Equipe Olheiros.net - 24/09/2009
A invasão de jogadores estrangeiros preocupa o desenvolvimento do futebol inglês. Por mais que estrelas internacionais acrescentem em conceito, elas também reduzem o espaço para a oferta local de jovens talentos. De olho nisso, a Premier League anunciou uma medida que provocou furor e já será válida a partir de 2010/11.
>>> Cota para a base aumenta espaço de promessas na Premier League
>>> Mundial Sub-20 começa hoje. Fique por dentro
Cada um dos clubes da elite inglesa precisará ter oito dos 25 atletas de seu elenco formados em casa. Isso significa: que tenham atuado com a equipe por três temporadas antes dos 21 anos. Com esse tipo de medida, jogadores como Fran Mérida ou Fàbregas, espanhóis do Arsenal, seriam considerados crias dos Gunners. Mas será que são mesmo?
Naturalmente, o sistema indicado pela Premier League tem suas excentricidades. Por exemplo, deve acelerar a busca dos grandes ingleses por adolescentes de grande potencial. Além disso, provocar a saída de jogadores pouco úteis e que não preenchem as exigências da nova regra.
Atento ao tema, o Olheiros convocou dois especialistas em futebol inglês: Rogério Andrade e Rodrigo Bueno. O resultado você confere nas linhas abaixo. Tire as próprias conclusões. (Dassler Marques)
Sim, o sistema irá melhorar o surgimento de talentos ingleses, por Rogério Andrade, do blog Thank God for Football, do IG
A incapacidade de revelar novos talentos é um mal que assola o país dos inventores do futebol. Um remédio prescrito pela Premier League aos seus afiliados foi a medida que impõe uma cota de oito jogadores formados nas categorias de base da Inglaterra e País de Gales e um limite de 25 jogadores inscritos por equipe.
Com a avalanche de dinheiro estrangeiro que tem desabado sobre a Premiership nos últimos anos, ficou mais fácil montar um time inteiro escolhendo jogadores de qualquer parte do mundo. Em consequência disso, os jogadores jovens ingleses têm sido jogados para escanteio. Quem já sofre com isso é o técnico da seleção inglesa, Fabio Capello, que na hora de fazer sua convocação tem suas opções bastante limitadas. A situação tende a piorar se algo não for feito.
A medida anunciada pela Premier League é muito parecida com uma regra já vigente nas competições da Uefa. Entre os 25 jogadores inscritos para Liga dos Campeões ou Liga Europa, oito precisam ter sido formados “localmente”. A lei da Uefa é ainda mais rigorosa que a inglesa. Dentre esses oito, quatro precisam ter saído do próprio clube - os outros quatro podem ter vindo de outras academias do país.
Obviamente, esse único remédio não garantirá a cura do problema, mas é um passo importante. A intenção principal é mudar o foco do dirigente inglês e fazer com que ele passe a valorizar mais o produto formado dentro das fronteiras do país.
Com a medida, os clubes tendem a investir mais em suas bases, não só para terem jogadores que preencham sua própria cota mínima, mas também para formar jogadores que terão alto valor no mercado interno, já que a regra permite que um atleta troque de clube. Ainda que a procura por adolescentes estrangeiros continue ocorrendo - a nova regra não especifica que o atleta tenha que ser inglês –, a perspectiva do atleta nacional de chegar ao time de cima aumenta muito.
O Arsenal, por exemplo, tem hoje em sua equipe principal 29 jogadores. Desses, apenas quatro preenchem os requisitos da nova regra de jogadores formados em casa. No Chelsea, a situação é um pouco melhor. De 27, sete foram formados na Inglaterra. Com um limite de 25 jogadores inscritos, esses oito atletas passam a ser muito importantes, pois vão representar quase um terço do elenco.
Um aspecto louvável dessa medida é a auto-regulamentação da Premier League. A iniciativa partiu da própria liga dos clubes ingleses, sem intervenção do Estado ou mesmo da Federação Inglesa. Mesmo que alguns clubes encontrem dificuldades em se adaptar à nova regra, todos os vinte clubes da primeira divisão inglesa souberam compreender a importância da medida e a aprovaram por unanimidade.
Não, o sistema não irá melhorar o surgimento de talentos ingleses, por Rodrigo Bueno, colunista da Folha de São Paulo e comentarista da Espn Brasil
A temporada 2010/2011 era para ter só cinco jogadores estrangeiros atuando em cada time no máximo. Pelo menos esse era o plano inicial da Fifa com a regra 6+5, que ainda pode mudar radicalmente o futebol europeu em alguns anos. Diante dessa “sombra” assustadora, a decisão da liga inglesa de permitir “apenas” 17 estrangeiros nos clubes parece brincadeira de criança.
A grosso modo, nada vai mudar para as potências do país e a ajuda aos poucos clubes que fazem bom trabalho de divisão de base na Inglaterra não será lá grande coisa. O Arsenal, rei da importação de atletas na Premier League, terá que “nacionalizar” seu elenco de forma bem suave (é dos raros times do planeta com mais de 20 estrangeiros) e não acredito que a mudança irá desenvolver sua base.
Pode pegar jogadores jovens do West Ham, celeiro histórico de bons jogadores, ou pinçar Walcotts dos Southamptons da vida (Arsène Wenger, como os demais técnicos estrangeiros na Inglaterra, acham a formação no país algo sofrível). O Manchester United, que faz fama como co-organizador do “Mundial infantil”, continuará poderoso e seguirá aliciando garotos (e seus parentes) mundo afora, conseguindo fórmulas de burlar essa “barreira”, que, de tão transponível, claro que foi aceita pelos times.
Em 20 anos, o número de “forasteiros” (não-britânicos) na liga inglesa aumentou em 682,3%. Pegando os 20 times da atual primeira divisão, passamos de 34 estrangeiros na temporada 1989/1990 para 266 agora. O caso Bosman e a União Europeia atuaram sim a favor dos jogadores, que têm total liberdade para desenvolver sua profissão onde desejarem, mas também serviram aos mais ricos clubes, que se ancoram na legislação trabalhista no velho continente para não ter que engolir o 6+5 goela abaixo.
Com o cenário que vigora hoje, houve uma queda de 41,3% no número de atletas britânicos na elite do futebol inglês em duas décadas (uma comparação do Liverpool que jogou o Mundial de 2005 com os elencos dos Reds que foram ao Japão nos anos 80 dá o exato tom dessa transformação). O conservadorismo de outrora e os obstáculos das leis britânicas há muito tempo já foram vencidos. A definição de “estrangeiro” mesmo virou do avesso, e até a de quem forma o atleta (um jovem Fábio ou Rafael que treinar em um time britânico por três anos já será considerado jogador formado no Reino Unido).
Nesse novo mundo de hoje, ninguém tem mais orgulho de sua liga nacional do que os ingleses. E nesse sentido não vejo essa “inovação” nas regras da Premier League como uma grande vitória do futebol de base da Inglaterra. Até porque não tem inovação nenhuma se nós compararmos com o que acontece em outros países europeus.
Na sua campanha em defesa da formação de talentos, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, elogiou, por exemplo, a Escócia, que implementou já faz um bom tempo um sistema de cota para jogadores sub-21. Países do leste europeu que também turbinaram bastante suas ligas com estrangeiros nos últimos anos, como Rússia e Ucrânia, também viraram bons exemplos nesse sentido. A Sérvia então praticamente decidiu começar com o 6+5 por conta própria na temporada 2010/2011 (na temporada seguinte, será um 7+4, e, na segunda divisão, pintará um 9+2, sem falar que nas divisões de base não poderá haver estrangeiros).
Diante de tudo isso, esse limite de “gringos” e o estímulo às categorias de base na Inglaterra me lembram o desarmamento nuclear das superpotências. São muito legais os acordos de EUA e Rússia para a redução de seus arsenais, o mundo todo aplaude, mas no fundo eles estão apenas diminuindo a capacidade que têm de destruir o planeta em 10%.
Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008
Triares