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Eternas promessas

Nélio: a morte de mais um novo Zico

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Pedro Venancio - 10/04/2009

O estereótipo é facilmente decifrável: um garoto branquinho, habilidoso, franzino e que joga com a camisa dez do Flamengo nas categorias de base. Soma-se isso com mimos e paparicos de empresários, o surgimento de novos amigos, o entusiasmo da família e uns exageros de parte da imprensa logo após os primeiros gols como profissional. Está pronto o cenário para o surgimento de um novo Zico.

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Após a saída do Galinho do clube, em 1989, vários garotos foram tratados como seus sucessores mostrando talento e identificação com o time nas divisões de base. O tempo, porém, se encarregou de mostrar que nenhum deles, de Luiz Antônio a Fellype Gabriel, conseguiu se livrar do estigma da comparação. Outro dos “eleitos”, o meia Nélio teve uma carreira efêmera e controversa ao longo do clube, que se iniciou com um surgimento meteórico e terminou em uma disputa judicial.

Disputa acirrada

Nascido em 1984, o carioca Nélio surgiu como esperança de craque no Flamengo, em meio a uma safra privilegiada de meias nos clubes cariocas. Enquanto Morais comandava a vitoriosa geração /84 do Vasco na conquista dos títulos, o Fluminense contava com o indócil Carlos Alberto, que já demonstrava talento. Apenas o vascaíno e o rubro-negro, no entanto, foram convocados para as seleções sub-16 e sub-17.

Nélio chegou a ser considerado o melhor dos três, e foi o primeiro a estrear nos profissionais. O jogo entre Flamengo e Vasco valia pela Taça Rio de 2001, e as equipes colocaram seus times reservas em campo, pois o título já estava decidido em favor dos cruzmaltinos. O meia entrou no segundo tempo e agradou a torcida, com belos dribles e lançamentos, dando um pouco de brilho ao insosso empate sem gols e ocupando espaços nos jornais da segunda-feira como o “futuro craque da Gávea”.

Apesar de todo o cartaz, o meio-campista foi preterido na convocação para o Mundial Sub-17 de 2001, com o técnico Sérgio Farias chamando Diego, Leandro Bonfim e Bruno, ex-Grêmio, para a posição. Ainda assim, o Flamengo apostava muito no jogador e o preparava para subir definitivamente aos profissionais em um futuro próximo. Os rubro-negros, apesar de tricampeões cariocas, viviam uma grave crise financeira e precisavam investir na base para salvar o futuro do clube.

Saída pelos fundos

O ano de 2002 começou promissor para Nélio. Sua entrada nos profissionais coincidiu com o surgimento de jovens como Felipe Melo e Andrezinho, apenas um ano mais velhos. O meia disputou sete partidas pelos profissionais no primeiro semestre, todas válidas pelo Caixão 2002, como ficou conhecido o Campeonato Carioca daquele ano, pois todas as equipes grandes jogaram com seus reservas e priorizaram o Torneio Rio São Paulo, principal competição do primeiro semestre.

O que o meia não sabia, porém, é que seriam seus últimos jogos como profissional do rubro-negro carioca. Após brigar com o técnico Evaristo de Macedo, o jogador entrou na Justiça contra o clube que o revelou, alegando salários atrasados. Ganhou a ação e estava com a transferência encaminhada para o Vasco, que desistiu do negócio quando os dirigentes flamenguistas, ao tomarem conhecimento da negociação, ameaçaram investir em revelações de São Januário como represália.

Após ficar sem clube, Nélio voltou atrás e propôs um acordo aos dirigentes flamenguistas: devolveria seu passe ao Flamengo sob a condição de ser emprestado ao Atlético Paranaense. Acordo feito, o meia fez as malas e partiu para Curitiba, onde poderia “reiniciar” sua carreira aos 19 anos. Mas a aventura paranaense não deu certo: após ficar no banco em alguns jogos, uma fratura no tornozelo impediu sua progressão no clube em que meias como Jádson e Fernandinho começavam a despontar.

De volta ao Rio de Janeiro, foi emprestado ao Brasiliense, onde conquistou o título estadual de 2004. No retorno ao Flamengo, entrou em novo acordo com a diretoria e rescindiu contrato com o clube pela segunda vez. Era o início de sua vida cigana no futebol. Em dois anos, o meia passou por Paraná, Cruzeiro e Fortaleza, sem conseguir uma seqüência de jogos. Acabou voltando ao Brasiliense, de onde saiu novamente em 2006 após desentendimento com o técnico Lula Pereira, mesmo treinador que o lançou como titular do Flamengo em 2002.

No início de 2007, o Cabofriense o chamou para disputar o Campeonato Carioca, e Nélio fez toda a temporada na região dos lagos. Logo depois, porém, o jogador saiu do clube, alegando que o time titular era escalado de acordo com os interesses de empresários. Passou um tempo treinando no CFZ, sozinho, até acertar com o Tupi para a disputa da Série C do mesmo ano. Os mineiros foram eliminados logo na primeira fase, e o meia ficou parado, fechando, depois de algum tempo, com o Joinville para a disputa do Campeonato Catarinense de 2008.

Aventura em Alagoas

A passagem por Santa Catarina durou apenas dois meses e, em março, Nélio foi parar no Corinthians Alagoano. O jogador participou discretamente da campanha que levou o clube às quartas-de-final da Copa do Brasil, tendo ficado no banco de reservas em todas as partidas e entrando no segundo tempo em algumas delas. Ainda assim, conseguiu ficar no estado. Após treinar por um mês no CSA, acertou com o rival CRB para a disputa da Série B, chegando como indicação do técnico Maurício Simões.

Os Regatianos, no entanto, fizeram uma campanha ridícula na Segundona e acabaram rebaixados, na última colocação, com muitas rodadas de antecipação. Nélio pouco participou do vexame e, novamente, rescindiu seu contrato no meio da competição. Voltou para o Corinthians Alagoano, de onde novamente saiu, e atualmente está sem clube, aguardando oportunidades para um retorno aos gramados em breve.

Aos 25 anos, o jogador já é visto com descrença pelos grandes clubes e, ao que parece, o cenário não mudará em um curto prazo. As constantes mudanças, a instabilidade emocional e o fato de praticamente não ter jogado nos últimos anos depõem contra sua carreira. O próprio jogador admite arrependimento pelas atitudes tomadas: “não deveria ter deixado o Flamengo. Se tivesse esperado mais um pouco, minha situação poderia estar muito melhor agora”, afirma.

Sua declaração, no entanto, é um exercício de especulação que jamais poderá ser comprovado, pois não há como voltar no tempo. Para Nélio, só resta reerguer sua carreira em um futuro próximo, provavelmente em clubes de menor expressão. E os flamenguistas continuam esperando ansiosamente por um novo craque feito em casa que possa colocar o clube no topo novamente.

Ficha técnica

Nome completo: Nélio José Lopes Rodrigues

Data de nascimento: 16/02/1984

Local de nascimento: Rio de Janeiro, Brasil

Clubes que defendeu: Flamengo, Atlético Paranaense, Brasiliense, Paraná, Cruzeiro, Fortaleza, Cabofriense, Tupi, Joinville, Corinthians Alagoano, CSA e CRB

Seleção de base que defendeu: Brasil Sub-17 e Sub-16



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