Lincoln Chaves - 29/03/2009
Quando ainda era um garoto no pequeno Sèptemes, Zinedine Zidane não era muito visado pelos olheiros que freqüentavam os jogos do time. Tinha atuações irregulares e clara aversão a cabeçadas. Gostava de dominar a bola com os pés, característica com a qual se sobressaía, embora ainda não fosse o suficiente para chamar a atenção de nenhum observador. Quer dizer, nenhum exceto aquele que seria mais do que o revelador de Zizou, mas um mentor e amigo. Trata-se do recrutador que ajudou a tornar o Cannes uma das academias mais reconhecidas da França, Jean Varraud.
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Como já comentado em coluna do colega Dassler Marques, a figura do olheiro tradicional se modifica frequentemente, adequando-se a uma realidade cada vez mais tecnológica. No entanto, a função primordial ainda é a incansável observação, treino após treino, jogo após jogo, mais do que o cruzamento de dados estatísticos. Afinal, nem sempre aquele jogador estará em um dia fenomenal, o que fatalmente pode fazer com que ele seja reprovado em uma peneira ou avaliação. Está aí uma das maiores dificuldades de um recrutador: evitar injustiças, e atentar às reais habilidades daquele atleta.
Essa visão calma e atenta marcou a carreira de Varraud como olheiro, iniciada após a década de 50 e que se encerrou apenas em 2006, em virtude de seu falecimento. Características como essas fizeram com que notasse o então tímido e escondido ex-camisa 10 da França, e que o fizeram um dos recrutadores mais respeitados do país. E o mais curioso: trabalhando de graça, vivendo basicamente da renda da sala de cinema Vox, em Cannes, da qual era dono. A ‘recompensa’ por anos de préstimos ao clube francês viria no começo dos anos 90, quando, após a falência de seu negócio, passou a constar na lista dos assalariados da comissão técnica da equipe, ainda que sem valores astronômicos.
Aquela época foi justamente a do período recente mais áureo dos Rouge Et Blanc, quando a equipe chegou à Copa da UEFA pela primeira vez (1991-92), após uma recuperação espetacular no certame nacional e poucos anos depois de ascender à elite local. Boa parte do elenco era composto por atletas revelados pelo próprio Cannes, ou seja, lapidados sob os cuidadosos olhares de Varraud, que veria, ainda, o time conquistar uma nova vaga para a Europa em 1994-95.
Ainda assim, é curioso notar que, mesmo com os serviços prestados à agremiação e ao futebol francês, suas referências bibliográficas se limitam, em nível internacional e — pior ainda — nacional, a ser meramente "o descobridor de Zizou", mesmo no site do clube que ajudou a colocar, ao menos por alguns anos, entre os de mais destaque na França.
Encontrando o gênio
Na biografia de Zinedine Zidane, escrita pelos jornalistas Jean Philippe e Patrick Fort, a carreira de Varraud é discorrida de maneira paralela à do craque francês. O que faz sentido, pela ligação que houve entre ambos e a importância do olheiro para a carreira do jogador - algo que já foi declarado abertamente pelo ex-meio-campista. Tanto é verdade que, durante a concentração da seleção francesa na Copa de 2006, que culminou na ocasião do falecimento do olheiro, buscou-se ao máximo evitar que a informação da morte de Varraud chegasse aos ouvidos de Yazid, como o jogador era conhecido pelos amigos mais próximos, e dentre eles o recrutador. O que, obviamente, não foi possível, causando grande comoção no astro.
O carinho e crédito que Zidane tem para com seu descobridor têm razão de ser. Afinal, as circunstâncias com a qual fora visto nas primeiras vezes não eram nada aprazíveis. Muito menos aquelas em que o garoto seria secretamente observado por Varraud e outros profissionais da base do Cannes, como Gilles Rampillon. Na ocasião, recuado para a posição de líbero, Zizou perdeu uma bola boba na zaga, após tentar um drible, e viu seu time sofrer um gol desnecessário. No entanto, isso não foi suficiente para que o paciente olheiro perdesse a confiança em seu futebol. E o curioso é que, na verdade, os olhares de Varraud, antes de conhecer Zidane, estavam voltados em outro jogador, o atacante Fabrice Monachino.
À época, o futuro meia de Bordeaux, Juventus e Real Madrid demonstrava certa lentidão nos movimentos e um porte físico assaz estranho, quase que um varapau - além da supracitada falta de hábito como cabeceio e até uma limitação com os chutes de perna esquerda. No entanto, desde aqueles dias, a visão de jogo de Zidane e sua coordenação de bola já eram fantásticas, embora isso não fosse tão considerado por outros profissionais, que se deixaram levar, na opinião do próprio Varraud, pelas aparências e por uma atuação como um todo. “Por que nunca prestaram atenção nele?”, questionava sempre o experiente olheiro, ex-meio-campista do Saint-Etienne dos anos 30 e 40.
Foram justamente esses diferenciais que levaram Varraud a voltar outras vezes a jogos do Sèptemes para observá-lo com maior atenção, apesar da resistência que encontrou por parte de seus superiores, devido à supracitada falta de ‘fama’ que o então menino Yazid tinha. Contudo, a confiança que a diretoria do Cannes tinha em seu trabalho, que até hoje notabiliza o clube como uma das referências em categorias de base no país, era maior, e fez com que cedessem à “pressão” do olheiro para que se abrisse um espaço ao então garoto Zizou para uma peneira.
Experiência
Jean Varraud não poderia estar mais certo. Afinal, eram anos de experiência com o futebol. Segundo apontam Philippe e Fort, na biografia de Zidane, o recrutador iniciou-se fora das quatro linhas logo após o fim de sua carreira como jogador, em 1945. Atuou primeiramente como técnico, mas foi como olheiro que ganhou notabilidade dentre os profissionais da área. No princípio da carreira pós-gramado, esteve com Jean Snella, ex-jogador dos Bleus e dos Verts com quem atuou pelo time verde. Ao lado de Snella, trabalhou no próprio Saint Etienne e no Servette, da Suíça, antes de voltar a Cannes.
Ao longo dos anos, adquiriu como um de seus hábitos profissionais o acompanhamento de partidas das categorias inferiores ao lado de ex-jogadores da seleção nacional com que desenvolveu amizade, ouvindo opiniões e adequando-as aos seus conceitos, descritos pelos autores como “claros e precisos”. E vale lembrar: como supracitado, trabalhando de graça até o começo da década passada.
Com um papo suave e tranquilo, fazia quase que uma assessoria a seu ‘pupilo’, ajudando seus escolhidos a encontrar locais para ficar durante os testes e acompanhando a rotina dos jogadores por ele selecionados, a caminho da aprovação nas peneiras de La Bocca. Com esse tratamento profissional, cuidadoso e bastante psicológico, conseguia captar atletas de diversos lugares, mesmo que Cannes não fosse um sonho para muitos deles, ou que a cidade fosse distante do local de origem de outros tantos. Casado, nunca chegou a ter amizades muito próximas com seus revelados. Exceto por um: Zidane.
Uma de suas principais características era a de visualizar futuras promessas em garotos amadores de idade bastante tenra, como ocorreu com Zizou. Até por isso, tornou-se crítico ferrenho das saídas de jovens jogadores de um time profissional, antes mesmo de estrearem pela equipe principal. Sua principal especialidade era localizar meninos de até 15 anos. Tanto que, em 1992, o recrutador viu a garotada sub-16 do clube, formada por atletas descobertos pelo recrutador, conquistar o título francês da categoria. E na mesma ocasião, vale lembrar, culminaram as participações dos Rouge Et Blanc na UEFA, com valores também revelados pelo próprio Varraud. Foi uma fase dourada para o olheiro, no âmbito profissional.
No entanto, a idade e as dificuldades complicaram o trabalho do descobridor de Zidane, justamente na ocasião em que o astro francês conquistou o mundo, em 1998. Poucos meses antes, Varraud perdeu a mulher e entrou em grave depressão. Obteria um último reconhecimento, em 1999: a medalha Cidade de Cannes, juntamente de Zidane e do atacante Bruno Bellone, considerado um dos maiores ídolos dos Rouge Et Blanc, mas que ficou na miséria após o fim da carreira. Foi a última alegria do dedicado olheiro que até 24 de julho de 2006, nos seus 85 anos, lutou contra um câncer que não conseguiu vencer.
Revelações
Naturalmente, nem todas as pérolas reveladas por Jean Varraud resultaram em craques, ou simplesmente, jogadores. Segundo a pesquisa de Jean Philiphe e Patrick Fort, da relação dos dez estagiários que estiveram com Zidane no período em que o mesmo estava na base do Cannes, apenas Nordine Mouka e Michel Almandoz seguiram carreira, sem sucesso. O primeiro não deu sorte nos clubes que passou, enquanto o segundo viu a vida futebolística se esvair com uma grave lesão.
Os demais seguiram caminhos bastante distintos. Mesmo Fabrice Monachino, importante parceiro de ataque de Zizou na ocasião — e, vale lembrar, o atleta que Varraud visava à época em que descobriu seu maior pupilo —, virou administrador de uma empresa de seguros. Ainda assim, outros atletas, além de Zidane, saíram da base do Cannes, encontrados por Varraud, e obtiveram destaque em nível internacional. Confira abaixo alguns desses nomes:
Patrick Vieira
Até hoje presente nas convocações da seleção francesa, Vieira também é uma das pérolas localizadas por Varraud e levada ao Cannes. Então com 16 anos, o franco-senegalês chegou ao Coubertin e precisou de pouco tempo para estrear no profissional dos Rouge Et Blanc, fazendo-o em 1993, com apenas 17 primaveras de idade. Depois de Zidane, é Vieira, que logo foi negociado com o Milan, onde iniciou sua caminhada de destaque pelo continente europeu, o que possui o currículo mais vitorioso, com três Copas do Mundo disputadas e o título conquistado em 1998.
Johan Micoud
Já aposentado, o meia-armador Micoud, curiosamente, só não foi mais longe porque competia diretamente com Zidane pela posição de titular na seleção, além de não ter abocanhado as oportunidades que teve (vide Copa de 2002 e o fracasso dos Bleus ainda na primeira fase). Natural de Cannes, foi revelado por Varraud e promovido ao profissional do time local em 1992, então com 19 anos. Permaneceu em La Bocca por quatro anos, até seguir para o Bordeaux e, posteriormente, ao Parma. Seu melhor momento foi em um Werder Bremem em ascensão, no começo da atual década, onde ficou até 2006, quando retornou aos girondinos para, dois anos depois, encerrar a carreira.
Peter Luccin
Natural de Marselha, o volante Luccin foi observado por Varraud quando tinha apenas 16 anos, sendo imediatamente trazido para o Cannes. Com 17, estreou no time profissional e, tão rápido quando sua entrada (fez apenas 13 jogos), foi sua saída para o Bordeaux. Embora não tenha atuado pela seleção francesa principal, foi o atleta mais jovem a alcançar as quartas-de-final do Mundial Sub-20 de 1997, jogando ao lado de Henry, Trezeguet e Anelka. Passou por PSG, Celta, Atlético de Madrid e Zaragoza, e hoje estar no Santander. Apesar dos bons números do início da carreira, o número excessivo de faltas e cartões impediram um maior crescimento.
Bernard Casoni
A ligação de Casoni com o Cannes e Varraud é enorme. Nascido em 1961, ficou por 14 anos no Coubertin, onde começou aos nove, com apoio do olheiro, que identificou grande potencial no futuro zagueiro. Passou por Tours e Racing antes de ir para o Olympique de Marselha, onde atuou ao lado de Basile Boli e do brasileiro Mozer. Jogou também pelos Bleus em 30 oportunidades. Hoje, é treinador e comanda o Bastia, na Ligue 2, mas já passou pelo comando do próprio OM e pelo futebol tunisiano, além da seleção da Armênia.
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