Breiller Pires - 09/09/2009
Se livrar de um estigma que atinge várias gerações. Talvez este seja o primeiro objetivo da seleção paraguaia sub-20 no Mundial do Egito. Mesmo formando boas equipes e emplacando inícios de competição animadores, o Paraguai coleciona desilusões quando o assunto é Copa do Mundo. Morrer na praia não é novidade para o esquadrão guarani. E esse estigma parece ser hereditário, independe de categoria.
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A seleção principal, por exemplo, cansou de frustrar expectativas. Em 1998, na França, classificou-se em segundo lugar em seu grupo, eliminando a Espanha e terminando a primeira fase invicta, apenas um ponto atrás da Nigéria. Logo nas oitavas de final, acabou eliminada pelos franceses numa dramática prorrogação.
A própria sub-20, por sua vez, também tem mágoas para chorar. No Mundial de 2001, na Argentina, quando conseguiram sua melhor colocação na história do torneio – 4º lugar –, os garotos da alvirrubra foram crescendo aos poucos na competição. Liderada por Pedro Benítez – recém contratado pelo Atlético-MG –, Julio González e Santiago Salcedo, a seleção paraguaia alcançou as semifinais, empolgando os torcedores com um futebol objetivo e de pegada. No entanto, deu azar ao cruzar com a dona da casa, que contava com estrelas como D’Alessandro, Saviola, Romagnoli e Maxi Rodríguez. Despediu-se das chances de título levando um 5 a 0 na bagagem. Desde então, o Paraguai só conseguiu se classificar para o Mundial Sub-20 em 2003, disputado nos Emirados Árabes. Ficou de fora em 2005 e 2007.
Justamente para evitar novas frustrações, o técnico Adrián Coria prefere não criar grandes expectativas em torno da equipe alvirrubra. Sua meta principal é simplesmente ultrapassar a barreira da fase de grupos. Missão que já se torna complicada considerando-se os primeiros adversários. Na estreia, embate contra a Itália. Depois, o confronto é diante os donos da casa, os egípcios. O último compromisso no grupo é contra a fraca Trinidad e Tobago, que foi goleada pelo próprio Paraguai por 4 a 1, no hexagonal preparatório para o Mundial, realizado na Venezuela, em julho. Para cumprir a meta, Coria entende que será preciso começar bem, superando os dois primeiros adversários. “Se perdermos o jogo de estreia, poderemos pagar caro depois. Um bom desempenho na competição depende muito dos primeiros jogos”, analisa Coria.
Eficiente, com sobras
Futebol de resultado, jogar com o regulamento debaixo do braço e levar os três pontos: assim se resume o retrospecto recente da seleção sub-20 paraguaia. No Sul-Americano, que definiu as quatro vagas da Conmebol para o Mundial no começo do ano, o time passou sufoco para carimbar seu passaporte para o Egito. Já na fase final do torneio, a equipe guarani se complicou ao empatar com Argentina e Uruguai e, mais ainda, ao perder para a Colômbia, por 2 a 1. Chegou ao último e decisivo jogo precisando vencer o já classificado Brasil para não se ver fora de mais um Mundial.
Vendo brilhar a estrela do polivalente Hernán Pérez, os paraguaios bateram a seleção brasileira por 1 a 0, garantiram vaga no Egito e ainda celebraram o vice-campeonato do torneio. Numa competição em que o Paraguai mostrou mais raça, garra e disciplina tática do que talentos individuais ou safra promissora. No dia seguinte à classificação, o jornal “La Nación” estampava na primeira página: “Apresentou mais garra que bom futebol”. Determinação e eficiência que bastaram para a equipe terminar o Sul-Americano com quatro vitórias, três empates, duas derrotas e a sensação de dever cumprido. Pelo menos não foi dessa vez que o Paraguai voltou a morrer na praia.
Sem poder contar com atletas que atuam no exterior, além de alguns jogadores do Cerro Porteño – liberados para a disputa da Copa Sul-Americana –, a seleção paraguaia vem se preparando para o Mundial Sub-20 desde julho, quando se reuniu para disputar um mini-torneio preparatório na Venezuela. Perdeu para Brasil e Costa Rica, mas venceu os anfitriões e Trinidad e Tobago, jogando praticamente no mesmo estilo que a consagrou no Sul-Americano: muita vontade, pouca técnica. Após o torneio, os paraguaios voltaram a se concentrar para o Mundial no dia 17 de agosto, quando o técnico Adrián Coria convocou 25 atletas que atuam no país para iniciar os trabalhos de preparação intensiva.
Coria está no comando da sub-20 alvirrubra desde o final de 2007. Argentino, ele chegou ao Paraguai a convite do seu conterrâneo Gerardo Martino, que comanda a seleção principal do país, para ser auxiliar técnico. Acabou promovido a técnico da base e conseguiu levar os guaranis de volta a um Mundial Sub-20 após seis anos. Mesmo sem traçar metas muito ambiciosas para a competição, Coria acredita que um bom desempenho no Egito pode ser um divisor de águas em sua carreira. “Prometo muito trabalho, pois ganhar o Mundial significaria a realização de um sonho profissional”.
“Defensores del Chaco”
Boa parte do grupo montado por Coria atua no próprio país. A maioria está dividida entre Cerro Porteño, que revelou Arce e Gamarra, e Libertad, reconhecido por formar e dar espaço para jovens talentos. Entre os jogadores que atuam no exterior se destacam o zagueiro Ronald Huth, que estava no Liverpool, da Inglaterra, além dos meias Hernán Pérez, do Villarreal, e Nicolás Martínez, que atua no Puebla, do México.
Ainda merecem atenção o oportunista Robin Ramírez, que foi um dos artilheiros do Sul-Americano ao lado de Pérez, com cinco gols, e o também atacante Luis Páez, que já teve passagem pelo Sporting, de Portugal, e hoje defende o Tacuary. Isso sem contar o goleiro e capitão da equipe Joel Silva, vice-campeão do Torneio Clausura 2008 com o Guaraní e titular absoluto do time paraguaio desde 2007.
Por não contar com tantos jogadores diferenciados no elenco, Coria investe num sistema tático que exige dos volantes uma participação mais ativa em todos os jogos. Para abastecer o ataque encabeçado por Robin Ramírez, e que pode ser composto ou por Páez ou pelo eficiente Federico Santander, os atletas precisam ir e voltar. Assim também não sobrecarregam a defesa, um dos pontos fortes da equipe. Geralmente, Freddy Coronel e Aldo Paniagua são os designados para a função, até mesmo por terem condição física privilegiada.
Dependendo da situação de jogo, como ocorreu na partida decisiva contra o Brasil no Sul-Americano, os meias Pérez e Martínez se revezam desempenhando papel de marcação atrás da linha do meio-campo. Mais atrás, Joel Silva e Ronald Huth comandam a sólida defesa paraguaia. O esquema tático geralmente se baseia no 4-4-2 simples, podendo variar para o 4-5-1, com um centroavante – Ramírez ou Santander – mais isolado ou até mesmo para um 4-3-3, aproveitando o poder de fogo do trio Pérez, Santander e Ramírez, que deu dor de cabeça para os adversários no Sul-Americano. Sozinhos, marcaram 14 dos 18 gols da equipe na competição, e surgem como maior esperança do país para deixar de lado o estigma de cavalo paraguaio.
Curtas
- ELE PROMETE IR À CAÇA...
Robin Ramírez. Após ser um dos artilheiros da seleção alvirrubra no Sul-Americano Sub-20, Ramírez passou a ser reconhecido como homem-gol da equipe. Na competição na Venezuela, anotou cinco, sendo que três deles foram marcados num só jogo, contra a Bolívia. Revelado pelo Libertad, o atacante de 1,71m vê o Mundial do Egito como marco para poder se firmar na equipe principal do clube ou, até mesmo, como vitrine para uma transferência para o exterior. Seu estilo de jogo lembra o de outro atacante paraguaio, Nelson Cuevas, que chegou a jogar pelo Santos em 2008: velocidade, muita movimentação e faro de gol.
- NÃO DEVERÁ PASSAR DE UMA MIRAGEM...
Luis Páez. Surgiu no Tacuary como fenômeno e candidato a superstar. Chegaram a compará-lo inclusive a Roque Santa Cruz, atacante paraguaio que hoje defende o Manchester City. Aos 17 anos, foi contratado pelo Sporting, de Portugal. Acabou emprestado ao Fátima, da terceira divisão lusitana, e, este ano, retornou ao clube que o revelou. Na seleção sub-20, vai ter de lutar muito para conseguir uma vaguinha no ataque. Em queda na carreira, não há quem duvide que Páez vá ser apenas coadjuvante no Egito.
- O PROFETA...
Ronald Huth. Apesar do capitão da seleção ser o goleiro Joel Silva, Huth é o grande responsável por liderar não só a defesa, como também todo o time paraguaio. Apesar de pouco aproveitado no Liverpool, e liberado ao fim de seu contrato, em agosto, ele tem experiência suficiente para dividir com os companheiros e contribuir com o técnico Adrián Coria. Foi um dos jogadores mais importantes do Paraguai no Sul-Americano e chega ao Mundial com uma importante motivação: se destacar para seguir jogando no futebol europeu.
- O FARAÓ...
Hernán Pérez. É o jogador mais habilidoso da equipe. Atua no meio-campo, mas chega muito fácil à frente, auxiliando o ataque e marcando gols. No Sul-Americano, foram cinco, o que fez dele um dos goleadores da competição. Jovem, técnico e muito versátil, Pérez já acumula passagens por Libertad e Tacuary, onde teve oportunidade de disputar o Campeonato Paraguaio e a Copa Sul-Americana. Em agosto, foi contratado pelo Villarreal por cerca de R$ 2 milhões e promete fazer valer o investimento em pouco tempo. Não será espanto vê-lo brilhar no Egito.
Elenco
GOLEIROS
Joel Silva (Guaraní) - 13/01/1989
Jorge Ortiz (Olimpia) - 05/01/1989
Gerardo Ortiz (Quilmes-ARG) – 25/03/1989
DEFENSORES
Iván Piris (Cerro Porteño) - 10/03/1989
Ronaldo Huth (Vicenza-ITA) – 30/10/1989
Oscar Velásquez (Guaraní) - 07/11/1990
Rolando García (Defensor y Justicia-ARG) – 10/02/1990
César Benítez (Cerro Porteño) - 22/05/1990
MEIO-CAMPISTAS
Aldo Paniagua (12 de Octubre) - 12/07/1989
Rodrigo Burgos (Cerro Porteño) - 21/06/1989
Gustavo Cristaldo (Libertad) - 31/05/1989
Celso Ortiz (AZ Almaar-HOL) - 26/01/1989
Hernán Pérez (Villarreal-ESP) – 25/02/1989
Nico Martínez (Puebla-MEX) – 15/02/1989
Derlis Orué (12 de Octubre) – 15/04/1990
Jorge Moreira (2 de Mayo) – 15/07/1990
ATACANTES
Luis Páez (Tacuary) - 19/12/1989
Lorenzo Melgarejo (12 de Octubre) – 02/02/1990
Luís Caballero (Olimpia) – 22/04/1990
Federico Santander (Guaraní) - 04/06/1989
Robín Ramírez (Libertad) - 11/11/1989
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