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A formação dos Faraós

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Marcus Alves - 30/08/2009

Depois do sucesso da Copa das Confederações na África do Sul, o continente africano se prepara para receber mais uma competição importante no calendário do futebol. Entre os meses de setembro e outubro, será disputado no Egito o Mundial Sub-20. As cidades de Cairo, Alexandria, Suez, Port Said e Ismaili abrigarão as partidas do campeonato, que, nesta edição, não terá a presença da atual bicampeã Argentina. A seleção albiceleste decepcionou no Sul-Americano da categoria e não conseguiu se classificar. O Brasil, por outro lado, está garantido.

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Essa será segunda vez que o Egito organizará uma competição da Fifa. Em 1997, o país sediou o Mundial Sub-17, que revelou ninguém menos que Ronaldinho Gaúcho. Neste ano, a expectativa dos egípcios é a de que outros nomes com o mesmo potencial despontem em seus gramados. Mas os anfitriões também se preparam para fazer bonito diante de seus torcedores e, para isso, contrataram o técnico Miroslav Soukup, vice-campeão mundial sub-20 com a República Tcheca em 2007.

Sob o comando de Soukup, os Faraós disputaram diversos amistosos e participaram de campeonatos como o Torneio de Toulon. Os resultados não foram muito animadores, porém, a equipe mostra sinais de amadurecimento e deverá estrear, no próximo mês, com uma base interessante. Entre os destaques, estão o goleiro Mohamed Abou-Gabal, cotado como o substituto de Al-Hadari na seleção principal, e o atacante Mohamed Talaat, maior estrela do time.

Uma boa campanha dentro de casa pode fazer com que os clubes egípcios aumentem ainda mais o investimento nas categorias de base. Até pouco tempo atrás desvalorizada, a formação de atletas passou a ser vista de outra forma no futebol local após o terceiro lugar da seleção sub-20 no Mundial da categoria em 2001, na Argentina. O feito é considerado um marco no país e resultou na construção de uma estrutura que, embora ainda falha, se encontra em desenvolvimento.

2001: o marco

Boa parte dos clubes egípcios não depende da venda de atletas para sobreviver. Com uma condição financeira saudável, eles conseguem cumprir com os compromissos mesmo sem negociar seus destaques. Essa situação confortável fez com que, durante anos, as divisões de base fossem deixadas de lado e a contratação de nomes consagrados pautasse a filosofia dos times. Somente com a campanha no Mundial Sub-20 de 2001 o panorama começou a mudar.

A trajetória até a Argentina foi acompanhada de perto no país. O clima de festa motivou a equipe, que, blindada pelo treinador Shawky Gharib, fez um bom papel no campeonato africano da categoria, realizado na Etiópia. Os garotos egípcios ficaram na terceira posição, após a derrota para Gana nas semifinais. Na decisão, Angola se sagrou campeã. Mesmo sem o título, os Faraós foram recebidos como heróis em seu retorno para casa.

No Egito, acreditava-se que a equipe seria capaz de superar a façanha do time que, em 1995, conquistou a medalha de ouro no All-Africa Games. O potencial apresentado por promessas como o goleiro Sobhi, os volantes Shawky e Ghaly, o meia Riad e o atacante Mido criou entre a imprensa e os torcedores a esperança de que essa seleção pudesse reconduzir o país a uma Copa do Mundo. Nos anos seguintes, a expectativa acabaria não se concretizando, mas os frutos, ainda assim, vieram.

Os primeiros resultados do Egito no Mundial Sub-20 não foram dos melhores. Na fase de grupos, uma goleada de 7x1 da Argentina deu a entender que a aventura do time na América do Sul seria curta. Ledo engano. Os comandados de Gharib se recuperariam no decorrer do campeonato e encerrariam sua campanha vencendo o Paraguai na disputa pelo terceiro lugar. Uma vitória com uma repercussão que excederia os limites do estádio José Amalfitani, em Buenos Aires.

Mudança de ventos na base

Ao contrário do que se via até então no Egito, o futebol passou a ser tratado de uma forma mais séria e enxergado como uma opção de carreira pelos pais para seus filhos após o Mundial Sub-20. Não surpreendeu, portanto, que, com a mudança de mentalidade, as escolinhas tenham recebido centenas de novos alunos e os clubes apostado mais na formação de atletas. Hoje, existe no país uma estrutura que permite sonhar com um bom desempenho dos garotos no próximo mês.

A federação egípcia organiza campeonatos nacionais para as categorias sub-16, sub-18 e sub-20. Os dois primeiros possuem, inclusive, rebaixamento, com o descenso e a promoção de três clubes a cada temporada. Nos juniores, o formato não é o mesmo, pois a competição é disputada pelas mesmas equipes que participam da Premier League local. Na prática, funciona como um espaço para os jovens jogadores se manterem em atividade e se prepararem para atuar entre os profissionais.

O regulamento no sub-20 é semelhante ao dos campeonatos estaduais de aspirantes que havia no Brasil. A exemplo do que faziam nossos clubes, as equipes egípcias podem escalar, a cada jogo, três atletas do time principal. Na última temporada, por exemplo, o Zamalek, atual campeão da categoria, recorreu ao meia-atacante Shikabala, uma de suas principais estrelas, enquanto ele se encontrava suspenso dos gramados.

Ao lado do Zamalek, o Al Ahly domina as categorias de base, repetindo, assim, o que se sucede no profissional. Os dois são ainda os clubes que mais cedem jogadores às seleções. No entanto, não estão sozinhos nesse trabalho. Menos poderosos, ENNPI, Ismaili e Asyut Petroleum investem bastante na formação de atletas para tentar lucrar com a venda de suas revelações e reduzir a distância que os separa dos grandes do país.

Falha na formação

No Egito, os jogadores encontram praticamente tudo o que desejam. Bons salários, respeito a sua religião, admiração da torcida. Até por conta disso, são poucos os que aceitam abrir mão dessas vantagens para se arriscar na Europa, um centro ainda desconhecido para a maioria dos atletas do país. Essa resistência, obviamente, se reflete na seleção principal, que, ao contrário de suas adversárias no continente, não possui a mesma rodagem internacional e, às vezes, acaba sofrendo com isso.

Como solução para esse problema, está a saída de suas estrelas para clubes europeus. Não se pretende, é claro, incentivar um êxodo que se aproxime, em números, do que ocorre no Brasil. Mas, para os Faraós, seria positivo ter os seus destaques atuando em campeonatos mais fortes e que, acima de tudo, exijam de seus jogadores um maior profissionalismo. Essa é uma deficiência de formação que, nos últimos anos, ficou evidente nas passagens de nomes como Mido e Zaki pelo Velho Continente.

O caso dos dois novos reforços do Zamalek é emblemático. Fizeram sucesso na Europa, atraíram o interesse de alguns dos principais times do mundo, mas colocaram tudo a perder com a falta de disciplina dentro e fora de campo. É algo comum nas experiências dos atletas egípcios longe de casa e que só atesta a falha que se comete no trato aos jogadores durante a formação, com o excesso de mimos e a carência de rigor nas punições. Por conta disso, não raramente eles se chocam com a realidade que encontram além das fronteiras.



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