Marcus Alves - 25/07/2009
Há cerca de um mês, o Juventude comemorou o seu aniversário de 96 anos com um evento que ficou marcado pelo lançamento de um projeto audacioso. O clube gaúcho apresentou as obras para a construção de um novo CT que abrigará não só o seu elenco profissional, mas também as categorias de base. A preocupação com a garotada se justifica. Nos últimos anos, a equipe conseguiu bastante espaço na mídia através de um de seus pratas da casa, Zezinho, que hoje defende a seleção brasileira sub-17. Revelar outros jogadores como o meia-atacante é o objetivo da diretoria alviverde.
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Na linha de sucessão de Zezinho, já surge um candidato forte a manter os holofotes virados para o time. Segundo o vice-presidente das categorias de base do Juventude, Ely Scalabrin, em entrevista ao Olheiros, o volante Gustavo Campagnaro promete ser a próxima grande aposta da equipe. A expectativa é de que a nova revelação já encerre a temporada entre os titulares do treinador Ivo Wortmann na Série B. Esse e outros assuntos foram abordados no bate-papo que pode ser conferido abaixo.
Olheiros - Hoje em dia, qual a grande dificuldade em gerir as categorias de base de um clube?
Ely Scalabrin - A maior dificuldade para gerir categorias de base é o alto investimento necessário para ter um trabalho de qualidade aliado ao risco de perder estes atletas para outros clubes favorecidos pela lei e também por não atuarem de forma ética.
Olheiros - O Juventude sofre muito assédio por suas promessas? Como lida com isso?
Ely - Sofremos, constantemente, com o assédio sobre nossas promessas. Hoje temos jogadores em quase todas as categorias da seleção brasileira de base que eram atletas do Juventude e estão agora em outros clubes. Acabaram saindo daqui sem liberação por serem menores. Para tentar minimizar as perdas, estamos nos aperfeiçoando juridicamente e investindo forte em política de aproveitamento das categorias de base pela equipe profissional. Assim, o atleta, pais e agente entenderão que, no Juventude, o caminho para conseguir uma oportunidade é bem menor que em outros clubes.
Olheiros - A multa de R$ 40 milhões foi uma forma de atrair a mídia para o Zezinho?
Ely - Também. Mas diria que o Zezinho é um atleta de qualidade extraordinária e que a multa foi uma forma de valorizarmos o atleta e também nos protegermos contra o assédio de outros clubes. Optar por uma multa alta requer também um investimento no salário do atleta e, ao mesmo tempo, a expectativa sobre este atleta irá redobrar. É uma atitude que só pode ser feita no caso de atletas “diferenciados”, caso contrário, esta ação pode ter resultado inverso, além de prejudicar a imagem do clube.
Olheiros - Entre os meses de outubro e novembro, será disputado o Mundial Sub-17 na Nigéria e tudo leva a crer que o Zezinho será chamado. Qual será a postura do clube com a convocação?
Ely - Sentimos muito orgulho em termos na nossa categoria de base um atleta que está representando a seleção brasileira. Trabalhamos forte para termos mais atletas nestas mesmas condições, por isso, não teremos objeção nenhuma na participação dele no Mundial. Pelo contrário, nos sentiremos muito honrados pela convocação.
Olheiros - Na ocasião da Copa 2 de Julho, o Juventude pediu a dispensa de Zezinho junto à CBF, mas não conseguiu, enquanto que o Santos obteve sucesso com o Neymar. Como a equipe enxerga essa situação?
Ely - Na verdade, houve um mal-entendido. Em um primeiro momento, pensamos em pedir a liberação do atleta junto à seleção, pois existia a necessidade da sua participação nos jogos da Série B. Mas fizemos uma reavaliação e optamos por não formalizar o pedido da liberação, deixando, assim, ele apto para servir a seleção. Voltou de lá com o título de campeão, cinco gols e o reconhecimento de melhor jogador.
Olheiros - Os compromissos de Zezinho com a seleção atrapalham o seu desenvolvimento no clube?
Ely - Atrapalha um pouco a sequência de jogos pela equipe profissional, mas em contrapartida ajuda o atleta em outros aspectos como a valorização, a divulgação do clube, experiência nas competições e o entendimento do atleta na questão da importância que é representar o nosso país.
Olheiros - E em relação ao técnico Leandro Simpson, que se divide entre o Juventude e a seleção brasileira sub-15, não ocorre esse problema?
Ely - Enfrentamos alguma dificuldade, mas os pontos positivos de ter um profissional deste porte em nossa comissão técnica superam. Inclusive ajudando muito na captação de atletas para esta categoria que é chave no processo de formação.
Olheiros - Outros clubes já passaram por essa experiência de dividir treinador até mesmo entre os profissionais. Como não misturar os interesses no trabalho?
Ely - Temos uma filosofia de trabalho que é baseado na ética, transparência e profissionalismo. Na contratação dos profissionais que trabalham na base procuramos buscar os que tenham este perfil. Os técnicos têm toda liberdade e tranquilidade para trabalhar aqui, sendo que os “interesses” não se misturam nem se confundem nos seus trabalhos, pois o único interesse que predomina aqui no Juventude é a busca pela excelência na formação e a qualidade dos atletas aprovados.
Olheiros - Por que o lateral-esquerdo Cleber Sonda foi negociado tão precocemente?
Ely - O clube está fazendo um alto investimento nas categorias de base e na estrutura do CFAC. Existe uma grande necessidade de captarmos recursos, por isso, adotaremos algumas estratégias de vendas. Teremos atletas em diferentes níveis de preços atingindo diferentes mercados. Os atletas estão se habituando a um desenvolvimento precoce e negociações assim serão cada vez mais frequentes. O Cleber está em um clube da primeira divisão da Bélgica e servirá para abrir o mercado naquele país.
Olheiros - O volante Gustavo Campagnaro é outro atleta com idade juvenil que vem tendo chance entre os profissionais. Como foi a trajetória dele no clube?
Ely - Assim como o Zezinho, o Gustavo é um atleta de alto nível e condição técnica. Nascido também em 1992 e que está no Juventude há cinco anos. Teve toda sua formação aqui em nosso clube, sendo que nos últimos seis meses passou por um trabalho de evolução física desenvolvido pelo departamento técnico científico do clube. Fez a sua estreia na equipe profissional no último jogo, contra o Figueirense, e existem grandes possibilidades de terminar o ano como titular da equipe profissional. Atleta com cidadania italiana encaminhada e que atualmente estuda inglês. Tanto Gustavo como Zezinho estarão na lista das maiores transações do Juventude com o mercado exterior.
Olheiros - O Vinícius Reis pode ser considerado uma resposta ao Zezinho?
Ely - Não considero uma resposta, pois, na minha opinião, o Vinícius não tinha histórico suficiente para ser avaliado da forma que foi. Como eu disse anteriormente, uma estratégia adotada de forma equivocada pode ter resultados inversos.
Olheiros - Quem pode ser considerado o novo Zezinho nas categorias de base do Juventude?
Ely - Apesar de ser um jogador de uma posição diferente, o Gustavo é o atleta da base hoje que está trilhando os mesmos caminhos que o Zezinho está passando. Estamos trabalhando para ter a cada ano um atleta “diferenciado” nas categorias de base. Infelizmente estes atletas só poderão ser apresentados após os 16 anos e o contrato firmado, senão...
Olheiros - Boa parte das revelações brasileiras nos últimos anos tem saído do futebol gaúcho. A que você atribui isso?
Ely - O futebol gaúcho é bastante competitivo no cenário do futebol nacional e internacional, e, aliado a isso, o perfil do atleta gaúcho se assemelha ao perfil buscado pelos clubes europeus. Atletas com bom porte físico e excelente técnica. E por tradição clubes gaúchos como a dupla Gre-Nal e o Juventude investem muito em categorias de base, fazendo um bom trabalho de formação de atletas e oferecendo boas estruturas.
Olheiros - O Rio Grande do Sul também abriga hoje uma série de competições de base. E pelo Brasil fala-se muito da desorganização do calendário para garotos. Como você vê a situação atual?
Ely - Tenho grande preocupação com o calendário, mas me preocupo mais ainda com a forma com que as competições estão sendo organizadas. Times tradicionais que participaram por quatro, cinco anos consecutivos de campeonatos tradicionais de base estão sendo deixados de fora por motivos desconhecidos. O nível técnico de algumas competições está decaindo e os critérios de escolha dos clubes não são mais entendidos. Seria interessante organizar, sim, o calendário e a própria CBF homologar estas competições e clubes, baseado em critérios e históricos das participações.
Olheiros - O volante Lauro é um jogador revelado pelo Juventude e que possui grande identificação com o clube. De que forma a presença dele no elenco influi sobre os mais jovens?
Ely - Lauro é um exemplo de atleta profissional, dedicado e comprometido .Passa tranquilidade e experiência aos mais jovens e transmite o espírito que o tornou um jogador vitorioso.
Olheiros - Em seu aniversário de 96 anos, o Juventude fez o lançamento do seu novo CT. Como será a infra-estrutura do projeto?
Ely - Será uma estrutura espetacular e de primeira qualidade, nos moldes dos melhores centros de treinamentos do país. Estamos com 30% das obras concluídas. O projeto está dividido em duas etapas. A primeira será a construção do CFAC (Centro de formação de atletas e cidadãos), de uso exclusivo da base. E a segunda etapa será o CT dos profissionais.
Serão 44 hectares em que teremos 12 campos de treinamento, sendo um deles aproveitado como estádio para jogos das categorias de base. Ainda teremos quatro vestiários para partidas da base. Enquanto que, no piso superior, existirá também uma sala especial totalmente equipada e com o maior conforto para receber visitantes. A arquibancada para torcida local será coberta e com assentos.
Estão sendo construídas ainda duas quadras cobertas de grama sintética com toda estrutura, alojamentos para todas as categorias e escolinha, refeitório, academia. E também toda estrutura para a área de recuperação de atletas. Cancha de areia, paredão para fundamentos, alojamento para intercâmbio de atletas, sala de recreação, lanchonete, sete campos de futebol gramados.
Enfim, tudo o que for necessário para um centro de treinamento de referência, adotando as melhores técnicas de aproveitamento de recursos e adequando o CFAC às exigências e normas do meio-ambiente. Uma estrutura ecologicamente correta.
Olheiros - Qual a previsão de entrega e o custo total da obra?
Ely - A estimativa é de que, em mais um ano, a fase do CFAC esteja concluída e, em dois anos, o CT profissional. O custo da obra deve girar em torno de 25 milhões de reais.
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