Gabriel Dudziak - 15/09/2009
Apesar de ser bicampeã do mundo, nos últimos anos a seleção e o próprio futebol do Uruguai têm passado por uma grande crise. Sem avançar para a segunda fase de uma Copa desde 1970 e com um jejum de títulos que perdura há 13 anos, é possível dizer que a celeste deixou de ser uma potência no futebol. Os prognósticos para a África do Sul não são melhores do que o retrospecto recente. A seleção aparece apenas na sexta posição das Eliminatórias da Conmebol e precisa vencer suas próximas duas partidas se quiser ter alguma chance de ao menos participar da repescagem para o Mundial.
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Felizmente na seleção sub-20 o país tem bons motivos para se mostrar satisfeito e até otimista com a atual geração. Depois de ser eliminada de forma surpreendente pelos EUA nas oitavas de final do Mundial do Canadá, em 2007, a divisão de base nacional passou por uma reformulação e hoje já colhe seus primeiros frutos. Diferentemente da seleção principal, a equipe sub-20 chega à disputa de 2009 com reais chances de brigar pelo troféu.
Se a expectativa for concretizada, será o primeiro título da equipe na competição. Até hoje o melhor resultado dos sul-americanos foi um segundo lugar na edição de 1997, quando perderam para a Argentina. Antes disso, no entanto, quando o Mundial ainda engatinhava, os charrúas também conseguiram resultados bons, mas acabaram sendo eliminados duas vezes nas semifinais. Em 1977, no primeiro campeonato do tipo, perderam para a União Soviética, que eventualmente se sagraria campeã. Dois anos depois foi a vez da Argentina, campeã com Diego Maradona, derrotar os rivais, deixando-os apenas com o terceiro lugar.
Por conta de sua campanha praticamente irrepreensível no Sul-Americano deste ano, em que demonstrou o melhor futebol do torneio e só não ficou com o título por alguns detalhes, a experiência de certos jogadores na Europa e a bem planejada preparação para a disputa, o Uruguai tem tudo para fazer, pelo menos, uma boa campanha no Egito.
Planejar é preciso
Embora não fosse favorita ao título, a seleção uruguaia começou o Sul-Americano Sub-20 deste ano a todo o vapor. Depois de bater a Bolívia na primeira rodada por 2 a 0, derrotar o Chile por 3 a 2 e ganhar do Paraguai por 4 a 2, a celeste fez uma atuação de gala contra o Brasil, vencendo a seleção por 3 a 2, com direito a virada após estar perdendo por 2 a 1. Os quatro triunfos em quatro jogos levaram o Uruguai para a próxima fase como a seleção de melhor aproveitamento do campeonato.
No hexagonal final, no entanto, a beleza das atuações uruguaias começou a não ser suficiente para garantir os resultados necessários. Na primeira partida os comandados de Diego Aguirre tomaram a revanche dos brasileiros, perdendo pelo mesmo placar pelo qual haviam vencido o escrete canarinho. A recuperação apareceu nas rodadas seguintes, depois que as vitórias contra Colômbia e Argentina colocaram o time no penúltimo jogo ainda com chances de título. Um empate com o Paraguai garantiu a classificação para o Mundial, mas a vitória do Brasil em cima dos colombianos acabou com a possibilidade de o Uruguai faturar o caneco.
O bom desempenho no campeonato continental foi o primeiro resultado de relevo obtido pelo treinador Diego Aguirre, que assumiu a seleção em 2008 e desde então vem pregando uma mentalidade vencedora e um futebol bastante ofensivo para a celeste. Depois de conseguir a classificação, o comandante, de apenas 43 anos, destacou que a conquista não foi obra do acaso, mas sim fruto de um planejamento bem elaborado. Com essa ideia em mente, a preparação para o Mundial tem sido levada com bastante seriedade.
Em agosto, durante uma espécie de pré-temporada para a seleção, o Uruguai veio ao Brasil a fim de realizar uma série de amistosos contra clubes locais. O giro pelo país do futebol começou com uma vítória por 1 a 0 contra o Atlético-PR Sub-20. Na sequência, derrota para os reservas do Avaí por 3 a 0, empate em 0 a 0 com o pequeno Trieste, do Paraná, e novo triunfo ante o Rio Branco-PR, também por 1 a 0. O período de preparação ainda teve uma passagem pelo Paraguai, onde a equipe disputou dois amistosos contra a seleção sub-20 local, obtendo duas vitórias, uma por 1 a 0 e outra por 5 a 2.
Ataque pelos flancos
O time uruguaio, que já era tratado na época do Sul-Americano deste ano como o melhor desde a geração 1981, de jogadores como Francescoli, Berrueta e Aguilera, vai ao Egito novamente com uma proposta de futebol ofensivo e envolvente. Para tanto, Aguirre deverá manter a base que teve bons resultados no Sul-Americano e que desenvolveu um entrosamento ainda maior neste período de preparação. Com isso, o esquema adotado deverá ser o 4-4-2 ou o 4-2-3-1, com os lados do campo sendo a principal opção para chegar ao gol adversário.
Na defesa o destaque são os laterais. Pela direita Matías Aguirregaray, revelação do Peñarol, é forte no apoio e efetivo na marcação, o que lhe permite ser tanto opção ofensiva, quanto defensiva. Na esquerda, Leandro Cabrera, jogador do Atlético Madrid, tem características semelhantes às de seu companheiro, o que transforma este setor da equipe em um dos mais promissores, tanto taticamente, quanto em termos de habilidade. Em tese reserva, o lateral-direito Adrian Gunino, do Boca Juniors, também tem chances de fazer um bom Mundial. Já a faixa central defensiva, outrora a posição mais destacada do futebol uruguaio, ironicamente é o ponto mais fraco dessa seleção. Mesmo assim, a dupla de zagueiros, que provavelmente será composta por Sebastian Coates e Marcelo Silva, não deve comprometer.
Contudo, é do meio pra frente que o grupo uruguaio se destaca ante os demais. Na linha central do meio de campo, a ausência de Facundo Píriz, titular no Sul-Americano, mas deixado de fora do Mundial por opção de Aguirre, deve abrir espaço para a entrada de Max Calzada ou de Maurício Pereyra ao lado de Diego Rodrigues. A tarefa da dupla escolhida não será simples, uma vez que caberá a estes atletas segurar o ímpeto adversário e ainda garantir que a bola chegue com qualidade aos jogadores de ataque.
Se o propósito for cumprido de forma adequada, o quarteto ofensivo, formado por dois meias abertos e dois atacantes ou três meias e um atacante, tem tudo para decidir os jogos a favor da Celeste. É justamente nestas quatro posições que o Uruguai conta com mais qualidade e um grande número de opções em seu elenco. Para os flancos, Aguirre tem os habilidosos Lodeiro, do Nacional, Viudez, dispensado recentemente do Milan, e o versátil Urreteviscaya, do Benfica. Já para o ataque o comandante uruguaio terá à disposição, além de Urreta, que pode jogar ali também, os goleadores Santiago Garcia, também do Nacional, Abel Hernández, do Palermo, e Jonathan Charquero, do Wanderers. A exemplo do Sul-Americano deste ano, a Celeste deverá ter um rodiízio nestas funções, mas, qualquer que seja a escolha, dificilmente o atleta que entrar prejudicará a qualidade e o potencial ofensivo do time.
Curtas
- ELE PROMETE IR À CAÇA...
Jonathan Urretaviscaya Apesar da grande concorrência, o atacante Urretaviscaya, do Benfica, deve ser o homem gol do Uruguai no Mundial. Depois de três gols no Sul-Americano e boas aparições nos amistosos realizados no Brasil e no Paraguai, Urreta, que pode atuar tanto no ataque quanto pelos lados do meio de campo, chega ao Egito em ótimas condições. O que pode pesar contra uma melhor participação no torneio é o fato de o atleta estar sendo pouco aproveitado nas Águias, devido a grande concorrência com Ramires, Di Maria, Saviola, Keirrison e Cardozo por uma vaga.
- NÃO DEVERÁ PASSAR DE UMA MIRAGEM...
Abel Hernández Os cinco gols que fizeram de Hernández, um dos artilheiros do Sul-Americano 2009, por si só colocariam o atacante do Palermo em condições de ser um dos grandes atletas do Mundial. No entanto, a falta de oportunidades no clube italiano e uma contusão que o afastou dos campos por algum tempo, e que lhe impediu de participar da "pré-temporada" Celeste, prejudicaram a sua chegada ao Egito. Hernández pode até vir a ser novamente a principal força ofensiva dos uruguaios, mas a concorrência e a falta de ritmo de jogo devem fazer com que tenha apenas um papel discreto na campanha.
- O PROFETA...
Nicolás Lodeiro Além da habilidade e poder de decisão, Lodeiro também é a liderança dos uruguaios dentro de campo. Capitão da equipe nos últimos jogos, o meia se aproveitará de sua experiência na disputa do Sul-Americano, em que foi um dos maiores destaques do time, e na equipe profissional do Nacional para conduzir a Celeste rumo aos seus objetivos. Seu entrosamento com Calzada, Pereyra, Goates e Garcia, todos do Nacional, deve ajudar nessa tarefa e seu estilo de jogo mais cadenciado é ideal para liderar e orquestrar a equipe dentro das quatro linhas.
- O FARAÓ...
Tabaré Viudez Difícil apontar um destaque em uma equipe que tem um conjunto tão bom e talentos individuais em grande quantidade. Contudo, Viudez é o jogador uruguaio a ser temido pelos adversários. Sua habilidade com a bola, descidas incisivas pelos lados do campo e versatilidade para também atuar como um segundo atacante, o configuram como peça-chave nas ambições Celestes. Além disso, a experiência obtida nas seleções de base e, de forma bastante breve, no Milan, certamente lhe ajudarão a ter o equilíbrio necessário para capitanear a equipe na busca pelo título.
Elenco
GOLEIROS
Nicola Pérez (Nacional) - 05/02/1990
Martín Rodríguez (Wanderers) - 20/09/1989
Martín Campaña (Cerro Largo) - 29/05/1989
DEFENSORES
Robert Herrera (Defensor) - 01/03/1989
Marcelo Silva (Danubio) - 21/03/1989
Adrián Gunino (Boca Juniors) - 03/02/1989
Leandro Cabrera (Atlético Madrid) - 17/06/1991
Matías Aguirregaray (Peñarol) - 01/04/1989
Rodrigo Mieres (Defensor) 23/04/1989
Sebastián Coates (Nacional) 07/10/1990
MEIOCAMPISTAS
Diego Rodríguez (Huracán) - 04/09/1989
Tabaré Viudez (Defensor) - 08/09/1989
Maximiliano Calzada (Nacional) - 21/04/1990
Gastón Ramírez (Peñarol) - 02/12/1990
Nicolás Lodeiro (Nacional) - 21/03/1989
Maurício Pereyra (Nacional ) - 15/03/1990
Matías Mirabaje (Racing Club) - 06/03/1989
ATACANTES
Jonathan Charquero (Wanderers) - 21/02/1989
Abel Hernández (Palermo) - 08/08/1990
Jonathan Urretaviscaya (Benfica) - 19/03/1990
Santiago García (Nacional) - 14/07/1990
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