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O berço das eternas promessas

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Dassler Marques - 07/10/2009

Um dos principais motivos para se acompanhar o dia a dia das divisões de base é a possibilidade de conhecer os futuros craques do futebol. Dentro da categoria sub-17, entretanto, se tem também a perspectiva sempre clara de que serão conhecidas as próximas eternas promessas, como Cacá, Léo Lima, Kerlon e Lulinha, se atendo a alguns exemplos brasileiros.

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Considerada hoje a mais importante no universo da base, em detrimento à decadência do sub-20 por diversos fatores, a categoria sub-17 produz os chamados foguetes molhados na mesma proporção que aponta prodígios, casos de Fabregas e Anderson, destaques dos Mundiais 2005 e 2007.

O alto índice de jogadores que não se firmam em um momento seguinte é em decorrência de alguns fatores peculiares, que serão esmiuçados pelo Olheiros nas linhas abaixo. Confira:

Os “ruídos” na transição base-profissional

Não há um jogador de categoria de base que não durma sonhando com a promoção aos profissionais. É nesse momento que o jovem passa a receber uma boa quantia, ter reconhecimento maior, atuar para públicos maiores e, naturalmente, assegura um contrato que dê perspectivas seguras para seu futuro. O Mundial é o grande elemento propulsor de tudo isso.

Nem sempre essa transição da base para o profissional, dentro de um clube, se dá da melhor forma possível. É o que passou Lulinha no Corinthians em 2007, é o que enfrenta Maicon no Fluminense deste ano, ambos integrantes da seleção sub-17 há dois anos. O futuro depende muito das condições que os jovens encontram no time de cima e é assim que muitos acabam ficando pelo caminho.

Recentemente, Bruno Bertucci, que já é mais velho e está no sub-20, teve suas primeiras oportunidades no mesmo Corinthians de Dentinho, graças à saída do titular André Santos. Bertucci, jogador de algumas virtudes e defeitos, saiu chamuscado pelas más atuações com o remendado time de Mano Menezes após os títulos do primeiro semestre. Se a mesma chance tivesse chegado dois meses, dificilmente a resposta de Bruno teria sido negativa.

Com times bem encorpados, fica mais fácil de o garoto se sobressair no momento da chegada ao profissional. Foi por exemplo o que ocorreu com Fabregas no Arsenal em 2005. O espanhol, melhor jogador do Mundial de dois anos antes, chegou num timaço pronto e já era preparado a ocupar o lugar do então destaque Patrick Vieira. Talentoso, maduro e inteligente, bastou para Cesc fazer a sua parte para brilhar, na campanha que levou o Arsenal a um histórico vice campeonato europeu.

A transição ainda mais comum tem sido do juvenil direto aos profissionais, eliminando os juniores do caminho para os que são considerados diferentes no sub-17. Esse empurrão prematuro prejudica a última etapa da formação, seja ela técnica, física ou principalmente mental, como veremos abaixo.

O implacável açodamento

Não há fã de futebol que não se derreta ao ver um grande jovem jogador em ação e não há clube que não esfregue as mãos quando se tem um deles em suas divisões de base. O problema é a expectativa gerada quando essa situação acontece – e principalmente porque ela quase nunca é bem controlada.

Nesse caso, o santista Neymar e o vascaíno Coutinho, nomes mais badalados do Brasil que disputa o próximo Mundial Sub-17, talvez sejam os exemplos mais claros. Ambos já foram jogados aos leões com 16 anos, idade em que apenas fenômenos como Pelé e Ronaldo conseguiram se sobressair. A possibilidade de um desempenho irregular é enorme, dadas as diferenças que se encontram quando o confronto é com jogadores de até o dobro de idade ou mais.

 A questão é que esse tipo de oscilação raramente é bem trabalhada na cabeça do garoto. O clube, por sua vez, quer uma resposta rápida e é criado um efeito bola de neve, como aconteceu no Internacional com Fábio Pinto, destaque do Mundial Sub-17 de 1997, por exemplo. Com um início ruim, a recuperação já nos profissionais passa a ser um grande desafio, especialmente na medida em que as oportunidades de atuar ficam cada vez menores.

Uma incidência importante com jogadores que brilharam em Mundiais Sub-17, ou mesmo em outras competições da mesma categoria, é a de problemas disciplinares. Não são poucos os que se tornam adultos problemáticos, seja indolentes ou autosuficientes, como Léo Lima e Carlos Alberto, que se encontraram já mais velhos com o Vasco neste início do ano. Não é fácil conviver com a fama já muito cedo e os “craques de juvenil” se tornam vítimas prioritárias desse mal.

Os maiores foguetes

Desde o primeiro Mundial Sub-17, sediado na China há 24 anos, o despontar de eternas promessas se dá em escalas industriais. William, meia canhoto ex-Vasco e Flamengo, foi eleito o melhor jogador da competição em sua estreia no quadro da Fifa, mas sempre foi frágil fisicamente e inconstante.

Você já ouviu falar do nigeriano Philip Osundu, do marfinense Moussa Traoré ou do escocês James Will? Ou ainda conhece Nii Lamptey e Daniel Addo, ambos ganeses?  De 1987 a 1993, eles foram os bolas de ouro do Mundial Sub-17. Lamptey, inclusive, foi apontado por Pelé, em 91, como seu sucessor no futebol. É mole?

Em 1995, Mohamed Kathiri, de Omã, foi o principal jogador do Mundial Sub-17 jogado no Equador, em que seu país foi quarto lugar. Kathiri foi tão sensação que acabou eleito ainda o melhor jogador asiático do ano, mas jamais se livrou do rótulo de promessa. Menos mal é que o vice campeão Brasil tinha um time fortíssimo, com destaques como Juan e Júlio Cesar, hoje titulares absolutos da seleção principal, além de Fábio Aurélio. O grande foguete da geração foi o meia Kléber, ex-Vitória, acompanhado ainda do atacante Marco Antônio, ex-São Paulo. A Argentina, bronze, nos brindou com Cambiasso e Aimar, e campeã Gana mostrou Appiah.

No Mundial seguinte, a Espanha caiu nas quartas, mas teve os foguetaços Sergio Santamaría e David Rodríguez como bola de ouro e artilheiro, respectivamente. Igualmente decepcionante foi o destaque brasileiro, o colorado Fábio Pinto. Demorou um bom tempo, mas Seydou Keita, de Mali, se firmou e virou o grande expoente dos destaques que foram àquela ocasião ao Egito.

A grande revelação do Mundial de 1999 seria o bola de ouro Landon Donovan, terceiro lugar com os Estados Unidos e destaque técnico da Copa do Mundo três anos seguintes. O Brasil campeão com Eduardo Costa tinha talentos que foram “comidos pela marra”, casos dos meias Cacá e Léo Lima, além do atacante Souza, hoje no Corinthians.

O Mundial de 2001 talvez seja o grande berço dos foguetes molhados em toda a história. A França, campeã e sensação, apresentou a dupla Sinama-Pongolle e Anthony Le Tallec, comprada pelo Liverpool na sequência, mas até hoje de triste fim. A Argentina, que tinha Mascherano e Tevez, mostrou ainda nomes como Hugo Colace, Maxi López e Rubens Sambueza, todos com passagens pelo futebol brasileiro. A Espanha apresentou Iniesta, Fernando Torres e pelo menos mais 10 tiros n’água. Os craques do Brasil eram Caetano e Bruno Moraes...

Os últimos três Mundiais tiveram bolas de ouro que, de certa forma, vão se firmando internacionalmente. Fabregas, Anderson e Kroos vão dando boa sequências às suas carreiras, mas, além do ex-atleticano Ramon e do ex-cruzeirense Kerlon, a maior decepção no período é certamente a geração mexicana. Em especial o meia-atacante Giovani dos Santos, que pouco tempo depois do título mundial em 2005, como protagonista, tenta a sorte na segunda divisão inglesa depois de ser descartado pelo Barcelona.

A Nigéria, atual campeã da categoria, viu o naufrágio de sua geração em pouco tempo. É verdade que há tempo para recuperação, mas nenhum jogador se firmou e alguns deles, inclusive, acabam de fracassar no Mundial Sub-20 disputado no Egito.



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