar Asad, “El Turco” que comemorava os gols com dancinhas exóticas, na vitória por 1 a 0 no Estádio Amalfitano contra o então líder Palmeiras, que havia superado o Cruzeiro por 2 a 0 e imposto contundentes 6 a 1 sobre o Boca, mostrou que o time azul e branco poderia sonhar com a classificação considerada inimaginável pela força e tradição dos concorrentes.
Os triunfos sobre os xeneizes na Bombonera por 2 a 1 e por 2 a 0 em seus domínios contra o Cruzeiro garantiram a vaga e a liderança. Na última rodada, a única derrota: 4 a 1 para o Palmeiras de Luxemburgo em São Paulo, resultado que garantiu também a passagem do alviverde para a etapa seguinte.
Atuando em um 4-4-2 ortodoxo, com praticamente quatro volantes no meio que marcavam e e insistiam nos lançamentos para a dupla de ataque formada pelos jovens Flores e Asad, o time argentino tinha em Chilavert, 29 anos, o líder que comandava a defesa e sabia irritar os oponentes com catimba e provocações, além da habilidade com a bola nos pés que iniciava a saída de bola.
O paraguaio se mostraria também uma arma letal nas decisões por pênaltis, tanto nas cobranças sempre precisas como em intervenções fundamentais. Já nas oitavas de final contra o Defensor, após empate em 1 a 1 em Montevidéu e sem gols na Argentina, Chilavert, com duas defesas, garantiu a classificação com a vitória por 4 a 2 (na época não havia o “gol qualificado”).
Depois da tranquila classificação para as semifinais superando o Minerven por 2 a 0, gols de Flores e Asad, em Buenos Aires após o 0 a 0 na Venezuela, a vaga na final novamente foi conquistada nos pênaltis sobre o Atlético Junior de Barranquilla. Derrota na Colômbia por 2 a 1 e vitória pelo mesmo placar em casa. Nos penais, 5 a 4, com Chilavert pegando a cobrança que poderia ter definido a vaga para os visitantes e contando com a sorte no chute que bateu na trave, já nas alternadas.
Na decisão, os argentinos entraram como zebra absoluta diante de mais um time brasileiro: o São Paulo, bicampeão sul-americano e papão de títulos comandado por Telê Santana. Embora não tivesse mais Raí, o tricolor do Morumbi era forte e tivera campanha menos turbulenta, já entrando nas oitavas, privilégio do vencedor do ano anterior, e só definindo nas penalidades a semifinal contra o Olímpia em Assumpção.
No José Amalfitani, muita pressão e mais um gol de Asad, 22 anos, que lembrava o paraguaio Salvador Cabañas pela estatura, porte “atarracado” e o jeito abusado. Impressionava também sua facilidade de penetrar pela direita e bater forte e cruzado. Assim marcou metade dos seis gols que o tornaram vice-artilheiro do torneio, um a menos do que Stalin Rivas do Minervén.
A grande final no Morumbi foi tensa, com o São Paulo abrindo o placar com Muller, em cobrança de pênalti sobre Euller, e aumentando ainda mais a pressão após a justa expulsão de Cardozo por dar um pontapé em Vítor. Os são-paulinos protestam até hoje, com razão, de um pênalti claro de Marcelo Gómez ao tocar com a mão na bola ao interceptar cruzamento da esquerda. O fato é que os erros nas conclusões e a pouca objetividade, além da eficiência do adversário na marcação, levaram a decisão para os pênaltis.
Pelo retrospecto, era de se compreender a vibração dos comandados de Bianchi ao final dos 90 minutos. E Chilavert justificou a confiança pegando a primeira cobrança, de Palhinha, e convertendo a sua em seguida, colocando sua equipe na frente. Os times não erraram mais e Pompei definiu os 5 a 3 que garantiram o título histórico.
A América era do clube fundado em 1910 e que ganhava seu primeiro titulo internacional. Mas eles queriam mais.
Apoteose em Tóquio
Na grande decisão intercontinental, o oponente, mais uma vez, era um gigante. Novamente, um bicampeão: o Milan, que havia conquistado a Liga dos Campeões arrasando o “Dream Team” do Barcelona por 4 a 0 em Atenas e contava com craques como Baresi, Maldini, Donadoni, Desailly, Savicevic e Boban.
No entanto, o time rossonero comandado por Fabio Capello não era o mesmo do primeiro semestre, talvez pela depressão que tomou conta da Itália por conta da perda da Copa do Mundo para o Brasil nos pênaltis e uma notável queda técnica no início da temporada 1994/95. Os rubro-negros tinham sido eliminados na Copa da Itália e vinham mal no Calcio e na Liga dos Campeões.
Bem organizado em duas linhas de quatro, marcando a saída de bola e contragolpeando com muita velocidade, o Vélez, com a base campeão da Libertadores - apenas Almandox entrou na vaga de Zandoná – aproveitou-se de uma jornada infeliz do zagueiro Costacurta para marcar seus gols na segunda etapa. Primeiro o zagueiro cometeu pênalti tolo em Flores que o capitão Trotta converteu batendo entre as pernas de Rossi. Depois recuou mal a bola que Asad aproveitou, ganhando do goleiro e batendo de virada sem ângulo para marcar 2 a 0 e coroar o ano maravilhoso do indestrutível “El Fortín”.
A festa no Japão ecoou por toda a Argentina, que via um clube menos popular e tradicional conquistar o planeta. O Vélez compensava com taças um ano duro para os “hermanos”, com a eliminação nas oitavas de final no Mundial dos EUA para a Romênia de Hagi e, principalmente, a suspensão do ídolo Maradona por doping.
Era o início da trajetória vencedora de Bianchi, o “Sr. Libertadores”, que faturaria mais três taças com o Boca Juniors, além de dois mundiais. Novamente a dosagem certa de juventude e experiência, com a aposta nas jovens revelações, agigantou um “Davi” que soube enfileirar os “Golias” do planeta bola e viveu um sonho dourado.
Ficha técnica
Clube/Seleção: Vélez Sarsfield (Argentina)
Treinador: Carlos Bianchi
Competições: Taça Libertadores / Mundial Interclubes
Ano: 1994
Time-base: Chilavert; Zandoná, Trotta, Sotomayor e Cardozo; Basualdo, Gomes, Bassedas e Pompei; Flores e Asad
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