Olheiros | porque o mundo do futebol se renova

Professores da base

Pekerman: do anonimato para o sucesso

Assine nosso RSS

Marcus Alves - 21/02/2010

Lá se vão 17 anos desde o último título entre os profissionais. Um jejum muito grande para um país como a Argentina, que, mesmo sem a tradição em Copas que alguns insistem em apregoar, não pode ter a sua condição de potência contestada. Nesse meio tempo, argumentam por aí, houve a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2004.  Embora seja verdade que alguns jogadores mais velhos tenham participado da campanha em Atenas, se trata de um torneio reconhecidamente de categorias de base.

>>> Confira a nova atualização do Ranking Olheiros das categorias de base
>>> Veja o que aconteceu na Copa Viareggio

Sendo assim, para encontrarmos a última glória platina nos gramados, precisamos voltar até 1993 e a disputa da Copa América. Isto é, como se a situação já não estivesse ruim, o último título argentino se deu num campeonato que, hoje em dia, já não goza do mesmo prestígio do passado.

Por ironia do destino, foi justamente a partir dali que os albicelestes se deram conta da crise em que estavam afundados e remanejaram seu planejamento. Naquela altura, mesmo com o sucesso no Equador, os rivais brasileiros praticavam um futebol que pouco tinha a ver com as suas raízes históricas, de dribles, toques rápidos e jogadas insinuantes. Era um estilo truculento que, é claro, se refletia na base – basta ver o time que disputou o Mundial Sub-20 de 2001, com expoentes como Pochettino, Pelegrino e Esnaider.

Já no comando da federação local naquela altura, o eterno Julio Grondona chegou à conclusão de que era necessário mexer nas estruturas do esporte – uma medida muito parecida com a promoção de Maradona e a geração 86 que vai tão mal no comando dos times nacionais atualmente. O dirigente rompeu, então, o vínculo da base com a equipe principal, possibilitando o surgimento de uma figura que conduziria a equipe às suas mais recentes conquistas: José Néstor Pekerman.

Das ruas para os campos

Até 1994, a coisa funcionava da seguinte forma na Argentina: o técnico dos profissionais era o responsável por cuidar também da garotada. Uma tarefa quase impossível. Não é preciso nem dizer que, com isso, os mais jovens acabavam ficando inevitavelmente desamparados em alguns instantes. Passava certamente por esse acúmulo de funções a má transição a que vinham sendo submetidas as promessas.

Com a decisão de Grondona, o novo treinador do país, Daniel Passarella, deixou de ter a influência que o seu antecessor, Alfio Basile, por exemplo, teve sobre os garotos. Seria um trabalho restrito a partir de então ao escolhido pelo cartola, através de um processo seletivo, para comandar o novo departamento. Vários profissionais foram cogitados para o cargo, mas a simpatia de Grondona recaía, de verdade, sobre Carlos Grigol.

O suposto apoio do comandante argentino a Grigol gerou, inclusive, certa desconfiança entre os candidatos ao posto. Em boa parte, eles acabaram desistindo de participar da disputa. Nem todos, porém, tomaram esse caminho. Um mero desconhecido na época, Pekerman manteve o seu interesse e apresentou o seu projeto, que, para a surpresa geral, viria a ser conclamado por Grondona o vencedor.

Começava ali uma era, a princípio, de muitas incertezas para os argentinos. Ninguém entendia muito bem como um profissional que, aos 28 anos, teve que abandonar o futebol e, desde então, fez trabalhos de pouco destaque e passou a trabalhar como taxista poderia ser a chave para recolocar o futebol do país nos trilhos. A desconfiança geral era, de fato, justificável, mas Pekerman, com a dedicação que caracterizaria a sua passagem, a derrubaria em pouco tempo.

A primeira impressão ficou

Antes de chegar à seleção, José Pekerman teve apenas duas experiências como técnico. No Colo Colo, não fez nada memorável, enquanto que, pelo Argentinos Juniors, vá lá, esteve envolvido na formação de nomes como Diego Cagna e Fernando Redondo. Foi dessa fase, aliás, que veio a sua indicação para escudeiro: Hugo Tocalli, atual comandante do Cacique chileno e adversário em torneios de categorias de base pelo Vélez Sarsfield.

Formava-se, assim, a estrutura sobre a qual se assentariam as principais conquistas argentinas nos anos que viriam a seguir. Em quatro Mundiais Sub-20 disputados, três títulos e uma dezena de jogadores revelados. Em 1995, logo em seu primeiro desafio, Pekerman já mostrou a que veio e assegurou a taça no Catar, com um elenco que apresentava como destaques Juan Pablo Sorín, Ariel Ibagaza e Leonardo Biagini.

Dois anos mais tarde, veio o bi na Malásia e a explosão de Esteban Cambiasso, Pablo Aimar e Juan Roman Riquelme. Em 1999, um pequeno acidente de percurso e a equipe passou em branco para na edição seguinte, realizada em casa, fazer a alegria de seus torcedores e coroar a afirmação de um atacante baixinho e veloz que já fazia sucesso na época com a camisa do River Plate: Javier Saviola. Encerrava-se ali a passagem física de Pekerman pelo banco de reservas na base.

“Física” porque a sua influência se sustentou até 2008, com a contratação de um dos membros de 86, Sergio Batista, como novo coordenador da base. Os laços de união da equipe de profissionais de Pekerman ficaram claros naquele momento, quando todos integrantes decidiram de uma só vez entregar seus cargos em solidariedade a um colega demitido pelo presidente da federação, Julio Grondona.

O movimento, por si só, revela sobre quais valores estavam apoiados o trabalho de Pekerman. Algo evidente pela preocupação que o treinador sempre mostrou com a formação pessoal de seus atletas. Um tratamento humano que rendeu para seu currículo a assinatura no sucesso de diversos nomes. Não custa dizer que foi em sua gestão que a Argentina descobriu a figura do psicólogo como membro da comissão técnica das equipes.

Os clubes locais também agradecem

A seleção não foi a única a comemorar os frutos da passagem de Pekerman à frente da garotada. Os clubes argentinos também viram catapultar o número de revelações no país. Se em 1995 o técnico levou para o Catar um grupo formado por jogadores sem experiência entre os profissionais, nas temporadas seguintes isso mudaria. Ou seja, o trabalho na base acabou impulsionando, de forma indireta, as finanças dos times, que viram suas joias valorizadas com o sucesso dos Pekerboys pelo mundo.

A falta de títulos da equipe principal transmite a falsa ideia de que algo se perdeu no período que marca a promoção dos jovens. Talvez, sim, talvez, não. É um detalhe que, para sempre, poderá ser utilizado como argumento contra o trabalho de Pekerman - que, na Copa de 2006, teve, inclusive, a oportunidade de derrubar essa suspeita e acabou sendo mais um a ficar pelo caminho.

O ex-capitão argentino Diego Simeone foi um dos que tentou explicar essa dificuldade, comparando seus compatriotas ao Brasil: “nós formamos bons jogadores, enquanto eles, craques”. Amante do futebol bem jogado, Pekerman certamente discorda dessa tese e possui uma carteira de garotos que passaram por suas mãos para rebatê-la. De pouco, no entanto, valerá. Desde 2007 no México, ele é consciente da revolução que promoveu no país. Os resultados que se seguiram ao fim de sua era falam por si só.

Ficha técnica

Nome completo: José Néstor Pekerman

Idade: 60

Local de nascimento: Villa Domínguez, Argentina

Clubes e seleções que dirigiu: Argentinos Juniors, Colo Colo, Argentina, Toluca e Tigres

Principais títulos: Mundial Sub-20 de 2001, 1997 e 1995 e Sul-Americano Sub-20 de 1997 e 1999



Colunas anteriores:

Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008

Triares