Rafael Reis* - 18/07/2009
Há dois anos, a geração 1990 da Alemanha reconquistou o espaço que o país havia perdido nas categorias de base. Mesmo sem títulos, ganhou respeito graças a um futebol bonito, envolvente e eficiente. Agora, os germânicos podem se considerar hegemônicos no futebol europeu para jovens, já que são os atuais campeões dos três torneios continentais organizados pela Uefa.
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No entanto, a geração que iniciou esta retomada é a mesma que, desde já, colocou um fim a essa “era alemã” na base do Velho Continente. A Alemanha é a grande ausência da fase final do Europeu Sub-19, que começa nesta terça-feira, em duas cidades da Ucrânia: Donetsk e Mariupol.
Mesmo com algumas boas promessas, como Toni Kroos, Richard Sukuta-Pasu e Sebastian Rudy, a seleção alemã parou na Elite Round, a segunda fase das eliminatórias para a competição. Em seu grupo, quem avançou para as finais foi a Espanha, que não terá seu maior astro, Bojan Krkic, promovido à equipe sub-21.
O caminho de Bojan não é algo incomum entre os jogadores sub-19. Até por isso, a categoria paga o preço de ser a menos “importante” da base europeia. A sub-17 tem a responsabilidade de revelar talentos, enquanto a sub-21 serve como uma espécie de último teste para os atletas antes da sonhada promoção para o time nacional adulto.
Mas esse esvaziamento não significa que haverá falta de bons jogadores na Ucrânia. Eles estão lá e merecem ser valorizados.
No Grupo A, a Inglaterra parece sobrar. Sem adversários de primeira linha, o English Team é o favorito para avançar como melhor time da chave. Olhos em Danny Welbeck, promissor atacante do Manchester United, que deve receber ainda mais chances de Alex Ferguson nesta temporada.
A outra chave é embolada. Além da já citada Espanha, França, Sérvia e Turquia estão no grupo. Nenhum dos quatro times pode ter sua vaga nas semifinais descartada. Indo mais além, os quatro são possíveis candidatos ao título – os franceses correm por fora.
Mas se é para apontar um favorito, essa seria a Sérvia. Os motivos ficarão expostos logo abaixo, na apresentação das oito seleções que começam nesta segunda-feira a decidir qual o grande time sub-19 da Europa na atualidade.
GRUPO A
Eslovênia
Nunca a Eslovênia chegou tão longe no Europeu Sub-19, e poucas vezes a competição viu se classificar para a fase final uma equipe com campanha tão fraca nas eliminatórias.
O ataque do time comandado pelo técnico Milos Kostic é o pior entre todas as seleções que estão na Ucrânia, com 13 gols marcados. A defesa é a mais vazada entre os sete países que precisaram passar pelas fases preliminares, com dez tentos sofridos.
As esperanças eslovenas de evitar a despedida da competição com três derrotas, o que parece natural, estão depositadas em dois jogadores. O volante René Khrin, capitão do time, atua na Inter de Milão e já foi chamado pelo técnico José Mourinho para compor o grupo profisisonal. Já o meia-atacante Rajko Rep atua no futebol local, mas marcou seis vezes nas eliminatórias.
Na verdade, a grande pérola da seleção deve ficar no banco de reservas. Com apenas 16 anos, o meia ofensivo Haris Vuckic é apontado como um dos mais promissores jogadores da Europa, mas ainda é considerado “verde” para a seleção sub-19 e para o Newcastle, clube que venceu uma disputa com o Milan para contratá-lo em janeiro.
Técnico: Milos Kostic
Artilheiro: Rajko Rep (NK Celje) – 6 gols
Campanha: 3V, 2E, 1D, 13GP e 10GC
Títulos: nenhum
Na temporada passada: Eliminada na primeira fase das eliminatórias
Inglaterra
O English Team aposta todas as suas fichas pelo segundo título sub-19 de sua história no ataque. É no setor ofensivo que o técnico Brian Eastick tem seus nomes mais consolidados e famosos.
Nile Ranger, do Newcastle, começou sua trajetória nesta seleção como um ninguém e terminou as eliminatórias como artilheiro do time, com quatro gols marcados. Victor Moses, que defende o Crystal Palace, é badalado há dois anos, desde sua campanha com o time sub-17 no Europeu e no Mundial juvenil.
Os dois outros atacantes ingleses são ainda mais conhecidos. Cortado do Europeu sub-21 devido a uma contusão, Danny Welbeck volta à seleção sub-19 com a missão de conduzir seus companheiros graças a sua experiência no time adulto do Manchester United. Nathan Delfouneso, que passou a temporada no banco de reservas do Aston Villa, terá tarefa semelhante.
Se a seleção sub-21 deu Welbeck ao time sub-19, também tirou de Eastick um dos seus principais jogadores. O volante Jack Rodwell, do Everton, uma das maiores promessas do futebol inglês, está fora da competição.
Técnico: Brian Eastick
Artilheiro: Nile Ranger (Newcastle) – 4 gols
Campanha: 5V, 0E, 1D, 15GP e 7GC
Títulos: 1 (1993)
Na temporada passada: Eliminada na fase de grupos
Suíça
Tradicionalmente, as seleções da Suíça não possuem grandes destaques individuais e, quando funcionam bem, os motivos do sucesso são basicamente sempre os mesmos: a coesão da equipe e a rigidez de um sistema de jogo bem formatado.
O atual time helvético sub-19 não foge da regra que colocou o país como presença constante nas fases finais dos Europeus de base nesta década. O time Claude Ryf não conta com uma geração primorosa, dotada de grande talento, mas compensa isso com a base do futebol, o coletivo.
A classificação suíça se deu aos trancos e barrancos. Na primeira fase, avançou no saldo em gols em um empate tríplice com Espanha e Belarus. A vaga para a fase também foi decidida na diferença de gols marcados e sofridos. A derrotada da vez foi a Bélgica.
A falta de destaques individuais fica evidente na tabela de artilheiros da seleção. Quatro jogadores dividem o posto de maio goleador da equipe. Um deles é o defensor Raphael Koch, que acabou de ser contratado pelo Zurique. O armador Daniel Unal, que passou pelas categorias de base da Roma, e o meia-esquerda Sébastien Wütrich, profissional do Neuchatel Xamax desde 2007, também merecem um pouco mais de atenção.
Técnico: Claude Ryf
Artilheiros: Vullnet Basha (Grasshopper), Raphael Koch (Zurique), Alexandre Pashce (Young Boys) e Sébastien Wütrich (Neuchatel Xamax) – 2 gols
Campanha: 4V, 1E, 1D, 16GP e 6GC
Títulos: Nenhum
Na temporada passada: Eliminada na segunda fase das eliminatórias
Ucrânia
De volta à fase final de Europeu Sub-19 após cinco anos de ausência, a Ucrânia precisa agradecer à Uefa por ser a organizadora da competição e já ter vaga certa entre as oito equipes que brigam pelo título.
Se em 2004, a seleção ucraniana chegou às semifinais e revelou alguns jogadores razoavelmente importantes, como Bogdan Shust, Dmitry Chigrinskiy, Dmitri Vorobei e Artem Milveski, a expectativa para a atual temporada não é das melhores.
Não que os resultados dos amistosos preparatórios sejam ruins, mas falta material humano de qualidade ao técnico Yuriy Kalitvintsev. Mesmo com uma liga de segunda categoria, a Ucrânia não consegue reunir um grupo com experiência adulta.
Os raros destaques são os meias Evgeni Shakhov e Artur Karnoza, ambos do Dnipro Dnipropetrovsk, e o centroavante Dmitri Korkishko, que atua no time B do Dínamo de Kiev e marcou sete gols na fase de preparação.
Técnico: Yuriy Kalitvintsev
Artilheiro: Não participou das eliminatórias
Campanha: Não participou das eliminatórias
Títulos: Nenhum
Na temporada passada: Eliminada na segunda fase das eliminatórias
GRUPO B
Espanha
Após perder a hegemonia nas categorias de base da Europa para uma reascedente seleção alemã, a Espanha tenta recuperar o caminho de volta ao topo entre os jovens do continente. Para isto, aposta em sua última grande geração vitoriosa.
O atual time sub-19 da Fúria mantém a base que se sagrou vice-campeão mundial sub-17 há dois anos. O grande problema do técnico Luis Milla é que dois dos principais jogadores daquela equipe não estarão presentes na Ucrânia.
O volante e capitão Nacho Camacho, do Atlético de Madrid, chegou a ser pré-convocado para o torneio, mas sofreu uma lesão e acabou sendo cortado. O atacante Bojan Krkic, jovem astro do Barcelona e titular da seleção sub-21, nem mesmo pôde ser chamado.
No entanto, a ausência de Bojan não foi suficiente para atrapalhar o desempenho ofensivo da Espanha nas eliminatórias. Com um afiado e entrosado trio formado por Fran Mérida (candidato a eterna promessa no Arsenal, mas ainda essencial para a seleção), Iago Falqué (Juventus) e Dani Aquino (Murcia), os ibéricos marcaram 18 gols nas fases anteriores e possuem até aqui o melhor ataque da competição.
Técnico: Luis Milla
Artilheiro: Dani Aquino (Murcia) – 5 gols
Campanha: 5V, 0E, 1D, 18GP e 3GC
Títulos: 5 (1995, 2002, 2004, 2006 e 2007)
Na temporada passada: Eliminada na fase de grupos
França
Maior campeã europeia da categoria ao lado da Espanha, a França tenta recuperar o bom desempenho que tradicionalmente possui na base continental e levar seu sexto título. Na última campanha vitoriosa, em 2005, revelou jogadores como Hugo Lloris, Yoann Gourcuff e Abou Diaby.
A safra atual, no entanto, não parece muito promissora. Artilheiro do time nas eliminatórias, o meia-atacante de origem argelina Yacine Brahimi marcou todos os seus cinco gols na primeira fase do qualificatório, diante de adversários mais frágeis. O centroavante Damien Le Tallec, do Rennes, pouco parece ter evoluído desde 2007, quando era o craque da seleção juvenil.
Um outro problema que o técnico Jean Gallice terá que encarar é a pouca experiência dos seus pupilos que, com raras exceções, ainda não figuram nos time adultos. A grande exceção é o zagueiro Mamadou Sakho, surpreendentemente convocado para a competição.
Titular do Paris Saint-Germain em boa parte da temporada passada, o ex-capitão da seleção sub-17 é profissional há dois anos e já acumula quase 50 partidas pelo time da capital francesa. Ele não participou de nenhuma partida das eliminatórias, entregando assim a braçadeira para o volante Yann M’Vila, do Rennes.
Técnico: Jean Gallice
Artilheiro: Yacine Brahimi (Clermont) – 5 gols
Campanha: 5V, 0E, 1D, 17GP e 3GC
Títulos: 5 (1983, 1996, 1997, 2000 e 2005)
Na temporada passada: Eliminada na segunda fase das eliminatórias
Sérvia
É possível imaginar a Sérvia como grande favorita ao Europeu sub-19. A afirmação soa estranha para os mais desavisados, mas faz todo o sentido depois de uma rápida batida de olho na convocação do técnico Aleksandar Stanojevic.
Apesar das várias ausências por lesão ou suspensão, casos do capitão Nenad Krsticic (Sampdoria), do meia Perdrag Stevanovic (Schalke 04) e de Aleksandar Ignjovski (1860 Munique), a seleção sérvia conta com possivelmente os dois jogadores dos jogadores mais talentosos que estarão na Ucrânia.
Apesar de ter apenas 17 anos, o meia Adem Ljajic já deixou de lado o status de promessa no futebol de seu país. A certeza de que ele será um grande jogador levou o Manchester United a gastar 10 milhões de euros em sua contratação. O artilheiro sérvio na categoria sub-19 fica em processo de “engorda” no Partizan Belgrado até o fim do ano.
Nascido no mesmo ano de Ljajic, o meia-atacante Danijel Aleksic carrega consigo o fato de ter sido eleito o melhor jogador do Europeu Sub-17 na temporada passada. Também já estreou pela seleção adulta. Mas ainda defende o modesto Vojdovina, clube em que foi revelado.
Técnico: Aleksandar Stanojevic
Artilheiro: Adem Ljajic (Partizan Belgrado) – 4 gols
Campanha: 5V, 1E, 0D, 17GP e 3GC
Títulos: Nenhum
Na temporada passada: Eliminada na segunda fase das eliminatórias
Turquia
Tentando repetir o feito de 1992, quando conquistou seu único título continental na categoria, a Turquia foi o melhor time das eliminatórias do Europeu Sub-19. A equipe do técnico Ogün Temizkanoglu passou pelas primeiras seis partidas sem tropeçar nenhuma vez, com 100% de aproveitamento.
O ponto forte da equipe foi a defesa, que tem como segredo o ótimo entrosamento dos jogadores do Galatasaray. Da equipe de Istambul, o destaque fica por conta do lateral-direito Serkan Kurtulus, jogador mais jovem a atuar na primeira divisão turca, ainda na temporada 2006/07, pelo Bursaspor. Também do Bursaspor, o zagueiro central Serdar Aziz merece ser acompanhado de perto.
Apesar do trunfo defensivo é no ataque que está a grande esperança do país. Atacante rápido, de bastante mobilidade, mas também com senso goleador, Sercan Yildirim marcou 16 gols na última temporada pelo time adulto do Bursaspor e tem seu nome ligado a Manchester United e Liverpool.
Se Yilidirim é a estrela, seu companheiro de ataque é o artilheiro. Tunay Torun (Hamburgo), que estreou na Bundesliga na temporada passada dando uma assistência para gol, fez seis gols nas eliminatórias.
Técnico: Ogün Temizkanoglu
Artilheiro: Tunay Torun (Hamburgo) – 6 gols
Campanha: 6V, 0E, 0D, 16GP, 2 GC
Títulos: 1 (1992)
Na temporada passada: Eliminada na segunda fase das eliminatórias
*Repórter da Folha Online e ex-colunista do Olheiros
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