Marcus Alves - 10/09/2009
“Brasil saca cracks y Argentina, grande jugadores”. A afirmação de Diego Simeone invariavelmente aparece em debates sobre a seleção vizinha. Atravessando um longo jejum de títulos com sua equipe principal, os albicelestes parecem ter incorporado, nos últimos anos, uma característica que, até a década de 60, costumava-se apregoar ao Brasil: o complexo de vira-lata. Hoje, imprensa e torcedores argentinos não possuem mais tanta certeza quanto ao talento de seu time.
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Mas, convenhamos, em sã consciência, é possível contestar o potencial de atletas como Messi, Aguero, Tévez, Cambiasso, Mascherano e Ustari? A resposta é não e, por mais que os resultados deponham contra, a maioria deles, numa comparação fria e pouco profunda, é até melhor do que as opções que o Brasil costuma escalar em suas posições. Entretanto, com o momento ruim em que a Argentina se encontra, prefere-se fechar os olhos e apontar o dedo para os jogadores.
O foco, na verdade, deveriam ser os dirigentes. Mais precisamente as mudanças realizadas por eles na comissão técnica das seleções nacionais. De forma repentina, optou-se, no fim de 2007, por se romper com o modelo então vigente no país, estabelecido por José Pekerman, e iniciar-se um novo ciclo, impulsionado pela contratação de Diego Maradona como técnico da equipe principal – e que, até agora, não seria exagero dizer, contribuiu bastante para a derrocada albiceleste. O projeto da geração 86 vem sendo todo ele um fiasco.
Pode-se até argumentar que Sergio Batista, treinador do time sub-20, conquistou, em seu primeiro ano no cargo, a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim. No entanto, o ex-meio-campista possui pouco mérito no feito. Assumiu um elenco espetacular, formado por jogadores que já atuavam uma categoria acima e revelados, em boa parte, por Pekerman, no trabalho anterior. Qualquer resultado diferente que não fosse o título, diante dessas circunstâncias, seria considerado, portanto, um fracasso.
Mais um, aliás, no retrospecto da equipe que foi montada com o objetivo de se resgatar a força da seleção bicampeã mundial em 1986, mas que, desde então, se perdeu no tempo. Com Maradona entre os profissionais, Batista no Sub-20 e José Luis Brown na Sub-17, acentuou-se ainda mais a curva descendente que o futebol local vinha experimentando. A diferença é que se antes as categorias de base ao menos compensavam os fracassos do time principal, hoje a perspectiva na formação de atletas é assustadora.
Com a meta de se estender a caça de talentos pelo interior do país, nomeou-se Sergio Batista para a vaga deixada por Hugo Tocalli, hoje no Colo Colo. É claro que ainda é cedo para se tirar conclusões, mas, na esteira do que se tem visto com Maradona, e que não é preciso nem comentar, até porque o desfecho de sua era parece estar até próximo, Batista e Brown também vêm falhando na condução de seus trabalhos, o que pode respingar diretamente na crise que a seleção principal enfrenta. Afinal de contas, as camadas inferiores são as responsáveis por formar os atletas que, no futuro, vestirão a camisa albiceleste.
No Sul-Americano Sub-20, Batista e seus comandados fizeram uma campanha vergonhosa e não conseguiram classificar o país para o Mundial da categoria, a ser disputado a partir deste mês. E para piorar, o técnico de 46 anos mostrou pouco poder de reação diante do resultado, preferindo creditá-lo ao elenco. Enquanto isso, na Sub-17, a equipe chegou à competição continental com a obrigação de conquistar o título, mas ficou apenas com o vice, após perder para um insosso Brasil, que vinha desapontando no torneio.
No momento, parece pouco provável que o presidente da federação argentina, Julio Grondona, assuma a falha na escolha dos profissionais e suspenda o projeto da geração 86. Mas se os resultados continuarem assim, não restará outra escolha ao mandatário. A não ser que ele prefira acompanhar ao crescimento dos vizinhos.
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