Marcus Alves - 02/04/2009
Os mais saudosistas costumam dizer que o futebol de hoje anda muito chato, que não há mais craques como no passado e blábláblá. Não sou muito fã dessa turma, mas, vez ou outra, sou obrigado a concordar com eles em alguns pontos. Porém, uma opinião que eu tenho e acredito corresponder à realidade é a de que essas mesmas pessoas não têm como hábito ver os jogos do presente com a mente aberta, dispostos a curtir uma partida e, acima de tudo, o bom futebol. Se no Brasil tem faltado bons times, nos países vizinhos não tem sido bem assim.
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Um exemplo disso é o Lanús de Ramón Cabrero, que ganhou o Torneio Apertura argentino de 2007, com uma equipe formada por inúmeros garotos e que jogava pra frente, de forma bonita. Nessa mesma linha, tivemos em nosso vizinho Uruguai o River Plate de Juan Ramón Carrasco, no primeiro semestre do ano passado. Não foi campeão nacional, porém, deslumbrou até mesmo os torcedores adversários com uma filosofia de jogo que, afirmam, privilegia o ataque até demais, com jovens rodando em campo como verdadeiros veteranos e confundindo os adversários.
Por último, temos agora – e não deixem de ver, saudosistas – o Huracán de Ángel Cappa. O fato de ele ser mais um menottista, acredito, diz muito para vocês, não? Pois, bem, e o treinador vem levando os ensinamentos daquele que, com esse mesmo Huracán, faturou o campeonato argentino de 1973, bem a sério. Já há até quem compare o time atual com esse de mais de 30 anos atrás. Exageros à parte, é bem por aí. E, claro, não deixa de ser compreensível tamanho barulho. Afinal de contas, o Globo, há algum tempo, tem brigado apenas na parte de baixo da tabela. Por vezes, sem sucesso, inclusive.
Nessa temporada, porém, tudo leva a crer que os quemeros, como são conhecidos seus torcedores, não terão que se preocupar com rebaixamento. Da 17º posição no último Apertura para a dianteira nesse Clausura, muita coisa mudou em Parque Patricios. A começar pelo comando técnico, que acompanhou a saída de Claudio Ubeda e a chegada de Ángel Cappa. Com Angelito tocando o barco ao seu gosto, com espaço pra implantar sua filosofia e um elenco trabalhador, o resto está acontecendo naturalmente.
E é na esteira disso tudo que dois garotos, então, explodiram. Matías de Federico e Javier Pastore. Uma pergunta: torcedor botafoguense, algum desses nomes lhe é familiar? Tenho certeza que muitos se recordam que o clube esteve perto de trazer de Federico no ano passado, porém, por uma falha na condução das conversas, o negócio acabou melando. Agora, dificilmente, o alvinegro carioca conseguiria trazê-lo com a mesma facilidade que, supostamente, teria naquela época. Reserva na oportunidade, o jovem meia-atacante é hoje titular absoluto do Huracán e uma das sensações no país.
Seu estilo lembra, e muito, o de Lionel Messi, do Barcelona. Não que ele vá alcançar o nível da estrela do time catalão, mas o potencial existe, e está lá. Baixinho, rápido, daquele tipo que gruda a bola na perna e ninguém tira, a revelação de 20 anos é responsável por levar a pelota do meio-de-campo até o ataque. Antes da chegada de Cappa, não passava de uma opção para o segundo tempo. Algo que, no entanto, muita gente de dentro do clube não concordava, pois sabiam do talento da jóia que a equipe tinha em mãos.
Coube, então, a Ángel Cappa apostar em seu futebol e vê-lo brilhar ao lado de outro menino que também não andava com tanta moral no Globo. Bastante criticado por um comportamento supostamente desinteressado, e pela má pontaria que sempre apresentava em campo, poucos confiariam no sucesso de Javier Pastore, 19, em Parque Patricios. Com os seus direitos repartidos entre Talleres e um grupo de empresários, o caminho mais óbvio para o jovem, que não vinha sendo aproveitado, seria a saída pela porta dos fundos. Não foi isso que se deu.
Formando uma bela parceria com de Federico, Pastore tem mostrado o melhor de seu futebol e uma transferência para o futebol europeu, no meio do ano, já é considerada como consumada. Ao lado de Mario Bolatti, que, emprestado pelo Porto, joga mais atrás, organizando o time da faixa central da meia cancha, os dois são os principais destaques da campanha do Huracán nessa temporada. Elogiados por todos no país, dificilmente conseguirão construir uma longa trajetória ao lado dos torcedores quemeros, mas já serviram, e vem servindo – principalmente para os saudosistas, como alentos de um futuro que, como a América do Sul tem mostrado, pode ser mais animador nos gramados.
Curtas
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