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As zebras dos Mundiais Sub-20

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Maurício Vargas - 06/09/2009

República Tcheca, Chile e Áustria certamente não apareciam em nenhuma lista de favoritos antes do início do Mundial Sub-20 do Canadá, em 2007. Mas mundiais de seleções não são mundiais de seleções se não tiverem uma ou outra zebra. Quando se juntam estilos e jogadores tão diferentes em um torneio de tiro curto, a surpresa é quando não acontecem resultados como as eliminações de França e Argentina na Copa de 2002 ou ainda a incrível derrota italiana para a Coreia do Norte em 1966.

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Em campeonatos limitados pela faixa etária, tal regra é elevada a maiores potências. Uma jornada inspirada, um mês de sorte ou até mesmo a certeza antecipada da vitória podem resultar – e normalmente resultam – em uma enxurrada de placares improváveis.

Por isso, antecipando uma nova série de decepções e alegrias nos gramados egípcios, Olheiros apresenta as dez maiores zebras da história dos Mundiais Sub-20: cinco campanhas surpreendentes e cinco jogos chocantes. Relaxe, leia e comemora a vitória de Davi sobre Golias em sua mais plena forma.

Catar – vice-campeão - Austrália 1981

A primeira zebra da história dos Mundiais Sub-20 foi, também, a maior delas. Antes de tudo, simplesmente pelo fato de o Catar, uma seleção asiática sem expressão futebolística alguma ainda hoje, ter chegado à decisão. Mas, principalmente, porque – ao contrário das outras surpresas que iremos apresentar – os catarenses terem deixado pelo caminho equipes fortíssimas como Brasil e Inglaterra. 

O segredo por trás dos árabes começa na preparação: vieram ao Brasil buscar Evaristo de Macedo, técnico da equipe sub-20 terceira colocada na Tunísia em 77 e, antes do Mundial, passaram um mês no país fazendo amistosos contra clubes profissionais, especialmente do Rio. Baseando-se em um futebol ofensivo cujo esquema variava do 4-4-2 para o 4-3-3 e no treinamento exaustivo da linha de impedimento, Evaristo teve sucesso logo na estreia, derrotando a Polônia por 1 a 0.

No jogo seguinte contra os Estados Unidos, empate em 1 a 1 graças a um erro do auxiliar, validando um gol no qual a bola de Badir Beleal não havia cruzado inteiramente a linha. Na partida contra o já classificado Uruguai, a segunda vaga estava praticamente assegurada, uma vez que os EUA precisavam golear a Polônia. A derrota por 1 a 0 foi suficiente, já que os poloneses acabaram fazendo 4 a 0.

A campanha sem destaque em um grupo teoricamente sem grandes favoritos valeu ao Catar o status de grande azarão nas quartas-de-final ante o Brasil. O time de Vavá era apontado como maior favorito ao título e tinha nomes como Mauro Galvão, Julio César e Josimar, além de um jovem Geovani que seria destaque no Mundial seguinte, no México.

Conhecendo os pontos fortes do Brasil, Evaristo escalou uma linha de cinco e outra de quatro marcadores, deixando Khalid Almuhannadi isolado na frente. A estratégia deu certo e logo aos dez minutos o placar já era favorável. O atacante Ronaldo Marques, revelado pelo Flamengo, empatou. No segundo tempo, a eficiente linha de impedimento barrou todos os ataques brasileiros e Almuhannadi marcou outras duas vezes, sempre graças aos passes em profundidade treinados por Evaristo. O mundo estava chocado e o Brasil, eliminado. 

Na semifinal contra a Inglaterra, outro show de disposição tática e futebol ofensivo num momento em que o mundo todo voltava-se para a defesa. No total, foram 20 impedimentos assinalados contra os ingleses. Quando a linha não funcionava, o espalhafatoso goleiro Ahmed Almajid dava conta do recado, abandonando o gol para dividir com os atacantes. A esta altura, a vitória por 2 a 1 já não parecia surpresa, mas algo esperado.

A jornada de sonhos no inverno australiano acabou na final diante da aplicada seleção alemã: em um encharcado gramado de Brisbane, a linha de impedimento e a velocidade na saída de bola não funcionaram e a equipe asiática foi facilmente dominada, perdendo por 4 a 0.

Coreia do Sul – 4º lugar – México 1983

Apesar de ter se classificado para o Mundial como campeã asiática, a Coreia do Sul chegou ao México com o status de mero figurante. A derrota na estreia confirmou a expectativa, mas a vitória sobre os anfitriões na segunda rodada mostrou que havia algo diferente: apesar de não possuir jogadores de grande habilidade, o time coreano era surpreendentemente coeso, errando pouquíssimos passes e demonstrando um entrosamento muito grande.

Foi assim que veio também o triunfo sobre a Austrália e a classificação em segundo lugar. Nas quartas-de-final, novamente a impressão que se tinha era de que a jornada acabaria ali. Mas em um grande jogo, com diversas chances desperdiçadas para os dois lados, a sorte sorriu para os asiáticos, que venceram na prorrogação, graças ao gol de Yon So Shin. 

A quantidade de chances desperdiçadas foi a grande vilã da campanha coreana, que sucumbiu diante do Brasil na semifinal exatamente por não concretizar as oportunidades criadas. Em um jogo bastante equilibrado, considerado por todos o melhor do torneio, a Coreia saiu na frente mas brilhou a estrela de Geovani, craque do torneio, que fez as jogadas dos gols de Gilmar Pipoca e Santos. Na decisão do terceiro lugar, o futebol extremamente físico dos europeus encaixou melhor, mas mesmo assim os Taguk não foram vencidos com facilidade: 2 a 1 na prorrogação.

Aquele time rendeu o nome do zagueiro Pan Kenn Kim à seleção do torneio, mas acabou não revelando nenhum jogador que participaria das campanhas coreanas nas Copas de 86, 90 e 94. Ainda assim, acabou sendo o primeiro grande resultado da Coreia do Sul nos torneios de seleção da FIFA.

Austrália – 4º lugar – Portugal 1991

O Mundial Sub-20 de 1991 ficou marcado pela geração de Luís Figo e cia, mas também pelo futebol extremamente defensivo praticado à época. Indo na direção oposta, a seleção australiana encantou a todos desde o primeiro jogo com um futebol rápido, baseado nos ataques dos pontas, que cruzavam uma média de 20 bolas por jogo.

Em um grupo equilibrado, os Aussies não tiveram dificuldades em vencer a fraca seleção de Trinidad & Tobago na estreia. Na sequência, dois campeões continentais da categoria: a seleção soviética (que disputou em Portugal o último torneio de sua história) e o Egito. Duas vitórias simples deram aos australianos a melhor campanha da primeira fase, ao lado dos anfitriões. 

Nas quartas-de-final, um duelo duríssimo sob muito calor contra a também surpreendente Síria. David Seal abriu o placar de cabeça aos 20 e a partida parecia controlada, mas na volta do intervalo o reserva Abdul Llah Mando colocou fogo no jogo e empatou, levando à prorrogação. A Síria se fechou e conseguiu levar a decisão para os pênaltis, quando brilhou a estrela do goleiro Mark Bosnich, que defendeu duas cobranças.

Os 112 mil torcedores que lotaram o Estádio da Luz amedrontaram os Socceroos, que mal tocaram na bola no primeiro tempo da semifinal. Os portugueses fecharam os lados da defesa, impedindo os avanços dos pontas e isolando Seal, praticamente acabando com a estratégia australiana. Mesmo com um segundo tempo equilibrado, a derrota por 1 a 0 foi justa pelo que os donos da casa vinham mostrando até ali.

A decisão do terceiro lugar foi um jogo sonolento e vencido nos pênaltis pelos soviéticos. Ainda assim, aquela campanha rendeu à Austrália nomes como Bosnich, Zeljko Kalac, Kevin Muscat e Tony Popovic, marcando-se como a geração que deu início à ascensão que transformou os Aussies em uma das seleções que mais evoluem atualmente.

Japão e Mali – vice e 3º lugar – Nigéria 1999

A zebra passeou livre nos gramados nigerianos. Alemanha e Inglaterra foram lanternas de seus grupos, e a Argentina pegou a última vaga dos terceiros colocados. Japão e Mali não se enfrentaram, mas foram as sensações do torneio: comandados por Philippe Troussier, os japoneses venceram Inglaterra e EUA e ganharam seu grupo, para depois avançar à semifinal batendo Portugal nos pênaltis. 

Os destaques da campanha nipônica eram Masashi Motayama e Shinji Ono, mas o time estava recheado de jogadores que disputaram as duas últimas Copas, como Koji Nakata, Yasushito Endo, Akira Kaji e Junichi Inamoto. A grande exibição veio na semifinal, ao derrotar o Uruguai de Carini, Chevanton e Forlan por 2 a 1. Na final, a ausência de Ono e o cansaço acumulado pesaram e o ficou com a Espanha, mas aquela foi talvez a melhor seleção japonesa montada até agora.

A outra sensação do torneio foi Mali, liderado por Seydou Keita, então exímio driblador, dono de grande toque de bola e visão de jogo. Não à toa, fora contratado pelo Olympique Marseille pouco antes do início do Mundial, e a expectativa se confirmou: foi eleito o melhor jogador do campeonato.

Keita, entretanto, não estava sozinho. A base foi formada pelo time quinto colocado no Mundial Sub-17 dois anos antes. Mahamadou Dissa foi o artilheiro, e nomes como Diarra, Coulibaby, Traore, Diakite e Sissoko fazem daquela seleção de Mali uma das mais memoráveis dos Mundiais. 

As vitórias sobre Uruguai e Portugal foram suficientes para garantir a classificação, e um time reserva perdeu para a Coreia do Sul no fechamento do grupo. A partir daí, dois confrontos com vizinhos: um memorável triunfo no gol de ouro por 5 a 4 contra Camarões e a incontestável vitória por 3 a 1 sobre os donos da casa transformaram a semifinal contra a Espanha em algo como a final antecipada.

Mais uma vez, a expectativa e a falta de concentração foram determinantes na derrota de um time africano, e os espanhóis venceram por 3 a 1. Ficou a medalha de bronze conquistada sobre o Uruguai como consolo e a certeza de que é graças àquela campanha que o país entrou no mapa do futebol, sendo sempre lembrado como candidato a estrear em Copas.

Marrocos – 4º lugar – Holanda 2005

A última grande campanha de um africano nos Mundiais de base foi da Nigéria, vice-campeã, mas o Marrocos foi quem realmente surpreendeu ao chegar à semifinal. Após a derrota para a Espanha na estreia, os marroquinos aproveitaram-se da fragilidade de Honduras e golearam por 5 a 0, com dois gols de Mouhssine Jaour. O empate com o Chile bastava, mas a vitória por 1 a 0 garantiu a segunda vaga. 

Nas oitavas, um jogo aberto com o Japão merecia mais gols, mas novamente Iajour salvou os Leões de Atlas, com um gol aos 47 do segundo tempo. Contra a Itália, a equipe de Jamal Fathi esteve duas vezes na frente, uma delas na prorrogação, mas cedeu o empate. Na decisão por pênaltis, o goleiro Mohammed Bourkadi defendeu duas cobranças e foi o homem do jogo, afinal já havia defendido uma penalidade de Bentivoglio no tempo normal.

A Nigéria provou-se muito forte na semifinal, e não deu chances aos marroquinos, vencendo por 3 a 0. Na partida de consolação, Edcarlos marcou contra para colocar os africanos na frente, mas Fábio Santos empatou a dois minutos do fim e novamente Edcarlos, para consertar o erro, deu o terceiro lugar ao Brasil com um gol nos acréscimos.

Coréia do Sul 4x1 Itália – Austrália 1981 (fase de grupos)
A Itália nunca teve muito sucesso em torneios de base, mas terminar um grupo com três derrotas é demais – especialmente quando uma delas é para a Coréia do Sul. Fruto da briga entre clubes, que não cederam os principais jogadores, e federação. Na partida de estreia das duas equipes, o time que havia treinado junto por apenas uma semana foi facilmente envolvido pelo frenético toque de bola coreano e sofreu três gols em 29 minutos, a ponto do goleiro Carlo Riccetelli ser substituído. Daquela equipe, apenas dois jogadores se destacaram: o zagueiro Riccardo Ferri, titular na Copa de 90, e Giuseppe Gauderisi, atacante que disputou a Copa de 86.

Inglaterra 0x2 China – União Soviética 1985 (fase de grupos)
A dificuldade para liberação dos jogadores foi vilã também com os ingleses. Sem conseguir fechar uma lista final, o técnico Dave Sexton pouco treinou e acabou viajando para Baku com apenas 16 jogadores – o que explica talvez a lanterna num grupo que tinha México, Paraguai e China. Após empatar com os paraguaios na estreia, os English Boys decepcionaram novamente ao sequer conseguir finalizar contra uma retrancada equipe chinesa. Como a Inglaterra não atacava, no segundo tempo os asiáticos foram para o ataque e marcaram aos 31 e aos 44, aproveitando as falhas de posicionamento e a ajudinha do goleiro Derick Williams no primeiro gol.

Iraque 1x0 Argentina – Arábia Saudita 1989 (fase de grupos) 
A Argentina tinha uma geração promissora, com Bonano e Simeone. O Iraque comemorava a própria classificação, e era apontado como uma das equipes mais frágeis do Mundial. No encontro das duas seleções, na última rodada, os iraquianos já haviam vencido Noruega e Espanha e os argentinos precisavam vencer para se classificar. A surpresa continuou quando o time de Jassam Homi Anwar usou novamente de suas armas: marcação forte no meio-campo, velocidade e muito preparo físico, tanto que os três jogos foram vencidos no segundo tempo. O gol foi marcado pelo líbero Radhi, de pênalti. Apesar da derrota, a Argentina se classificou no saldo, para ser eliminada pelo Brasil nas quartas – o Iraque também caiu, para os EUA.

México 4x1 Argentina – Nigéria 1999 (oitavas-de-final)
Como já vimos, o Mundial de 99 foi bem estranho. A Argentina, grande favorita, tivera dificuldades na primeira fase, pegando a última vaga dos terceiros colocados, enquanto o México vencera um grupo fácil, com Irlanda, Austrália e Arábia Saudita. Ao final do primeiro tempo, os então atuais campeões venciam por 1 a 0, gol de Luciano Galletti. Na volta do intervalo, o time de Jesus Del Muro foi para o ataque e deu espaços à equipe de Jose Pekerman. Aí veio o triunfo mexicano: mesmo perdendo, encaixou três contra-ataques mortais e marcou quatro gols em 36 minutos.

Itália 1x2 Síria – Holanda 2005 (fase de grupos)
Um time que tinha como grande destaque o atacante Graziano Pellè não pode ser considerado um dos mais fortes da tradicional história italiana. Após se classificar na bacia das almas para o Mundial, a Azzurra perdeu na estreia para a Colômbia por 2 a 0 e enfrentaria a Síria numa luta pela sobrevivência. Muito retrancado, o time asiático limitava-se a lançamentos em profundidade para seus velozes atacantes. A tática deu certo: Abd Alhousain e Mohammad Al Hamwi marcaram um em cada tempo e chocaram o público presente em Tillburg. Beneficiada pelas vagas aos terceiros, a Itália acabou se classificando e até foi mais longe que os sírios, chegando às quartas.



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