Lincoln Chaves - 08/02/2010
Jogadores com imenso potencial e futuros apontados como brilhantes. As semelhanças entre Keirrison e Neymar, duas das mais recentes promessas brasileiras ofensivas brasileiras, acabam por aí. Enquanto o santista, desde o ano passado, cativa a torcida com suas jogadas lépidas e, há 13 jogos, mantém uma ótima média de um gol por partida, K9 vive, desde o segundo quarto de 2009, um pesadelo profissional. E observar um pouco do extracampo dos dois atletas ajuda bastante a entender razões para tais realidades. Trata-se de uma prova clara de como a influência externa na carreira de jovens jogadores pode ser positiva ou negativa.
>>> Destaque nos juniores do Flamengo, João Vítor está próximo do profissional
>>> Veja dez jovens que possivelmente irão despontar em 2010
O caso de Keirrison é o exemplo, naturalmente, da consequência das influências negativas. Após saídas turbulentas de Cene (MS) e Coritiba, viveu os dois lados da moeda no Palmeiras. Teve um começo fulgurante, mas caiu quando surgiram as primeiras sondagens do exterior, e, em especial, a do Barcelona. Coincidentemente, o clube que o contratou por incríveis 15 milhões de euros, num momento em que K9 já não tinha a confiança de seus colegas, era acusado de fazer corpo-mole pela torcida, e havia provocado até a demissão de Vanderlei Luxemburgo, que sumiu de treinos sem avisá-lo, causando a ira do treinador.
Keirrison, vale lembrar, é empresariado por Marcos Malaquias, que tem, no currículo, participação importante na polêmica saída de Dagoberto, então jovem com enorme potencial e em bela fase pelo Atlético-PR, para o São Paulo. Mesmo titular no tricolor, é fato que a carreira do atacante foi duramente abreviada. No caso do K9, sabia-se do gosto do jogador pelo Barcelona, a ponto de exigir, no contrato do jogador com a Traffic, a cláusula que o liberaria aos blaugranas em caso de proposta, a qualquer momento. Ela veio, e não se demorou em negociar o jogador com os espanhois, mesmo com o atleta demonstrando, no Palmeiras, ainda não ter condições de atuar na Europa.
Evidente, não se fala aqui pela ótica técnica, já que o faro de gol de alguém que, com 19 anos, foi artilheiro de um Campeonato Brasileiro, confirma a qualidade do jogador. No entanto, Keirrison se mostrou um atleta que ainda não está mentalmente preparado para atuar em níveis mais elevados. A facilidade com a qual se abateu e se escondeu no Palestra Itália quando vieram as primeiras críticas, confirma isso. Não precisa ser muito entendido de futebol para entender que, com um psicológico assim, dificilmente K9 iria ter uma vida fácil no Velho Continente. Mas, mais importante que isso, para quem o cercou, era ver o negócio realizado.
Uma situação semelhante viveu o outro personagem aqui abordado, que é Neymar. Empresariada por Wagner Ribeiro, o mesmo que atuou nas polêmicas idas de Robinho ao Real Madrid e, posteriormente, ao Manchester City, e na confusa saída de Kaká para o Milan, a jovem revelação santista também esteve às portas de rumar à Europa mais cedo do que se esperava, sob pressão de Ribeiro. Em 2006, com apenas 14 anos, o jogador esteve para assinar em definitivo com os merengues. No entanto, na hora H, os planos mudaram, e o pai, também Neymar e principal responsável pelo atleta cancelou o acordo.
O motivo? Neymar (filho) não estava preparado nem interessado em deixar o País. Mesmo hoje, o atacante não tem pressa. Tudo porque tem uma vida plena e feliz em Santos e no Peixe, com amigos e família próximos, além de estar completamente entrosado com os demais jogadores. E um dos grandes trunfos que o garoto tem para a carreira é a atenção total que seu pai tem em sua carreira, desde antes dos 10 anos. Atenção essa na medida, sem pressão para que o menino logo virasse adulto, acompanhada de uma boa estrutura familiar que lhe permite, paralelo à carreira, ser também um garoto de agora 18 anos.
No ano passado, quando, mais uma vez, tentou-se arrastá-lo à Europa — no caso, ao Manchester City — Neymar (pai), sabendo que o filho ainda vivia um processo de amadurecimento pessoal e profissional, para garantir sua permanência no Santos, vendeu os demais 40% dos direitos econômicos do filho (o Santos é dono dos outros 60%) ao Grupo Sondas, parceiro santista, que garantiu o jogador na Vila até 2014 ou até o pagamento dos 30 milhões de euros de sua cláusula de rescisão. Outro fator esse que garante, por pelo menos mais alguns anos, um espaço amplo para Neymar crescer em campo, chegar à seleção e, claro, até, enfim, ir para a Europa.
O resultado dos diferentes ambientes aos quais Keirrison e Neymar vivem é o que está refletido hoje. K9 está no Velho Continente, mas triste, desvalorizado, vindo de uma passagem caricata pelo Benfica, e tendo na já formada Fiorentina uma de suas últimas chances de mostrar ao Barcelona que os 15 milhões de euros não foram jogados no lixo. N17, por sua vez, é ídolo, é feliz, sabe dar tempo ao tempo e tem alguém muito próximo, e que dificilmente tomará decisões unilaterais, ao seu lado, que é seu pai. A Keirrison, ainda há tempo de reverter a fase, mas, para isso, deve se aproximar de pessoas que, além dos negócios, pensem também na peça mais importante da negociação: ele.
Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008
Triares