Maurício Vargas - 11/10/2009
Melhorar só um pouco a campanha de dois anos atrás. Este é o objetivo da Alemanha, terceira colocada no último Mundial Sub-17 e campeã europeia da categoria. Liderada por Kroos, Sukuta-Pasu e Bigalke, a equipe de Heiko Herrlich encerrou um hiato de 22 anos desde a última boa atuação alemã neste nível: o vice-campeonato na China em 1985, na primeira edição realizada. Agora, com um time de qualidade técnica semelhante, Marco Pezzaiuoli espera levar o país novamente ao pódio – mas no degrau mais alto.
>>> Veja a entrevista com Wallace, lateral direito que disputará o Sul-Americano Sub-15
>>> Confira a apresentação da seleção nigeriana sub-17
O juvenil nunca provou-se uma divisão muito forte na terra do chucrute. O título europeu em maio foi apenas o terceiro da história e, afora a primeira e última campanhas, as outras jornadas por Mundiais Sub-17 foram bastante modestas: eliminação nas quartas em 1991 e na primeira fase em 1995 e 1999. A exceção foi 97, quando um time que tinha Weidenfeller, Kehl e Deisler acabou em quarto lugar. Da mesma forma como os desempenhos variaram, bons nomes apareceram neste estágio precoce, como Fabian Ernst (95) e Thomas Hitzlsperger (99), ao mesmo tempo em que Marcel Witeczek, artilheiro do primeiro Mundial, nunca correspondeu às expectativas.
Expectativas que, assim como aconteceram com a equipe que disputou o Sub-20 no Egito, são grandes sobre esta geração. Com uma vantagem: aqui, não existe pressão dos clubes pela dispensa dos atletas e é com força máxima que os alemães pisam no gramado de Abuja no dia 24, para a abertura diante da Nigéria. E é exatamente aí que mora o perigo: nas outras duas boas campanhas, foram os nigerianos os estraga-prazeres, terminando como campeões na China e vencedores na semifinal da Coreia do Sul. Passar pelos algozes de outrora e pelo dificílimo grupo será, então, uma grande prova da capacidade e tenacidade deste grupo.
Questão de honra
Não é segredo o quanto o trabalho de base foi modificado na DFB desde 1996, último grande momento da seleção alemã adulta. A reformulação adotada por Matthias Sammer tem mostrado resultado com a conquista, pela primeira vez na história, dos três títulos europeus de base por um mesmo país na mesma temporada. Uma vez reconquistada a hegemonia continental, é o próximo passo do plano a primeira vitória em um mundial. Para avaliar o grau de importância dado à competição, basta dizer que ninguém se preparou mais que a Alemanha.
O Europeu foi o último dos qualificatórios a terminar, apenas no final de maio. Isso poderia ser prejudicial, afinal quanto mais cedo a classificação viesse, mais tempo haveria para se preparar. Entretanto, o fato de ter sido sede da fase final dispensou a Alemanha das etapas preliminares, podendo realizar períodos de treinamento e concentração enquanto as outras buscavam a vaga. E apesar de não disputar jogos oficiais no período, fez uma série de amistosos, com apenas dois tropeços: empates sem gol com Ucrânia e Bulgária.
A partir do Europeu, entretanto, foram só vitórias. Na primeira fase, 3 a 1 sobre a Turquia, acachapantes 4 a 0 sobre a Inglaterra e 2 a 0 sobre a Holanda. Aí, a participação no Mundial já estava garantida e faltava o título O 2 a 0 repetiu-se na semifinal ante a Itália e por pouco os holandeses não estragam a festa – o troféu veio apenas na prorrogação, com um 2 a 1 de virada.
Foi uma campanha perfeita, com 13 gols em cinco partidas – corroborando a vocação ofensiva das novas gerações, já que foi dos alemães o melhor ataque do último Mundial, com 20. A primeira rede balançada foi do goleiro Stegen, mas um minuto depois de os turcos abrirem o placar, Kevin Schedhauer empatou e desde então foram atuações muito convincentes, aplaudidas por um público de 24 mil pessoas na decisão, em Magdeburg. Em outras edições, este foi o público total de toda a primeira fase, tamanho é o interesse despertado por esta geração.
Tanto é verdade que nem mesmo o treinador é capaz de apontar apenas um grande nome. Marco Pezzaiuoli, apesar do nome bem italiano, é natural de Mannheim, cidade próxima a Stuttgart. Aos 40 anos, jamais jogou futebol profissionalmente, tendo trabalhado como coordenador das bases do Karlsruher no início da década.
Lá, conheceu Joachim Löw, então técnico do time principal. Após uma passagem pelo futebol coreano e algumas rápidas experiências como treinador interino pelo Karlsruher e pelo Eintracht Trier, da Regionalliga, foi convidado, sob indicação de Löw, a comandar as equipes sub-15 e sub-16 alemãs. Após o Mundial Sub-17 da Coreia do Sul, assumiu no lugar de Heiko Herrlich.
Olho em...
O discurso é típico de quando se analisa o Brasil: difícil apontar apenas um destaque neste time. Só por essa comparação já se pode ter uma idéia do quanto a geração promete. Quatro jogadores, em especial, já chamaram até a atenção do treinador da seleção principal, Joachim Löw: o lateral direito Bienvenue Basala-Mazana, do Colônia, autor de um gol nas semifinais do Europeu; o meia Christopher Butchmann, prospectado pelo Liverpool em 2008 e dono de uma canhota habilidosa, boa tanto em cruzamentos (três assistências na goleada sobre a Inglaterra) quanto em chutes ao gol (fez o da virada contra a Turquia); e Lennart Thy, atacante que marcou incríveis 23 gols em 22 jogos pelo sub-17 do Werder Bremen na temporada passada, três no Europeu e mais três numa goleada de 5 a 0 sobre a Rússia em amistoso.
O que mais impressionou Löw, entretanto, foi Mario Götze, meia do Borussia Dortmund. O camisa dez dos Junioren foi o craque do qualificatório continental, autor de obras primas como o quarto gol sobre a Inglaterra (veja aqui, a partir do sexto minuto de vídeo) e a jogada do gol de Basala-Mazana sobre a Itália, na semifinal (veja aqui). Um meia clássico, dotado de rara habilidade até para os brasileiros – quanto mais para os alemães – que chega cercado de grande expectativa.
A formação é bastante ofensiva: o 4-3-1-2 tipicamente alemão, com um losango no meio, foi adaptado para um poderoso 4-1-3-2. Não bastasse cinco jogadores de ataque, o volante e capitão Reinhold Yabo, preso na marcação, libera as subidas de Basala-Manzana ou Plattenhardt, um lateral mais limitado. Vale notar, aliás, a forte presença de naturalizados mais uma vez nas bases do país: Basala-Mazana, Labus, Yabo e Kargbo possuem ascendência africana, enquanto Yunus Malli é alemão filho de turco e Shkodran Mustafi, filho de albanês. Apesar da miscigenação, uma característica tipicamente alemã está mantida: apenas Malli tem menos de 1,80m de altura.
O ataque é pura habilidade, velocidade e força: Matthias Zimmermann pela direita, Buchtmann pela esquerda e Götze pelo meio têm a responsabilidade de alimentar Kevin Scheidhauer e Lennart Thy. Sem contar reservas quase de luxo como Abubakarr Kargbo, atacante do Herta Berlin e Manuel Janzer, meia do Stuttgart.
É, de fato, um time de respeito. Pezzaiuoli sabe disso, mas joga o favoritismo para os de sempre, como Brasil e Argentina. “Nesta idade, as coisas mudam muito rápido. Temos um grupo complicado e, se não estivermos atentos e concentrados, passamos de favoritos a eliminados na primeira fase”. E ele tem razão, afinal uma derrota na estreia e um empate com a Argentina pode minar os sonhos dessa garotada. Garotada habilidosa, entrosada e humilde. Ao menos neste nível, os alemães nunca foram tão alemães – e tão perigosos.
Curtas
- ELE PROMETE IR À CAÇA...
Lennart Thy. 23 gols em 22 partidas numa temporada falam por si só, mesmo em um sub-17. O atacante do Werder Bremen foi artilheiro da fase final do Europeu com três gols, tem posicionamento, faro de gol e presença de área que já o renderam comparações a Miroslav Klose. É, desde já, candidato a artilheiro do Mundial.
- NÃO DEVERÁ PASSAR DE UMA MIRAGEM...
Marvin Plattenhardt é o calcanhar de Aquiles do time titular: não apresenta a mesma consistência ofensiva de seu oposto Basala-Mazana e, na defesa, precisa constantemente do auxílio de Mustafi, o zagueiro pela esquerda, ou Yabo. Pode ser comparado até mesmo fisicamente com Arn Friedrich, lateral direito de cintura bem dura que deu calafrios à torcida alemã durante a Copa de 2006, enquanto Lahm brilhava do outro lado.
- O PROFETA...
Reinhold Yabo. Toda jogada começa com ele. Capitão, liderança moral, os olhos e a garganta do treinador em campo: é ele quem orienta o time, coordena as constantes trocas de posição no meio e ainda faz o serviço sujo, limpando o trilho de tudo o que não passar da marcação sobre pressão na saída de bola.
- O FARAÓ...
Mario Götze é o mais novo wunderkind, o garoto maravilha alemão. Destaque do sub-19 do Dortmund, muitos o comparam a Toni Kroos, e outros tantos o consideram melhor ainda. Chuta perfeitamente tanto com a esquerda quanto com a direita, o que lhe confere características e dribles únicos. Possui ainda explosão, chute forte e visão de jogo apuradíssima. Não há uma jogada de ataque que não passe por seus pés.
Elenco
GOLEIROS
Marc-André ter Stegen (Borussia Mönchengladbach) – 30/04/1992
Bernd Leno (VfB Stuttgart) – 04/03/1992
Jonas Ermes (Bochum) - 02/04/1992
DEFENSORES
Bienvenue Basala-Mazana (1. FC Köln) – 02/01/1992
Robert Labus (Hamburgo) – 10/10/1992
Shkodran Mustafi (Everton-ING) – 17/04/1992
Gerrit Nauber (Bayer Leverkusen) – 13/04/1992
Marvin Plattenhardt (Nuremberg) – 26/01/1992
Daniel Hofstetter (1860 München) - 04/07/1992
Christopher Avevor (Hannover) - 11/02/1992
MEIO-CAMPISTAS
Christopher Buchtmann (Liverpool-ING) – 25/04/1992
Manuel Janzer (VfB Stuttgart) – 07/03/1992
Yunus Malli (Borussia Mönchengladbach) – 24/02/1992
Kevin Volland (1860 München) - 30/07/1992
Florian Trinks (Werder Bremen) – 11/03/1992
Reinhold Yabo (1. FC Köln) – 10/02/1992
Matthias Zimmermann (Karlsruher SC) – 16/06/1992
ATACANTES
Mario Götze (Borussia Dortmund) – 03/06/1992
Abu-Bakarr Kargbo (Herta Berlim) – 21/12/1992
Kevin Scheidhauer (Wolfsburg) – 13/03/1992
Lennart Thy (Werder Bremen) – 25/02/1992
Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008
Triares