Pedro Venancio - 12/03/2010
Na derrota para o Brasil em amistoso disputado no último dia 2 de março, a Irlanda foi escalada por Giovanni Trapattoni com as figurinhas carimbadas de sempre, e não há perspectivas de renovação qualificada em um curtíssimo prazo. A geração de Robbie Keane e Damien Duff, que não conseguiu classificar o país para as duas últimas Copas do Mundo, chega aos 30 anos e não vislumbra sucessores imediatos. Pensando nisso, a FAI – Football Association of Ireland – montou em 2006 o Emerging Talent Programme – ETP – para desenvolver jovens jogadores em todo o país.
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O programa consiste em duas frentes de atuação: as ligas escolares e os centros regionais. O objetivo básico é identificar, nas 32 ligas escolares existentes no país e apoiadas pela FAI, os melhores jogadores com idade entre 11 e 16 anos e levá-los para os 12 centros existentes, onde os garotos são monitorados e orientados para desenvolver as habilidades necessárias para um jogador de futebol. A escolha do local no qual o garoto ira treinar é feita de acordo com o endereço dele, e, com isso, não o afasta da família e dos amigos.
Em 2008, o projeto recebeu um importante reforço: o diretor técnico Wim Koevermans, que exerceu a mesma função nas seleções de base da Holanda entre 2002 e 2008. Ele chegou com o discurso habitual de que “o projeto é a longo prazo e que iremos evoluir passo a passo”. A intenção de Koevermans é também ajudar na evolução dos treinadores locais, que, obviamente serão fundamentais para que o programa seja bem-sucedido. Para isso, ele viaja pessoalmente com frequência aos centros regionais para observar se os treinamentos seguem as recomendações passadas às faixas etárias específicas.
Ex-zagueiro campeão da Euro 1988 junto com nomes como Van Basten, Gullit e Rijkaard, ele afirmou que enxerga muitas semelhanças entre o futebol holandês e o irlandês. Ambos são países pequenos e possuem ligas periféricas, com poucos recursos, embora o futebol jogado pelos grandes da Eredivisie seja superior. A pouca quantidade de jogadores disponíveis faz com que a responsabilidade no trabalho de desenvolvimento deles seja ainda maior, mas ainda assim os hiatos entre uma e outra boa geração são, às vezes, inevitáveis.
Outro desafio de Koevermans é fazer com que os irlandeses fiquem por mais tempo no país. Partidário da tese de que a formação do jogador só acaba aos 22, 23 anos, ele viu clubes como Ajax conseguirem segurar até essa idade jogadores como Wesley Sneijder e Rafael Van der Vaart, fato que classifica como benéfico. A ideia é, em tese, muito boa, mas difícil de ser colocada em prática, já que, após completar 16 anos, idade limite para participar do ETP, os garotos não têm a possibilidade de jogar uma temporada regular. De acordo com o holandês, “um jovem sub-16 precisa jogar pelo menos 25 jogos por ano para evoluir”.
Apesar dessa dificuldade, o programa começa a mostrar resultados. O meia /92 Jordan Philpott foi revelado em uma liga escolar, chegou à seleção sub-17 e assinou com o Blackburn, assim como o zagueiro Anthony O'Connor. O também defensor Steve Smith, de apenas 16 anos, já atua no Arsenal. A estrela da companhia, porém, parece ser o meio-campista Conor Clifford, /91 que pertence ao Chelsea e figura na seleção sub-21 desde o ano passado.
Em um futuro próximo, eles poderão se juntar a nomes como o meia James McCarthy, que estreou na seleção principal no supracitado amistoso contra o Brasil e se firma aos poucos no Wigan, e o lateral esquerdo Greg Cunningham, do Manchester City, que foi convocado para a mesma partida, mas ficou no banco. A renovação na seleção irlandesa se faz cada vez mais urgente e Trapattoni precisa estar muito atento para comandar o processo, sob pena de prejudicar as próximas gerações.
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