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Garotos prodígios

Roberto Baggio: o pênalti perdido foi um detalhe

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Victor Canedo - 21/07/2009

As vaias que ecoavam no Stade de France, no dia 3 de julho de 1998, precediam novo fracasso. Roberto Baggio abria as cobranças de pênalti para a Itália, pelas quartas de final da Copa do Mundo, diante dos donos da casa, com um peso imenso nas costas. Fardo que já durava quatro anos, desde a fatídica final contra o Brasil, em Pasadena, nos Estados Unidos. O atacante deslocou Barthez com categoria e fez. Não satisfeito, ainda pediu silêncio à torcida. No fim, a Azzurra foi eliminada, mas um pouco de justiça foi feita naquela tarde em Saint-Denis. Em toda a carreira, Roberto Baggio cobrou quase 90 penalidades nos 697 jogos que participou – marcou 317 gols. Os registros apontam apenas nove erros. Apenas um pela seleção italiana.

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Fato é que sua imagem ficou deteriorada em função da perda do título, que comemorou 15 anos no último 17 de julho. Embora não apague uma fração sequer do que Roby, apelido carinhoso recebido por torcedores, fez com a bola nos pés durante os 22 anos e três Copas do Mundo em que desfilou. Com a primazia e a técnica intactas com o passar do tempo, eternizou-se na condição de ídolo por onde atuou. Mesmo entre maiores rivais, caso de Fiorentina, Juventus, Milan e Internazionale.

Biografia e autobiografia

Nascido em Caldogno, comunidade de Vêneto, província de Vicenza, Roberto Baggio se aventurava como adestrador de ornitorrincos surdos na infância. Adorava tanto animais quanto as caças em suas viagens anuais para a Argentina, o que só deflagrava uma vida cheia de contradições e paradoxos: budista em um país com imensa maioria católica; fã do futebol inglês e um craque de bola nascido na era do catenaccio; pacifista, mas que causou rebeldia entre os torcedores após suas polêmicas transferências.

Motivos que, atrelados ao futebol, renderam uma biografia intitulada “Toccato da Dio” (Tocado por Deus), também em referência ao II Divin Codino, “o Divino Rabo de Cavalo”, outro apelido do jogador. Sua autobiografia levou o nome de “Una Porta nel Cielo” (Uma Porta no Céu), e foi inspirada no compositor Lucio Dalla, que escreveu algumas linhas sobre Roby:

“Quando você assiste a Baggio, ouve as crianças. Baggio é o impossível realizado, nevasca caindo de uma porta aberta no céu”. “Sua lenda não foi construída em títulos, e sim, em momentos”.

Elogios que o motivaram a se considerar entre os maiores de todos os tempos. “Pelé, Maradona, Baggio”, para depois explicar melhor. “Não, espera aí. Pelé e Maradona são de outro planeta. Eu sou parte do grupo que está atrás deles e é um bom grupo”, disse, colocando-se ao lado de Platini, Cruyff, Romário, Puskas e Di Stefano. Uma pesquisa feita pela FIFA, na internet, em 2000, no entanto, o deixou a frente de alguns destes gênios. Baggio foi apontado como o quarto maior jogador do século XX, atrás apenas de Maradona, Pelé e do português Eusébio.

A promissora carreira e uma lesão

Aos nove anos da idade, em um dos jogos pelo time júnior da cidade de Caldogno, no nordeste da Itália, Baggio marcou seis gols e chamou a atenção do olheiro Antonio Mora, que o levou para o Vicenza pouco depois. A ascensão e evolução foram meteóricas. Na temporada 1982/83, ainda adolescente, Roberto anotou 46 gols em 48 jogos com o grupo primavera. Somando o desempenho em toda a base italiana, foram 110 gols em 120 jogos. Números assombrosos, com a média de quase um gol por partida.

Em 1985, já entre os profissionais, sua vida mudou. Quis o destino que o atacante, dias antes do acordo com a Fiorentina, sofresse grave lesão no ligamento do joelho direito em uma partida contra o Rimini. Resultado: 220 pontos na reconstrução e uma reabilitação de praticamente duas temporadas – há de se destacar que a medicina na época não contava com os mesmos recursos dos dias atuais. A Viola, que havia desembolsado três bilhões de liras – o equivalente a R$ 8 milhões -, se antecipando à Juventus, honrou com o contrato.

Fato é que nunca saberemos o quanto a lesão incapacitou Roberto Baggio. Após sua aposentadoria, Roby declarou que, em média, atuava com 100% das condições físicas em três ou quatro partidas por temporada. “Às vezes, durante os treinos, a dor no meu joelho era como um martelo na cabeça, mas nunca parei. Outros teriam parado, mas não eu”, afirmou.

Não totalmente recuperado, Baggio foi crescendo de produção e rapidamente se estabeleceu como um dos ídolos do clube. Nas temporadas 1987/88 e 1988/89, Roby jogou 57 vezes e anotou 21 gols. Números não tão impressionantes, mas que mostram sua participação nas boas campanhas da Viola – 8º e 7º, respectivamente.

Reviravoltas

Em maio de 1990, pouco antes da Copa do Mundo na Itália, outra reviravolta em sua carreira: a badalada transferência de US$ 19 milhões para a Juventus, que já demonstrara anteriormente interesse em Baggio. O anúncio da venda revoltou centenas de torcedores da Fiorentina, que tomaram as ruas em protestos nada amigáveis. O atacante foi pivô de mais confusão quando foi descoberta a causa de sua saída após vazamentos de informações. Tudo por questão de dinheiro, o que lhe proporcionou o apelido de Judas.

A desordem fora dos campos não abalou o seu desempenho na Copa do Mundo, ainda que pouco utilizado. Roberto Baggio marcou um gol antológico contra a extinta Tchecoslováquia – driblou três jogadores adversários em linda arrancada -, mas não impediu a eliminação para a Argentina nas semifinais, nos pênaltis – Roby não desperdiçou sua cobrança. Na disputa do terceiro lugar, diante da Inglaterra, Baggio também fez o dele na vitória por 2 a 1.

Em Turim, o meia-atacante decolou. Foi eleito na primeira temporada o melhor jogador europeu sub-23. Roby conquistou mais títulos em 1993, individuais e coletivos: a Copa Uefa, após derrotar o alemão Borussia Dormund em dois jogos; o prêmio da Bola de Ouro da revista France Football, ou melhor jogador da Europa; e o prêmio de melhor jogador do planeta, eleito pela FIFA, a frente de consagrados como Romário, Dennis Bergkamp e Hristo Stoitchkov. Foi ainda segundo colocado no Calcio, com 37 pontos, atrás do campeão Milan de Fabio Capello.

Suas brilhantes atuações com a camisa da Velha Senhora o colocaram em um posto mágico. Baggio foi comparado a Michel Platini, ídolo da torcida alvinegra na década anterior. A imprensa só o exaltava, mas, apesar de ambos vestirem a camisa 10, o francês sabia das diferenças. Não técnicas, mas de características. “Baggio não é um camisa 10 de verdade, é um 9 e meio”, declarou. Definição original, segundo o próprio italiano, cotejado também a grandes craques históricos do país, como Gianni Rivera, que atuou pelo Milan nos anos 60, e Giuseppe Meazza, artilheiro dos rivais de Milão nos anos 30 e 40, e hoje nome do estádio da Internazionale.

Roberto Baggio foi ainda mais herói durante a Copa do Mundo de 1994. Não marcou na primeira fase, quando a Itália sofreu para se classificar após somar quatro pontos em três jogos. Mas, a partir das oitavas de final, mostrou por que era então o melhor jogador do mundo. Contra a Nigéria, fez o gol de empate aos 43 minutos da etapa final, e ainda virou o placar na prorrogação. Nas quartas, mais um gol salvador, dessa vez aos 42 minutos do segundo tempo, selou a vitória sobre a Espanha. Na semi, diante da Bulgária do rival Stoichkov, mais dois gols no triunfo por 2 a 1.

E chegou, então, à final, que lhe reservou um desfecho nada feliz. Durante o tempo normal e prorrogação, Baggio teve apenas duas boas chances. Em ambas as vezes Taffarel fez a defesa. O flagrante cansaço junto às dores físicas após os 120 minutos demonstravam sua condição para as penalidades. Ainda assim, Baggio o fez. Ou melhor, não fez. Desperdiçou a cobrança, tal qual Márcio Santos, Baresi – o melhor em campo - e Massaro. Mas foi o maior crucificado, mesmo sendo o maior responsável por ter levado a Azzurra a mais uma final de Copa do Mundo. “Apenas aqueles que têm coragem de cobrar um pênalti o podem perder”, disse, ainda tentando encontrar justificativas para o que colocou uma pequena mancha em sua brilhante carreira.

Problemas com Lippi

Roby ainda teve a oportunidade de levantar o scudetto nas duas temporadas seguintes, uma vez com a Juventus e outra com o Milan, sendo o primeiro jogador a alcançar o feito por dois clubes diferentes. Mas e a explicação de mais uma transferência para um gigante?

Baggio foi comandado por 18 treinadores diferentes durante toda a sua carreira. Entre eles, renomados como Arrigo Sacchi e Fabio Capello. Frustrado com as frequentes substituições, Roby se desentendeu com a maioria. Mas com Marcelo Lippi foi além. Na Juventus, em 1995, o título amenizou os atritos, embora o técnico italiano seja o único que Baggio prefere não contemporizar nos comentários. Em 1999, no entanto, um reencontro na Inter de Milão não foi nada amigável.

“O Lippi que tive na Inter declarou guerra contra mim, sem parar por um minuto, sem um motivo plausível, sem nenhum sentido, sem uma lógica compreensível. O problema é que eu nem jogava e era sempre comentado pelos outros, enquanto Lippi, não importa quanto tentasse, não conseguia fazer as pessoas gostarem dele e não aceitava. Ele quis me destruir, me aniquilar, mas não teve sucesso... Durante um jogo, fiz um passe de 50 metros para o Vieri, que marcou o gol. Ele se virou para mim e aplaudiu. Panucci fez o mesmo. Era uma coisa normal entre companheiros. Mas Lippi ficou maluco de raiva: ‘Vieri, Panucci, que p. é essa que estão fazendo? Pensam que isso aqui é um teatro?’ E tem gente que me pergunta se eu fiquei surpreso por ter sido tirado da Inter!”, explicou.

Antes, Roby teve passagem apagada pelo Bolonha e marcou dois gols na Copa de 1998, tornando-se, ao lado de Paolo Rossi e Christian Vieri, o maior artilheiro da Itália em mundiais, com nove tentos. Depois, na temporada 2000/01, ressuscitou como uma Fênix no Brescia, quando fez milagre por mais três anos, e encerrou a brilhante carreira em uma partida que deu o título ao Milan, em 2004. E foi aplaudido pelos 80 mil presentes no San Siro. Merecido.

Atualmente, Roberto Baggio é craque também fora dos campos – promove causas humanitárias junto à ONU. E, graças ao seu talento ímpar em cobranças de falta, também é um game para os amantes de futebol na internet.

Ficha técnica

Nome completo: Roberto Baggio

Data de nascimento: 18/02/1967

Local de nascimento: Caldogno, Itália

Clubes que defendeu: Vicenza, Fiorentina, Juventus, Milan, Bologna, Internazionale e Brescia

Seleções de base que defendeu: nenhuma



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