Lincoln Chaves - 01/03/2010
Johan Micoud, Peter Luccin, Jonathan Zebina, Gael Clichy, Bruno Bellone, Patrick Vieira, Julien Faubert, e, principalmente, um certo Zinedine Zidane. A lista é, na verdade, muito mais extensa, e evidencia o enorme potencial que as categorias de base do Cannes desenvolveram ao longo dos anos, tornando-se referência em toda a França. No entanto, nos últimos anos, um total abandono do maior tesouro da equipe, aliado a uma crise financeira que quase faliu o clube e obrigou-o a deixar o profissionalismo jogaram os Rouge Et Blanc e sua tradição na formação no ostracismo.
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O caminho para a reestruturação, porém, é traçado desde 2006, e tem na base um de seus mais importantes eixos, tanto para auxiliar a composição de elencos como na obtenção de recursos para o verdadeiro desafio de recolocar o ASC, ao menos, no segundo escalão do futebol francês. E sabem aquela história de que construir uma reputação é difícil, mas derrubá-la é muito fácil? Que dirá então reconstruir esse nome, numa era em que os investimentos na formação e a manutenção de jovens de qualidade, especialmente em clubes menores, é ainda mais difícil?
A derrocada da base é proporcional ao afundamento do clube. Desde que foi rebaixado para a Championnat National (terceira divisão), há dez anos, o Cannes nunca conseguiu retornar, ao menos, à Ligue 2, chegando até a flertar com o rebaixamento em algumas oportunidades. Não bastasse, há quatro anos, esteve muito perto de cair administrativamente de divisão, em virtude da virtual falência, que por muito pouco não se consolidou. Uma tragédia para um time que, há 15 anos, vivia seu melhor momento, revelando Zidane e Vieira e chegando até a disputar a Copa da UEFA.
Em uma entrevista concedida ao portal francês Actofoot, um dos técnicos da formação do Cannes, David Bettoni, reconheceu a derrocada na base, revelando dois problemas como fundamentais para tal. Uma é a dificuldade que se confirmou, principalmente na década atual, em trazer jogadores. Mesmo com profissionais espalhados no país e com um discurso que remete aos históricos nomes já revelados pelo clube como forma de motivar a escolha pelo ASC, a preferência de pais e responsáveis tem sido levar os filhos para outros times em melhor fase na região, como Nice e Mônaco.
O outro fator foi uma decisão interna, conforme Bettoni, em virtude do rebaixamento e da necessidade de retorno imediato à Ligue 2, de investir quase que unicamente em jogadores mais experientes ou rodados na divisão. A base, portanto, acabou esquecida, com a crença de que o investimento na formação traria resultados apenas a longo prazo. Ainda assim, foram acumulados fracassos atrás de fracassos, com uma vertiginosa queda na “produção” de revelações. Nesse período, surgiram somente Clichy, que deixou o clube ainda antes de se profissionalizar, e o limitado Faubert.
Não bastasse, o cenário do desleixo com a qual se encontravam as canteiras do ASC estava abaixo da crítica. Segundo uma reportagem também veiculada no Actofoot, um relatório da Federação Francesa sobre o local mostrou diversas irregularidades, como registros de casos de briga em torneios de base, indisciplina extracampo dos meninos, inclusive com casos de furto, além do inusitado fim do contato do centro de formação com o instituto que prestava os serviços educacionais à garotada. Sem contar as discussões políticas entre prováveis futuros administradores do centro. Um caos.
As coisas começaram a mudar em 2007, principalmente com a chegada de Laurent Chatefroux à diretoria de base do ASC. Ex-diretor técnico das equipes inferiores da França, Chatefroux insere uma mentalidade de valorizar o material que possuía, através de uma política de promoção interna, em virtude da dificuldade em se angariar novos reforços. O planejamento do novo diretor do Cannes levava em consideração dois fatores: que 20% dos franceses se iniciavam no clube onde estão desde a escolinha, e que 90% dos adolescentes que atuavam longe de onde moravam não seguiam carreira.
Mas não é um trabalho fácil, já que, justamente por ter adotado um patamar amador, os Rouge Et Blanc não podem oferecer contratos, e, por conseguinte, perdem facilmente atletas para outros clubes, da França ou do exterior. Além disso, o ímpeto em se optar, no time profissional, por jogadores experientes, para que logo se alcance a Ligue 2, diminui o espaço dos jovens no grupo, e é um enorme empecilho para o atual projeto. Para se ter uma ideia, apenas três pratas da casa figuram entre os jogadores do plantel alvirrubro, que conta, por exemplo, com o grandalhão checo Jan Koller, de 36 anos.
Hoje, Chatefroux já deixou o ASC, mas o legado, pode-se dizer, é positivo, apesar de todas as dificuldades e do caro preço que é manter jovens no centro de um time que, atualmente, é amador — nos últimos anos, apenas Faubert, vendido ao Bordeaux e, posteriormente, ao West Ham, trouxe retorno financeiro. Não bastasse isso, a atenção cada vez maior de olheiros a revelações cada vez mais jovens é um empecilho que, nos áureos tempos, o Cannes não havia enfrentado, ao menos, com tanta força como há hoje no mundo do futebol.
Ainda assim, a família Fakhri, que comanda a agremiação, mantém a tese de que a base deverá ser a “mina de ouro”, em longo prazo, da equipe. O que, em outras palavras, permite pensar que essa reestruturação seguirá até segunda ordem. Ao que aparenta, ainda não será dessa vez que o Cannes dará o novo passo em seu projeto, já que, em 6º lugar, está nove pontos atrás do Troyes, terceiro e, por hora, último detentor dos acessos à Ligue 2. Se há consolo, comenta-se que a geração /91 dos alvirrubros, que está para se formar, é a melhor da década
No entanto, como os próprios diretores do ASC dizem, o momento é, acima de tudo, de confiar que o nome e a tradição do clube, que já teve o brilhante olheiro Jean Varraud e revelou, dente outros, um dos maiores jogadores de todos os tempos, não se afundará de vez no abismo. O projeto está andando e a base, como foi em toda a histórica do Cannes, é a protagonista. Como deveria ter sido ao longo dos primeiros anos deste século, quando foi abandonada.
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