Leandro Stein - 09/03/2010
Um dos principais motivos que ajudam a constituir a seleção espanhola como uma das grandes favoritas ao título da Copa do Mundo é a qualidade de jogo de seu meio-campo. O setor concentra valorosos nomes disponíveis ao técnico Vincente Del Bosque, o que resulta em um leque de variações táticas e na manutenção da eficiência do time mesmo quando há algum desfalque. Contando com astros do quilate de Fàbregas, Iniesta, Xavi, David Silva, Xabi Alonso e tantos outros, não à toa, há sempre um craque sentado no banco de reservas da Fúria.
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Ainda por cima, Del Bosque ganhou recentemente mais uma opção de extrema qualidade no meio. Jesús Navas, ídolo do Sevilla desde os 18 anos e hoje com 24, foi convocado pela primeira vez no fim do ano passado. O veloz meia direita já chamava atenção dos treinadores espanhóis há tempos, mas um grave problema de ansiedade patológica fazia com que ele tivesse que evitar a seleção.
Superando gradativamente a sua doença psiquiátrica e o trauma psicológico decorrente dela, Navas começa a se integrar definitivamente à equipe nacional. E, às portas do Mundial da África do Sul, o jogador tem a chance de se firmar como uma das grandes estrelas de seu país. Não é por menos que o Real Madrid demonstra interesse em contratá-lo já no segundo semestre.
O príncipe andaluz
Nascido na cidade de Los Palacios, localizada na província de Sevilla, Navas começou a dar os seus primeiros passos na equipe da terra natal, o modesto UD Los Palacios. Desde os oito anos, o jogador já demonstrava a sua habilidade com a bola nos pés, sempre atuando em categorias maiores que a sua.
A técnica do meia logo chamou a atenção dos olheiros do Sevilla. Em 2000, o diretor das categorias de base do clube, Pablo Blanco, foi até os treinos do Los Palacios para observar a atuação do goleiro Wilfred. Mais que o arqueiro, quem encantou Blanco foi o jovem Navas. Em um dia muito chuvoso, o olheiro ficou impressionado com a facilidade que o garoto tinha de passar pelos seus marcadores no campo encharcado. Mesmo reticente pela frágil estrutura física de Navas, baixo e muito magro, Blanco resolveu apostar em sua técnica e levá-lo ao Ramón Sánchez-Pizjuán, a fim de lapidá-lo pessoalmente nas canteras rojiblancas.
Chegando ao Sevilla aos 15 anos, o “duende” - apelido de Navas por sua baixa estatura - não demorou muito para ganhar seu espaço e foi integrado ao Sevilla Atletico, segundo elenco do clube andaluz. Em sua temporada de estreia, em 2002/03, pouco entrou em campo. Mesmo assim, atuou em um número suficiente de partidas para que demonstrasse a sua categoria.
Na temporada seguinte suas participações se multiplicaram. No entanto, mais que jogar pelo Sevilla Atletico, Navas já recebia as primeiras garantias de que se firmaria no time principal. Ainda no segundo semestre de 2003, dois dias após completar 18 anos, fez a sua estreia entre os profissionais, em partida diante do Espanyol. Ao fim da temporada, totalizou sete partidas, sendo duas delas começando na equipe titular.
Na história rojiblanca
A partir da segunda metade de 2004, Jesús Navas se incorporou de forma definitiva ao elenco treinado pelo técnico Joaquín Caparrós. E, concomitantemente à afirmação da jovem promessa como um jogador prodigioso, o Sevilla também cresceu e chegou a uma das fases mais vitoriosas de sua história.
De volta à elite da La Liga desde 2001, os rojiblancos fizeram grande campanha na temporada 2004/05, alcançando a sexta posição. Peça fundamental no elenco, Navas marcou os seus primeiros dois gols com a camisa da equipe, e ia sendo beneficiado por uma política interna de se aproveitar os jovens valores, tal qual o hoje madrileno Sergio Ramos.
O boom do time e de Navas aconteceram em 2005/06. Após a saída de Júlio Baptista para o Real Madrid no meio de 2005, o meia assumiu a responsabilidade de ser o principal homem de ligação entre o ataque e a defesa de sua equipe, sempre aberto à direita do meio-campo.
Deu seis passes para gol durante os 34 jogos que fez no Campeonato Espanhol, titular absoluto no certame, com 21 anos. Na Copa da UEFA daquele ano, jogou por 12 vezes, deu duas assistências e se sagrou campeão, em final na qual sua equipe goleou o Middlesbrough. Meses depois, ainda levaria a Super Copa da Europa, derrubando o favoritíssimo Barcelona.
No ano seguinte, mais glórias. Atrapalhado por problemas físicos, foi um pouco menos frequente em campo. Nada que tirasse o brilho de suas jogadas poderosas ao lado de Daniel Alves pelo flanco direito, fundamentais para o terceiro lugar do Sevilla na Liga, o bicampeonato da Copa da Uefa e o título da Copa do Rei.
Futuro galáctico
Tamanha eficiência fez com que Jesús Navas se tornasse um dos principais ídolos da torcida. Somente nas duas últimas temporadas, foram 26 assistências, nove gols e quase 100 partidas e, na presente, já fez oito gols (um recorde na sua carreira) e deu 14 assistências.
Mantendo este ritmo, dificilmente Florentino Pérez segurará os seus ímpetos na próxima janela de transferências. O meia, opção para o lado direito do campo, rivaliza com Ribery dentre as opções vislumbradas por Perez. Sua multa rescisória está na casa dos 60 milhões de euros.
Caso o atleta chegue ao Bernabéu, os merengues poderão ter em campo um jogador que alia habilidade na condução da bola e objetividade. Navas não é grande finalizador, mas compensa isso pelo número de oportunidades que cria para os companheiros. E, mesmo com um físico frágil (passou, sem sucesso, por etapas de fortalecimento enquanto estava na cantera), o meia compensa com muita velocidade. O ritmo de suas passadas é tão forte que fez com que os seus companheiros lhe chamassem Haile Gebrselassie, consagrado corredor etíope.
Falta a Fúria
Com tanta exposição desde o início de sua carreira, os números de Navas na seleção espanhola são insignificantes quanto comparados aos seus números no Sevilla. Em 2003, aos 17 anos, passou a ser chamado para a seleção sub-19. Dois anos depois, era uma das principais apostas da equipe sub-21.
Navas, porém, não se firmou nestes grupos, não participando de nenhuma competição importante. O motivo? O fato de ter síndrome do pânico o impedia de se afastar da família e se concentrar com o restante do elenco longe de casa; sentia uma angústia, um mal-estar, físico e psicológico, que o forçava sempre a pedir dispensa e voltar a Andaluzia.
Tal situação fez até mesmo com que Luis Aragonés, então treinador da seleção principal, desistisse da ideia de convocá-lo, além de desencorajar Chelsea e Arsenal, ambos interessados em sua contratação.
Hoje, tratando do problema com remédios e terapia, contudo, Navas vem se recuperando e já tem conseguido aceitar os chamados de Vicente Del Bosque ao time. Em novembro, fez seus dois primeiros jogos com a camisa vermelha, contra Argentina e Áustria, e repetiu a dose em março, contra a França. Se conseguir se recuperar da doença, é nome certo para a África do Sul.
Ficha técnica
Nome completo: Jesús Navas Gonzáles
Data de nascimento: 21/11/1985
Local de nascimento: Los Palacios, Espanha
Clubes que defendeu: UD Los Palacios, Sevilla Atletico, Sevilla
Seleções de base que defendeu: Espanha sub-19, Espanha sub-21
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