Gustavo Vargas - 23/12/2007
Péssimo nos bastidores e apenas mediano dentro de campo. Uma definição perfeita para a segunda edição do Campeonato Brasileiro Sub-20 (que, vide regulamento, na verdade é sub-19), encerrada no último dia 18 com o título do Cruzeiro. A competição teve um nível bastante inferior ao do ano passado, quando o prodígio Alexandre Pato brilhou nos gramados gaúchos. Culpa, principalmente, dos inúmeros contratempos cometidos antes mesmo da bola rolar, novamente no Rio Grande do Sul.
Pouco divulgado, organizado de forma atropelada – as sedes foram definidas dois dias antes do início dos jogos – e realizado em data imprópria (final de temporada e a poucos dias da Copa São Paulo), o torneio apresentou diversas equipes remendadas e desfalcadas. O Santos, por exemplo, mandou seu time juvenil, já que os juniores ainda estavam disputando o Paulistão da categoria. O Atlético-MG, visando preparação para a Copinha, optou por segurar alguns de seus valores em Belo Horizonte. Isso sem falar nas desistências de América-RN e Vasco...
A Federação Gaúcha de Futebol armou todo o terreno para que Grêmio e Internacional se encontrassem na final, como ocorrera em 2006. No entanto, a entidade não contava com o intruso Cruzeiro, que, após eliminar o tricolor gaúcho, superou os colorados na decisão, realizada no Passo d’Areia. O estádio do São José, aliás, recebeu grande público na partida derradeira. Caso tivéssemos Gre-Nal, certamente haveria superlotação e brigas entre as torcidas, o que só não ocorreu nas semifinais, em Alvorada, por sorte e competência da Brigada Militar.
Mas o que interessa para o Olheiros é o que rola dentro das quatro linhas. E, embora o campeonato não tenha sido a “oitava maravilha do mundo”, coisas muito boas puderam ser vistas. Como não valorizar os desempenhos do artilheiro paranista Jefferson e do garoto Tales, do Internacional? E o que falar dos valiosíssimos volantes Rafael Carioca e Bernardo, possível dupla da seleção brasileira sub-20 em 2009? A partir de agora, este especial destaca isso e muito mais!
Primeira fase: ausência de zebras
A competição teve início em 03 de dezembro com a partida Fluminense 1 x 0 Corinthians. Após 33 confrontos e nove dias de disputa em três chaves de cinco clubes cada e uma de quatro, oito equipes obtiveram classificação para a segunda fase. Analisando uma a uma, é possível afirmar que não aconteceram grandes injustiças ou zebras na classificação final dos grupos.
Na Chave 1 (Passo d’Areia, Porto Alegre), domínio total do Internacional, líder com quatro vitórias em quatro jogos. Segundo colocado, o Flamengo foi o outro time classificado. Náutico – que precisava vencer o rubro-negro na última rodada, mas apenas empatou –, Paulista e o decepcionante Palmeiras, que levou ao RS uma equipe bastante jovem, foram eliminados.
Melhor time da Chave 2 (PUC, Porto Alegre), o Grêmio contabilizou resultados expressivos contra o Goiás (3 x 0), quarto colocado, e o vice-líder Paraná (4 x 1). Mesmo com valores interessantes, o Fluminense ficou apenas em terceiro, enquanto o Corinthians – sem a base sub-17 que deve disputar a Copa São Paulo em janeiro – foi o saco de pancadas com quatro derrotas e nenhum ponto ganho.
Com uma equipe a menos que as demais, a Chave 3 (Morada dos Quero-Queros, Alvorada) foi dominada pelo Cruzeiro, que obteve 100% de aproveitamento. O Atlético-PR também conseguiu a classificação para o mata-mata. Já o Santo André – que substituiu o América-RN – e o pífio Figueirense, de três derrotas e nenhum mísero gol marcado, ficaram pelo caminho.
Por fim, a Chave 4 (Centenário, Caxias do Sul) apresentou Atlético-MG, líder com 10 pontos, e Coritiba como os melhores times. O Juventude encerrou sua participação na terceira colocação, enquanto Santos – com seus supracitados garotos sub-17 – e Botafogo, que mais uma vez fez jus à fama de clube inexpressivo na base, completando a trinca de desclassificados.
Mata-mata: muitos gols e boa presença de público
A fase final do campeonato foi inaugurada com uma rodada dupla no dia 13, na PUC. O Paraná, através de um tento do centroavante Jefferson, superou o Atlético-MG pelo placar mínimo na partida inaugural. No duelo de fundo, o Grêmio contou com o apoio de sua fanática torcida para bater o Coritiba por 2 x 1, gols de Wagner e Rafael Martins (Leandro descontou).
No dia seguinte, mais dois jogos. Após sofrer um gol do atacante Paulo Sérgio, o Cruzeiro virou para cima do Flamengo com Vinícius, de pênalti, e Wallace, em cobrança de falta. Complementando as quartas-de-final, o Passo d’Areia viu o Internacional derrotar o Atlético-PR por 3 x 1. O zagueiro Pessanha, com um gol a favor e outro contra, foi personagem da noite.
Alvorada recebeu as semifinais dois dias depois. No primeiro confronto, goleada do Inter sobre o Paraná: 6 x 2, com direito à atuação de gala de Tales. O jovem meia foi o melhor em campo e deixou sua marca em duas oportunidades, a exemplo do centroavante Guto. Taison e Walter completaram o marcador, enquanto Jefferson e Giuliano amenizaram o massacre colorado.
Na outra peleja, marcada por um intenso e truncado embate no meio-campo, Grêmio e Cruzeiro empataram sem gols. Nos pênaltis, brilhou a estrela de Rafael. O goleiro cruzeirense – que brilhara na final da última Copinha ao defender a cobrança do são-paulino Bruno César – pegou o chute de Isael e colocou a equipe mineira na final, que aconteceria na terça-feira, 18.
Internacional 0 x 1 Cruzeiro: a vitória da consistência
Empolgada não apenas com o possível bicampeonato, mas também com a derrota do Grêmio, nos pênaltis, para o Paraná na decisão do terceiro lugar, a torcida colorada ignorou a chuva e praticamente lotou o estádio Passo d’Areia. Somado a isso, os irrepreensíveis 100% de aproveitamento ao longo do torneio credenciavam o time comandado pelo técnico Osmar Loss como favorito. A festa estava armada. Entretanto, esqueceram de uma coisa: avisar o Cruzeiro.
Com a conquista da Copa São Paulo e o vice da Copa BH na bagagem, os mineiros seguraram o ímpeto do Inter e, demonstrando louvável consistência e coesão tática, chegaram à vitória com um gol do atacante reserva Joabe, em cobrança de pênalti. Sem Taison, e prejudicado pela apatia de Tales e Guto (anulados pelo sistema de contenção armado por Enderson Moreira), a equipe gaúcha não teve forças para reagir. Final de jogo e mais um título cruzeirense!
Raio X
Após acompanhar a fase de grupos pela telinha da televisão, o Olheiros esteve em Porto Alegre e Alvorada durante a fase final – a coluna "Ficha Amarela" da semana passada falou sobre os percalços e dificuldades da cobertura –, onde assistiu a todas as partidas do mata-mata. Vejamos, time a time, uma análise do que pôde ser visto, bem como uma breve projeção para a Copinha.
Cruzeiro: um justo campeão
Uma equipe muito bem treinada e soberba taticamente. Esse foi o Cruzeiro do técnico Enderson Moreira. Contando com cinco titulares remanescentes da Copa São Paulo (Rafael, Maicon, Wellington, Carlos Magno e Luís Fernando), mas sem nomes do quilate de Aldo, Paulinho Dias, Guilherme – todos no profissional – e Anderson, o técnico encaixotou os adversários com um consistente 4-1-2-1-2, que tinha o zagueiro Maicon na função de cabeça-de-área.
A juventude dos volantes Zé Eduardo (nascido em 1991) e Bernardo (que, mesmo vindo do banco, teve grande contribuição para o título), a liderança do zagueiro Wellington e a impetuosidade do atacante Marcinho foram outros aspectos interessantes do time. Os dois primeiros, juntamente com o lateral-direito Marcos e o também volante Carlos Magno, além dos reservas Wallace e Joabe (ambos 90), serão as referências cruzeirenses na briga pelo bi da Copinha.
Internacional: vice reconhecido
Campeão em 2006, o Internacional por pouco não repetiu a façanha. A campanha colorada foi brilhante e repleta de boas atuações, fato comprovado pelos aplausos da torcida mesmo com a derrota para o Cruzeiro. Destaque para as goleadas sobre Palmeiras e Paraná. Peças não muito badaladas, como o goleiro Agenor e o volante Sandro – que têm idade para a Copa São Paulo –, foram ótimas surpresas. Sem falar nos importantes coadjuvantes Taison e Walter...
Enquanto o centroavante Guto foi o vice-artilheiro do campeonato com seis gols, Tales comandou a equipe dentro de campo. Cada vez mais maduro, o meia mostrou qualidades para, quem sabe, ser aproveitado no profissional em um médio prazo. Sua atuação contra o tricolor paranaense na semifinal foi simplesmente estupenda. Porém, o guri ainda precisa evoluir fisicamente, o que ficou bastante nítido em alguns jogos, principalmente na fatídica decisão.
Paraná: pérolas para o futuro
Terceiro colocado, o Paraná ficou marcado por ser um time que jogou, mas deixou jogar. Ao todo, foram 16 gols marcados e 15 sofridos, números que denotam a disparidade entre defesa e ataque. Muitos dos garotos comandados pelo técnico Zé Carlos já fizeram (e indubitavelmente devem continuar fazendo em 2008) parte do grupo principal, casos de Jefferson – melhor atacante e artilheiro da competição com sete gols –, dos meias Giuliano e Everton, e do lateral Araújo.
Polivalente, Araújo atuou tanto na direita quanto na esquerda, e até gol marcou. Capitão e referência, Giuliano comprovou o potencial demonstrado no último Mundial Sub-17. Everton causou impacto com sua velocidade. Nascidos em 89, o zagueiro Douglas e o lateral-esquerdo Wellington – que pode ser utilizado como volante – também deixaram boa impressão. Esses jovens têm tudo para ser a salvação do clube, rebaixado recentemente para a Série B do Brasileirão.
Grêmio: pênaltis foram obstáculos
Sem histórico de grandes conquistas sub-20 em nível nacional, o Grêmio mais uma vez ficou pelo meio do caminho. Após uma excelente primeira fase, a equipe parou duas vezes nos pênaltis e acabou apenas na quarta colocação. Mesmo assim, alguns valores demonstraram ótimos atributos, como o zagueiro Wagner e o volante Rafael Carioca. Ambos disputarão a Copinha, mas possuem totais condições de subir para o profissional logo em seguida.
Apesar de ter sumido nas últimas duas partidas, o meia-esquerda Itaqui foi outro que teve bom desempenho, finalizando o certame com três gols e várias assistências. Por outro lado, Jhonatan decepcionou. Atleta da seleção sub-18, o canhotinho nem de longe lembrou o letal atacante que brocou na Copa Santiago de Futebol Juvenil, disputada no início do ano. Tido como principal jogador da equipe, o lateral-direito Felipe Mattioni sofreu com lesões e esteve discreto.
Atlético-MG: faltaram peças
Na ausência de atletas como Lázaro, Chiquinho e Renan Vieira – os três, juntamente com boa parte do grupo campeão mineiro júnior, ficaram em Belo Horizonte se preparando para a Copa São Paulo –, o Atlético-MG sucumbiu diante do Paraná após uma primeira fase tranqüila e invicta. O zagueiro Leandro Falcão e o meia Jéferson (ambos 89), a exemplo do atacante Adinan, foram algumas das expressões de um time que não contou com um grande valor individual.
Coritiba: na trilha de Keirrison
Eliminado no detalhe pelo Grêmio nas quartas, o Coritiba apresentou um contingente interessante de garotos aptos a participar da Copinha e tentar repetir o efeito Keirrison ‘06. Destaque para o zagueiro Leandro (outro da seleção sub-18), o meia (e eventualmente ala) Ruy e o atacante Joubert (autor de dois gols), referências da equipe ao lado de Renatinho e do volante goleador Dirceu, homônimo de Dirceu Krüger – o “Flecha Loira” –, ídolo do clube na década de 70.
Atlético-PR: juventude e planejamento
Com um time jovem, formado apenas por jogadores nascidos em 89 e 90, o Atlético-PR entrou no Brasileiro Sub-20 visando, prioritariamente, “esquentar as turbinas” e aprimorar o entrosamento para a Copa São Paulo. Os meio-campistas Renan, Douglas Maia e Eduardo Salles, que estiveram em campo na eliminação para o São Paulo em janeiro passado, corresponderam de forma positiva e foram os condutores rubro-negros dentro das quatro linhas.
Flamengo: desfalques na hora errada
Um doloroso gol cruzeirense aos 48 minutos do segundo tempo fez o Flamengo dar adeus ao campeonato de forma precoce (quartas-de-final). Dependente do indisciplinado atacante Kayke e, principalmente, do talentoso meio-campista Erick Flores, a equipe treinada pelo ex-meia-direita Adílio não contou com ambos na ocasião, o que acabou sendo fatal. Nenhum deles estará na Copinha: em razão do elevado desgaste ao longo do ano, o clube surpreendentemente optou por liberar da competição quem participou do Brasileiro.
Os eliminados: Corinthians e companhia
De todos os eliminados na primeira fase, a principal decepção foi certamente o fraquíssimo escrete corinthiano. O Palmeiras, dono da pior campanha se considerarmos o saldo de gols, também fez feio, a exemplo do Figueirense e dos tradicionais Santos e Botafogo. Em contrapartida, Fluminense e Náutico apresentaram bons valores, entre eles Sandro e Alan (cariocas), além de Reynaldo e Jhon (pernambucanos). O volante Devas, do Paulista, merece lembrança.
A seleção
Agenor (Internacional); Araújo (Paraná), Wagner (Grêmio), Wellington (Cruzeiro), Itaqui (Grêmio); Sandro (Internacional), Rafael Carioca (Grêmio); Giuliano (Paraná), Tales (Internacional); Walter (Internacional), Jefferson (Paraná). Essa foi a seleção do certame de acordo com o Olheiros. Muita gente boa ficou de fora, o que é normal em escolhas desse tipo. Na ausência de um grande nome para a lateral-esquerda, o gremista Itaqui foi improvisado no setor.
A equipe também poderia ter: Rafael (Cruzeiro); Davidson (Flamengo), Cléberson (Cruzeiro), Titi (Internacional), Ramón (Internacional); Renan (Atlético-PR), Bernardo (Cruzeiro); Erick Flores (Flamengo), Everton (Paraná); Marcinho (Cruzeiro), Guto (Internacional). Destaques de um campeonato mediano. Destaques de um campeonato que acontecerá novamente em 2008. Fica a torcida para que ele seja, no mínimo, melhor planejado. Ah, e melhor divulgado!
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