Dassler Marques - 05/05/2009
A cena já entrou para os anais do futebol. Véspera de final da Copa do Brasil, 2003, Mineirão. Vanderlei Luxemburgo, então técnico do Cruzeiro, não tem zagueiros para enfrentar o Flamengo. Resolve acionar o jovem Gladstone, sem nunca ter atuado entre os profissionais. Nos vestiários, a preleção marcante: Luxa entregou uma faixa de capitão e uma fralda para o beque e mandou que ele escolhesse uma delas. Aos leões, ‘Glad’ entrou no time que jogava por música e por Alex. O título ficou na Toca da Raposa.
>>> Belluzo tem como uma de suas promessas tornar a base palmeirense forte
>>> Fase final do Europeu Sub-17 começa e Olheiros mostra tudo
Não foi a primeira vez e Luxemburgo vem se notabilizando por repetir tal prática. Para a decisão de vaga com o Colo-Colo, no Chile, mandou a campo o jovem volante Souza, 21 anos, duas partidas entre os profissionais. O ‘sarará’, como é carinhosamente chamado pelo treinador, deu conta do recado. Jogou os 90 minutos, lutou e participou do triunfo histórico no Monumental Arellano. Ao fim da partida, Souza ganhou elogios e, provavelmente, um lugar ao sol no elenco do Palmeiras.
A relação de Luxemburgo com as jovens promessas é curiosa. Em 2001, quando esteve no comando técnico do Corinthians e despontaram nomes como Anderson, Ewerthon, Gil, Coelho e Rubinho, há quem garanta que o treinador queria uma porcentagem das negociações com jogadores lançados por ele, que indicou Fabrício e Fabinho, jovens de União São João e São Caetano, para fazer a ponte até o Parque São Jorge, e ainda foi buscar Doni, Leandro e Luciano Ratinho no Botafogo de Ribeirão Preto.
Rubinho, aliás, em contato com este colunista há duas semanas, contava de sua relação com Luxemburgo enquanto esteve no Corinthians – hoje, brilha no Genoa. “Um dia ele chegou pra mim e disse que eu ia estrear no Chile, pela Copa Libertadores”, conta. “Me passou confiança e disse que a responsabilidade era toda dele”. No fim, nem ele e nem Doni se firmaram como substitutos de Dida, mas Luxemburgo teve coragem. Pouco tempo antes, Rubinho, titular no Mundial Sub-20, era o quarto goleiro nos profissionais.
No próprio Corinthians, Luxemburgo teve seus furos, como o zagueiro Marquinhos, o volante Pingo e os meias Andrezinho e Luciano Bebê. Pelo Palmeiras, dispensou Magrão para promover Célio, um cabeça-de-área limitadíssimo, e no retorno recente, ainda não conseguiu afirmar um só valor da base, embora tenha lançado nomes como Maurício, Daniel Lovinho e recentemente Souza, aparentemente sua melhor aposta.
No Santos, em que esteve no biênio 2006-07, entrou em rota de colisão com Marcelo Teixeira, ansioso em encontrar novos Robinhos nas categorias de base. Luxemburgo queria dinheiro para contratar, Teixeira queria promessas para vender. Pressionado, Luxa passou a jogar meninos aos leões mais uma vez.
Surpreendentemente, escalou o jovem atacante Wesley, em 2007, em um clássico contra o São Paulo na Vila Belmiro. Pouco cotado nos juniores, o menino apareceu direto nos profissionais de uma hora para outra. Franzino na parte física e sem confiança para debutar em um clássico, foi sufocado pela sempre competente defesa montada por Muricy Ramalho. Aos poucos, foi perdendo espaço, e só foi reaparecer no ano seguinte, com Emerson Leão.
Situação parecida aconteceu com Thiago Carleto, hoje procurando espaço no futebol espanhol emprestando seus serviços ao Valencia. O lateral-esquerdo era visto como nome de potencial na Vila, mas sequer imaginava atuar entre os profissionais quando foi chamado por Luxemburgo para estrear contra o rival Palmeiras, em jogo importante do Brasileiro. Carleto mostrou virtudes e segurou a barra.
Não há um consenso sobre qual seria a fórmula ideal para lançar jogadores de categorias de base. Há monstros como Alexandre Pato que só precisam receber a camisa,calçar as chuteiras e entrar em campo, mas existem muitos outros que ficaram pelo caminho por não terem sido tratados da melhor maneira. Sugado pela crise corintiana no ano de seu rebaixamento, até hoje Lulinha não reproduziu entre os profissionais o mesmo futebol que o encheu de perspectivas.
Muricy Ramalho, por exemplo, é indiscutivelmente cheio de resguardos com os jogadores e diz fazer de tudo para evitar desastres que causem danos irreparáveis. Luxemburgo, ao longo de sua hiper vitoriosa trajetória no futebol, não pode ser tratado como um grande revelador de atletas. Seus times mais fortes tiveram investimentos pesados para a formação de seus elencos. Provavelmente, Luxa deva ser rotulado como um treinador competente em projetar jogadores promissores, como faz nesse momento com Willians, titular do ataque com Keirrison.
É evidente, porém, sua estratégia discutível de como realizar a transição entre juniores – ou mesmo juvenis – e profissionais. “Dar um susto” e colocar para jogar é sua receita. Resta ver como o menino Souza, a bola da vez, irá se sair daqui para frente. Se seguir o caminho trilhado a partir do Chile, tem tudo para entrar na lista dos que deram certo. Gladstone, hoje um foguetaço molhado, foi um tiro longe do alvo.
Firulas
#1
Há pouco tempo atrás, esta coluna apontava o sucesso de Emerson Leão com os jovens do Atlético-MG. Faltou para a direção, porém, entender que o trabalho com essa característica não dá frutos de uma hora para a outra e que perder do Cruzeiro, neste momento, é algo natural para o Galo, a despeito da goleada que não pode ser aceita. A opção por Roth, que foi bem com meninos no Grêmio, lançando Rafael Carioca e confiando em outros como Magrão, é bem interessante. O gaúcho, aliás, bancou Robinho e Diego, depois aproveitados por Leão. Curiosamente, a situação agora se inverte.
#2
Para ler mais do colunista, clique AQUI e vá ao seu blog
Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008
Triares