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Promessa é dívida

A herança Petraglia

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Gabriel Dudziak - 03/03/2010

Os últimos nove anos têm sido de altos e baixos para o Atlético-PR. Sob a administração do presidente Mauro Celso Petraglia a equipe foi campeã brasileira em 2001, vice em 2004, e vice da Libertadores em 2005. Em recentes tempos, no entanto, ameaçada pelo rebaixamento em nível nacional, só se mantém de glórias no estado. Petraglia, que tanto fez, mas que também prejudicou bastante o clube, sobretudo com negócios excusos e perdas financeiras, deixou a agremiação e deu lugar a Marcos Malucelli no início de 2009. Sua herança, tanto a boa, quanto a ruim, no entanto, persiste dentro e fora das quatro linhas.

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Depois de ter que arcar com as dívidas contraídas por Petraglia, sobretudo das verbas destinadas à construção da Kyocera Arena e de negócios mal fadados, Malucelli passou a imprimir um modelo de gestão principalmente concentrado em sanar os problemas financeiros do clube. Assim, se aproveitou de jovens valores que já estavam no Furacão e outros vindos da base vice-campeã da Taça São Paulo 2009, time que é bom que se diga, foi montado durante a gestão anterior, e apostou em poucas contratações.

Em 2009 chegaram 12 jogadores ao custo de, segundo o próprio presidente, apenas R$ 450 mil. Entre eles, alguns acabaram não vingando, mas outros, sobretudo Paulo Baier, deram bastante certo, contribuindo com a experiência necessária para que nomes como Raul, Wallyson, Manoel, Patrick, Marcelo e Alex Sandro tivessem relativo destaque. O desempenho, no entanto, foi apenas o suficiente para salvar o clube do rebaixamento.

Para 2010 a diretoria atleticana manteve o mote de economizar o dinheiro e montar um time efetivo e sem gastar muito. Nesse ano vieram cinco jogadores ao custo de cerca de R$ 900 mil: Vanegas, Serra, Tartá, Javier Toledo e Bruno Mineiro. Eles se juntaram aos remanescentes do ano anterior e mais gente que veio da base ou voltou de empréstimo no início deste ano, como o goleiro Neto, o lateral Gerônimo e o meio Kaio, de forma que no atual elenco de 32 atletas, 20 são das canteras atleticanas.

Do ponto de vista financeiro a conduta de Malucelli parece ser adequada, no entanto ela padece de dois pontos bastante prejudiciais ao clube. O primeiro e nítido é que o Furacão aposta que em 2010 conseguirá resultados melhores com um time essencialmente idêntico ao de 2009, com o único estímulo de que os jovens estão mais experientes e que há um entrosamento maior das peças. A segunda, que se encontra em um nível ainda abaixo dos panos, mas ficou bastante nítida no caso da polêmica venda do volante e lateral Alex Sandro, 19 anos, é que a base atleticana ainda está atrelada ao que foi feito na administração Petraglia.

A polêmica foi instaurada depois que Malucelli acusou o ex-presidente de ter sido beneficiado na negociação do atleta. Isso porque a venda por 2,2 milhões de euros para o Deportivo Maldonado, do Uruguai, se deu mediante uma proposta apresentada pelo filho de Mauro Celso Petraglia, o empresário, Mário Celso Keinert. A negociação contou com o pagamento de 200 mil euros do CAP como comissão a dois intermediários indicados por Mário; 130 mil euros à companhia Profi e outros 70 mil euros à Master Talents, que conta com ex-funcionários do Atlético. No fim das contas Alex Sandro foi parar no Santos por empréstimo, após intermediação do empresário argentino Gustavo Arribas, que pagou a quantia pedida.

Evidente que Malucelli poderia não ter negociado com o filho do antigo mandatário do clube, mas o fez, baseado na ideia de que esse era um valor razoável para o passe do atleta naquele momento. A questão é que mesmo fora do Atlético, Petraglia deu uma clara mostra do poder que ainda tem, tanto pelo fato de ter a abertura para chegar com uma proposta por um jogador via terceiros, quanto se benefeciando do próprio valor repassado pelo Furacão.

E não para por aí. Em 2006 Petraglia decidiu extinguir a categoria sub-15 do Atlético Paranaense. Mediante uma parceria costurada entre dirigentes do clube e o Grupo Employer, todos os atletas da agremiação foram repassados para o CAPA, Clube Atlético do Paraná. O Capa passou então a ser o time do Furacão na categoria mirim e a revelar atletas para o juvenil e juniores até 2008. Com infraestrutura invejável, o trabalho deu resultados, mas teve seu preço.

Segundo Marcos Maluceli, mesmo com o clube retomando os direitos dos atletas da categoria juvenil em diante, hoje 37 jogadores do Atlético Paranaense, das mais diversas idades, têm pelo menos 30% de seus passes vinculados ao CAPA. Alex Sandro era um deles, bem como outros nomes com já certa fama, como Chico, Patrick e Gabriel Pimba. 14 desses 37 também têm passe repartido com o PSTC. Isso sem falar nas tradicionais fatias pertencentes a agentes, grupos de investidores e toda a sorte de entidades. Ou seja, em eventuais negociações o poder de barganha e o próprio valor a que o time paranaense terá direito será bastante inferior ao que poderia ser.

Sem entrar nos méritos de qual administração foi melhor, se a herança de Petraglia é benéfica ou maligna e tantas outras questões subjetivas e de difícil análise, o fato é que o Atlético começa 2010 da mesma forma que começou e terminou 2009. Com uma capacidade financeira um pouco melhor, é verdade, mas ainda em dificuldades com o orçamento e potencial de lucro e, principalmente, com um elenco quase idêntico ao que ficou na 14ª posição a apenas três pontos do primeiro rebaixado. A sorte do Furacão está lançada e a direção já fez suas apostas. Agora é esperar.



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