Frederico Lira - 06/02/2009
Nos últimos anos, o Real Madrid pouco tem olhado para suas canteras. O absoluto desprestígio dos jovens formados em Chamartín, aliás, tem sido constantemente abordado pelo Olheiros na atual temporada. De fato, o único jogador oriundo das divisões básicas dos blancos que, efetivamente, se consolidou na equipe merengue nessa década foi o goleiro Iker Casillas, deixando clara a filosofia que impera no clube desde a época de Florentino Pérez.
Sem espaço no Real, jovens talentosos como Diego López, Juan Manuel Mata, Esteban Granero e Álvaro Negredo foram forçados a buscar espaço em outras praças, alcançando considerável êxito na liga espanhola. Em detrimento aos canteranos, os merengues investem, todos os anos, milhões de euros para reforçar o clube com jovens formados em outros centros, vide os exemplos de Drenthe, Higuaín e Huntelaar. Uma postura bastante criticada pelos torcedores e, sobretudo, pelo ex-diretor da base madrilena, o ex-jogador do próprio clube Michel, que, insatisfeito com o tratamento dispensado à base merengue, pediu demissão do cargo que ocupava no último mês de dezembro.
Contrastando com a realidade atual, porém, o Real Madrid já fez história, e viveu, na década de oitenta, anos gloriosos com um jovem quinteto formado em Chamartín - do qual, ironicamente, fazia parte Michel! Era o tempo da “quinta del Buitre”, que completou 25 anos recentemente.
La quinta del Buitre
Em novembro de 1983, o conceituado jornal “El País” trazia, como matéria de capa do caderno esportivo, a manchete “Amancio e la quinta del Butre”, fazendo referência a um grupo de jovens desconhecidos do público espanhol. O jornalista Júlio César Iglesias, encantado com o trabalho do técnico Amancio e com o talento de cinco jovens do time juvenil do Real, parecia profetizar o destino glorioso desses garotos, através de um título genialmente ambíguo. A “quinta” identificava o número de integrantes destacáveis no time do Castilla (cinco, obviamente), bem como a quinta marcha daquele que seria, futuramente, referência máxima daquela equipe: o veloz ponta-direita Emílio Butragueño – “El Butrie”, como era conhecido.
A história logo cativou os torcedores merengues e – por que não dizer? – toda a Espanha. Era um tempo de mudança, renovação, e aqueles jovens representavam o surgimento de uma nova geração. Era, pois, um marco social e esportivo. A “quinta” carregava consigo todas as esperanças e anseios de ressurgimento da hegemonia do Real.
Alguns dias depois, dois desses jovens ganhariam a primeira chance no time principal, sob o comando de Alfredo Di Stéfano. Foi na data de quatro de dezembro de 1983, quando o zagueiro Manuel Sanchís e o médio-volante Martín Vásquez entraram em campo na partida contra o Murcia, fora de casa, dando início a uma era que entrou na história do futebol espanhol. Butragueño estreou dois meses depois, anotando dois gols na vitória sobre o Cádiz. Na mesma temporada, Miguel Pardeza ainda seria acionado entre os titulares. O meia-direita Michel, por sua vez, só figuraria na equipe na temporada seguinte.
Dos cinco, quatro ficariam eternizados no clube. Apenas Pardeza não chegou a vingar. Embora seu talento precoce, com uma boa mescla de potência, habilidade e ousadia, chamasse a atenção de todos desde as divisões de base, havia um “mito” – como ele próprio denominou – à sua frente. A concorrência com Emílio Butragueño foi pesada demais para Miguel Pardeza que, em 1986, foi negociado com o Real Zaragoza. A bem da verdade, o quinteto não chegou a ser escalado junto, como titular, pela Liga espanhola. No total, foram apenas 21 minutos – somando determinados períodos de duas partidas da temporada 86/87, contra Espanyol e Barcelona - em que “a quinta” esteve 100% representada dentro de campo.
Embora a “quinta” desse nome àquela geração, outros jogadores teriam importância destacada naquele período, como o argentino Jorge Valdano, o mexicano Hugo Sánchez e o alemão Bernd Schuster. Com tantos ótimos jogadores reunidos, o destino daquela equipe não poderia ser outro senão a glória.
Pentacampeonato espanhol
Seis anos haviam se passado desde o último título nacional dos merengues. Uma eternidade para um clube do porte do Real, acostumado a acumular conquistas a cada temporada. O jejum, iniciado em 1980, durou até a temporada 85/86, quando o futebol ofensivo daquela geração triunfou na Liga. Com 83 gols anotados em 34 rodadas, os blancos conquistaram com bastante folga o campeonato, começando um período hegemônico dentro do país, que foi até 1990.
A capacidade de manter um futebol sério e consistente chega a ser incomum para um grupo tão jovem. Decerto, essa solidez passa pela inteligência dentro de campo de jogadores como Sanchís, Vásquez e Michel, símbolos do equilíbrio da equipe merengue, administrando sempre o jogo com extrema competência. À frente, se sobressaia o talento de Sánchez e Butragueño, que formaram uma das duplas mais explosivas do futebol europeu nos anos 80. Com uma boa compactação ofensiva e muito poder de fogo no ataque, o Real venceu campeonatos e quebrou recordes.
Na temporada 89/90 – que fechou o ciclo vitorioso antes do surgimento do Barcelona de Cruyff – o time marcou incríveis 107 gols, marca que até hoje permanece como recorde da liga. Além do domínio doméstico, os blancos ainda conquistaram duas vezes a Copa da UEFA, em 85 e 86 – contra, respectivamente, Fehérvár (da Hungria) e Colônia (da Alemanha). Faltou, contudo, o título da Liga dos Campeões – cujo sonho de alcançá-lo se dissipou em 19 de abril de 1989, na semifinal do torneio, após goleada de 5 a 0 do Milan de Arrigo Sacchi.
Vásquez deixou Madrid em 1990, para jogar no Torino. Mais tarde, ainda retornaria ao clube, onde voltaria a conquistar o campeonato espanhol, na temporada 94/95. Este foi, por sinal, o último título com a participação dos quatro remanescentes da “quinta” original. Ao final daquela temporada, Vásquez transferiu-se para o Deportivo La Coruña. No ano seguinte, Butragueño e Michel deixaram o clube, para jogar no Atlético Celaya, do México. Sanchís foi um único desses que nunca atuou em outro clube, tendo permanecido no Real até 2001 (conquistando, inclusive, por duas vezes a Liga dos Campeões, em 1998 e 2000), quando encerrou a carreira – e pôs fim, definitivamente, na Era da lendária “quinta del Buitre”.
Tática
Em 1989, o Real Madrid – à época sob o comando de Leo Beenhakker – conquistou o tetracampeonato espanhol e chegou às semifinais da Liga dos Campeões. O time já não contava mais com o argentino Valdano, mas mantinha a mesma espinha dorsal que tanto sucesso fizera nos anos anteriores. Jogava numa espécie de 3-3-1-3 (semelhante ao modelo que Marcelo Bielsa costuma adotar nos clubes onde passa).
Duas peças-chave do esquema eram Manuel Sanchís e Martin Vásquez. Ocupando posições centrais na defesa e no meio-campo, ditavam o ritmo e conferiam equilíbrio à equipe. Pelas extremidades da meia-cancha, Michel, à destra, avançava mais que Gordillo, que fechava o lado esquerdo. O temperamental Bernd Schuster era o principal elo-de-ligação para um trio de ataque formado por Llorente e Butragueño, abertos pelos flancos, e pelo artilheiro Hugo Sánchez, enfiado como centroavante. Jogando praticamente dessa forma, os merengues atingiram a absurda marca de 107 gols na liga espanhola, na temporada 89/90.
Ficha técnica
Clube/Seleção: Real Madrid
Treinador: Leo Beenhakker
Competição: Campeonato Espanhol
Ano: 1988/89
Escalação: Buyo; Chendo, Tendillo, Manuel Sanchís; Michel, Martin Vásquez, Gordillo; Bernd Schuster; Llorente, Hugo Sánchez e Butragueño
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