Olheiros | porque o mundo do futebol se renova

Meninos ganham campeonatos

EUA/99: a volta por cima

Assine nosso RSS

Lincoln Chaves - 03/04/2009

É dito até hoje que a maior zebra da história das Copas do Mundo é a vitória dos Estados Unidos sobre a Inglaterra, em 1950, e que, na terra do Tio Sam, futebol é coisa para as mulheres. Prova de que o soccer ainda é visto com ressalvas e até certo preconceito por parte da grande mídia e do planeta bola. Embora no passado, o pensamento de que esse esporte fosse apenas o da bola oval tivesse certa razão de ser, não é o que os últimos resultados da seleção americana têm apontado. Principalmente na atual década, as equipes têm contado cada vez mais com jogadores formados na própria liga local, já seguidos por grandes da Europa, mostrando boa evolução.

>>> Sul-Americano Sub-17 vem por aí e o Olheiros já está dentro
>>> Acesse nosso blog e participe de discussões sobre base e jovens jogadores

 
Esse sucesso fez com que o avanço às quartas-de-final na Copa de 2002, superando times como a badalada seleção de Portugal, do então melhor do mundo Luís Figo, e o rival local México, já não fosse visto com olhos tão arregalados como em outros tempos. Tudo fruto de uma geração que veio se firmando ao longo dos últimos anos, mas que surgiu, efetivamente, para o mundo, em 1999, um ano após o vergonhoso desempenho dos EUA no Mundial da França, quando terminaram em último lugar.
 
Um laboratório
 
Na época, já era sabido que mudanças eram necessárias, e elas tiveram início no ano seguinte ao fiasco na França, já com a equipe sub-17, que lutaria para chegar à Copa do Mundo da categoria, na Nova Zelândia. Seria a primeira vez que um grupo de americanos de até 17 anos estaria concentrado e treinando junto para defender o país. A turma foi alojada no IMG Soccer Academy, na Flórida, onde permaneceu se preparando e jogando amistosos, em um projeto que, como a própria federação explica, foi uma “experiência” com a garotada, munindo-os da responsabilidade de recuperar o (pouco) prestígio que o futebol dos Estados Unidos tinha, e que foi duramente afetado após o Mundial. O objetivo era claro: estruturar a base para tornar o país competitivo em 2010.
 
Para as circunstâncias de então, tratava-se de uma medida bastante curiosa e, para muitos, até arriscada. Afinal, o elenco era formado por atletas amadores, que ainda tinham um dia-a-dia ligado a uma rotina basicamente familiar. Tanto que, para aquele que fora considerado o principal nome daquela equipe, Landon Donovan, só o fato de poder estar junto com um time, com parceiros de trabalho, e ter treinamentos diários era “maravilhoso”. O que, por si só, aponta o parco espaço dado ao futebol de base nos EUA até então.
 
Classificar-se para a competição nunca foi muito problema, visto que os estadunidenses são o único país do globo a ter disputado todos os Mundiais Sub-17 até hoje. A questão era não fazer feio na Oceania, tal como os “adultos” fizeram um ano antes, na Europa. Com isso, investiu-se muito em um treinamento que valorizasse o jogo de equipe, mais do que a individualidade dos atletas. O entrosamento se adquiriu com o tempo. Até porque, como o torneio era em novembro e o primeiro encontro se deu em janeiro, a garotada ainda teria que comer muita grama.
 
Aventura neozelandesa
 
Antes do Mundial, os americanos chegaram a estabelecer uma ótima marca: 20 jogos sem derrota. Algo que ficou sob ameaça, assim como a nova política de preparação com a garotada, já no primeiro tempo da estreia, contra a dona da casa. Os neozelandeses não demoraram a inaugurar o marcador com Mulligan, mas a determinação dos comandados por John Ellinger fizeram com que, na segunda etapa, Thompson e Donovan mudassem a sorte dos estadunidenses, garantindo-lhes os três primeiros pontos.
 
No jogo seguinte, contra a complicada Polônia, mais uma vez, os americanos saíram atrás no placar, porém, novamente Donovan, agora em cobrança de pênalti a dois minutos do fim, igualou o escore, mantendo a invencibilidade da equipe em uma partida que consagrou o goleiro Delvin Countess, autor de defesas heróicas quando o resultado ainda era favorável aos europeus.
 
A vitória motivou o grupo para o confronto seguinte, contra o Uruguai. A boa linha de frente dos Estados Unidos não estava com sorte na oportunidade, e, apesar das boas jogadas armadas por Beasley, coube ao zagueiro Ogushi Onyewu subir mais alto que a defesa celeste e assinalar o gol que decretou a segunda vitória dos EUA na competição e a surpreendente liderança do grupo, levando-os a um clássico regional contra o México, pelas quartas-de-final do Mundial.
 
Era o momento da afirmação, ou, como disse Donovan em uma matéria especial da ESPN, mostrar que o país era digno de respeito nas quatro linhas do futebol, diferentemente do que acompanha pelas atitudes de atletas de outras equipes - que chegavam a zombar da delegação americana. Como de praxe, os comandados de Ellinger saíram atrás no marcador diante dos mexicanos. Para piorar, pouco depois, Kellen Kalso fez pênalti em Ricardo Sanchez, confirmando o momento de total desespero estadunidense. Countess, no entanto, salvou a cobrança e deu novo ânimo à equipe.
 
E que ânimo! Com gols de um Beasley — mais uma vez inspirado — e Sila, os Estados Unidos retomaram as rédeas do confronto, e ainda viram Beckerman ampliar no princípio da segunda etapa. Apesar de Yanez ter diminuído o placar ainda na metade do tempo final, não foi o suficiente para estragar a inacreditável festa americana na Nova Zelândia. E quem diria... O apanhado de garotos totalmente amadores vinha dando certo, e estava a duas partidas de fazer ainda mais história, levando a nação onde o futebol faz mais sucesso entre as mulheres àquele que já era considerado um dos maiores feitos do cenário local masculino.
 
A boa fase fez com que, pela primeira vez, os garotos de John Ellinger entrassem em um confronto como favoritos, para encarar a também surpreendente Austrália, responsável por eliminar, na primeira fase, a Alemanha, além de ter ficado na ponta do grupo do Brasil. Favoritismo esse que pesou nas costas dos americanos, que chegaram a ficar com um 2 a 0 contra no placar. Donovan e Onyewu, que falhou no segundo gol dos Socceroos, entretanto, igualaram o marcador, dando novas esperanças ao jovem esquadrão estadunidense. Porém, após 120 minutos de bola rolando, a disputa na marca da cal foi decisiva, e Kenny Cutler, na oitava cobrança, isolou o sonho da grande final.
 
Em campo
 
Durante as partidas, Ellinger não inventou muito do ponto de vista tático, mantendo, basicamente, um simples 4-4-2. Countess, goleiro do Tigre, era protegido por Alex Yi e Onyewu, titulares inquestionáveis no miolo de zaga. Greg Martin e Nelson Akwari atuavam como laterais/alas, enquanto que, no meio, o capitão Cutler fazia o chamado “trabalho sujo”, dando maior mobilidade para Bobby Convey (ex-Reading), Beckerman e principalmente DaMarcus Beasley — que atuava mais próximo do ataque — organizarem o meio ofensivo.
 
A segurança que a dupla de zaga oferecia era um importante suplemento para o meia-ofensivo, dando-lhe mais tranqüilidade para auxiliar Jordan Sila e especialmente Landon Donovan, com que traçou excelente entrosamento, mantendo-o até os dias de hoje. Para tal, Beasley passou a ter liberdade para atuar tanto mais ao centro como caindo pelas pontas. Tanto é que foi justamente pela segunda opção que se notabilizou e é por onde é mais utilizado nos clubes que defendeu ao longo de sua carreira.
 
And this is the end... Not really
 
Cutler pode ter jogado fora a vaga na decisão, mas, certamente, não foi o que ocorreu com o futebol de base nos Estados Unidos. A campanha foi tão surpreendente que, até hoje, a US Soccer (Confederação norte-americana) destaca o ótimo papel da garotada no Sub-17 de 1999 como exemplo do trabalho que até hoje faz com garotos no IMG Soccer Academy, que, aliás, trata-se de um centro voltado exclusivamente à seleção juvenil do país. Beasley e Donovan, principais expoentes daquela equipe, chegaram ao time principal com rapidez, disputando duas Copas do Mundo (inclusive a de 2002) e tendo oportunidades no futebol europeu.
 
O primeiro, por exemplo, está no Rangers, onde vive, enfim, um bom momento no Velho Continente. O segundo, por sua vez, nem bem se destacou no Mundial da categoria — foi eleito o melhor jogador — e já foi levado para as categorias de base do Bayer Leverkusen. E apesar de nunca ter se firmado por na Alemanha (não foi bem em sua passagem no profissional dos Werkself, nem no curto período em que esteve no Bayern de Munique), é ídolo na Major League Soccer, especialmente no Los Angeles Galaxy, onde atua até hoje.
 
Oguchi Onyewu também foi um atleta de destaque, embora só tenha chegado à seleção em 2004. Disputou o Mundial da Alemanha pelo time americano, mas foi no Standard Liège que fez seu nome, conquistando prêmios dentro e fora da Bélgica, como quando foi o primeiro zagueiro desde Alexi Lalas a obter o posto de melhor jogador estadunidense, em 2006. Curiosamente, daquela geração, é o jogador em melhor momento na Europa.
 
Independente do resultado (a equipe ainda perderia o terceiro lugar para Gana), é fato que aquele jovem grupo marcou o início da reestruturação de todo o esporte no país. Um claro sinal de que mesmo em um lugar onde, até hoje, o futebol é motivo de discussões até mesmo preconceituosas (para sanar a curiosidade, sugere-se a leitura de “Como o Futebol Explica o Mundo”, de Franklin Foer, no capítulo final), é sabido que, para se dar a volta por cima, é necessário investir desde baixo, para que a parte de cima comece a render. Talvez ainda não preparada, como se esperava, para ser campeã do mundo em 2010, mas, ao menos, no caminho certo.
 
Ficha técnica

Clube/Seleção: Estados Unidos

Técnico: John Ellinger

Competição: Mundial Sub-17

Ano: 1999

Escalação: David Countess; Nelson Akwari, Alex Yi, Oguchi Onyewu, Greg Martin; Kenny Cutler, Bobby Convey, Kyle Beckerman, DaMarcus Beasley; Jordan Sila e Landon Donovan



Colunas anteriores:

Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008

Triares