Leandro Stein - 11/10/2009
O apelido da seleção nigeriana sub-17 não é à toa. Quando os torcedores e a imprensa local chamam a equipe de “Golden Eaglets”, ou jovens águias douradas, é possível notar as expectativas positivas em torno dos garotos. Suspeitas de adulteração de idades à parte, a Nigéria é sempre um fortíssimo candidato em qualquer competição no futebol de base. E o adjetivo “dourados”, dado ao time juvenil, evidencia que, além de boas campanhas, a seleção tem um histórico de conquistas na categoria - que pretende ampliar jogando em casa.
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Maiores vencedores do Mundial sub-17 ao lado do Brasil, com três títulos, os africanos saíram campeões logo na primeira edição do torneio, em 1985. Vitória na final sobre a Alemanha Ocidental por 2 a 0. Em 1987, foram vice-campeões no Canadá, após derrota nos pênaltis para a União Soviética. O consolo veio com a Bola de Ouro, dada ao atacante Philip Osundo. Dois anos mais tarde, eliminação nas quartas, diante da Arábia Saudita.
O próximo êxito ocorreria em 1993, na competição que deu início a maior geração do futebol nigeriano. Do time que goleou a Argentina na primeira fase (4 a 0) e venceu Gana na final, saíram muitas das estrelas que conquistaram o ouro olímpico em Atlanta ’96. O lateral-esquerdo Babayaro, o atacante Kanu e Wilson Oruma, artilheiro do Mundial, eram as peças-chave da equipe. Nas próximas três campanhas (95, 01, 03), a Nigéria acumulou eliminações.
Destaque negativo para 2003, ano do pior resultado da história: o time comandado por Mikel e Obasi não passou da primeira fase. A redenção veio apenas em 2007, na Coreia do Sul. Os Golden Eaglets passaram por França, Argentina, Alemanha e Espanha e conquistaram o tricampeonato com sete vitórias. O time impressionou até mesmo por contar apenas com jogadores mais jovens que o limite de idade, já que levaram apenas atletas sub-16.
Em sua oitava participação, a Nigéria vem mais uma vez mostrar sua força no campeonato. E nunca a pressão imposta sobre os atletas por uma bela campanha foi tão grande. Além de defenderem o título, os nigerianos são os anfitriões do torneio. Mas mais do que isso, os jogadores terão que garantir a honra do país após graves problemas de organização dentro e fora de campo (veja mais detalhes no especial de Marcus Alves).
Após falhas na preparação e, com a descoberta de que 15 de seus jogadores eram “gatos”, vai ser difícil que a equipe cumpra as expectativas de título de sua torcida. Ainda mais que, já na primeira fase, as águias enfrentam Alemanha e Argentina logo de cara. A classificação é palpável, contudo, os africanos terão que superar obstáculos e fazer valer sua tradição para conseguir bons resultados nas etapas seguintes.
Mau presságio
Com a conquista do título em 2007, parecia que tudo se encaminhava para que os Golden Eaglets chegassem como plenos favoritos ao Mundial de 2009. Donos da casa, contariam com todo o apoio da torcida e a manutenção da estrutura técnica do time campeão. Entretanto, o primeiro revés ocorreu pouco tempo depois da festa da conquista na Coreia. O treinador do time, Yemi Tella, faleceu algumas semanas depois, em decorrência de um câncer de pulmão. Sem o comandante, o impasse começava na escolha de seu substituto.
O primeiro a assumir o cargo do antigo técnico foi Alphonsus Dike. Sob pressão, Dike sucumbiu em seus primeiros resultados. Mesmo classificados para o Mundial por serem os donos da casa, os nigerianos participaram da etapa africana classificatória. E a decepção veio na eliminação prematura, ainda nas fases preliminares. No primeiro confronto, as águias enfrentariam Benin. No jogo de ida, atuando em casa, vitória tranquila por 2 a 0. Porém, o jogo de volta seria traiçoeiro. Mesmo sem tanta tradição, os bebê esquilos surpreenderam e venceram por 3 a 0, eliminando a Nigéria e deflagrando uma crise no futebol do país.
Como consequência, Dike acabou demitido. Seu substituto foi Henry Nwosu, assistente técnico durante as Olimpíadas de Pequim. Mas assim como seu antecessor, as escolhas e os resultados de Nwosu não agradaram os dirigentes do futebol do país. O modesto terceiro lugar em um torneio quadrangular disputado em Dubai culminou em sua demissão. A equipe havia conquistado apenas uma vitória nos três jogos disputados.
Apenas em maio é que o atual treinador, John Obuh, pôde iniciar o seu trabalho. Com experiência em times da primeira divisão do futebol nigeriano, o técnico chegava com a missão de colocar ordem na casa. Contudo, a falta de organização da federação nigeriana atrapalhou ainda mais o início do novo técnico. Durante a reunião da equipe para a disputa de alguns jogos em Gana, os atletas foram submetidos a testes ósseos para comprovar suas idades, conforme recomendação da Fifa para o Mundial sub-17. Porém, os resultados trouxeram uma revelação nada agradável aos anfitriões: dos 36 atletas do grupo, 15 tinham suas idades adulteradas.
Os exames provocaram cortes imediatos no time. A falta de controle dos dirigentes sobre a idade dos jogadores causou um número substancial de desfalques ao técnico John Obuh, que precisaria encontrar novas opções para o elenco. E mesmo ainda sentindo os efeitos dos cortes, o primeiro grande desafio veio apenas dois dias após o ocorrido. Os adversários seriam os “Flying Eagles”, equipe sub-20 nigeriana que se preparava para o Mundial do Egito. Apesar da derrota por 2 a 0, Obuh pode avaliar melhor o desempenho dos atletas restantes contra equipes de alto nível.
Alguns dias depois, novo confronto, agora contra Gâmbia, vencedores do Campeonato Africano sub-17. O empate por 1 a 1 e, posteriormente, a vitória por 2 a 0, demonstraram uma ligeira recuperação dos traumas. Porém, na última etapa de preparação, mais trapalhadas da federação nacional. Após mais da metade dos atletas não terem seus vistos aceitos na Alemanha, os Golden Eaglets tiveram que cancelar uma série de jogos em território europeu nos quais enfrentariam, inclusive, seleções participantes do Mundial. Como “compensação”, foram marcados às pressas alguns amistosos no Catar.
Ainda dá?
Na estreia nigeriana no Mundial, diante da Alemanha, em 24 de outubro, fará pouco mais de três meses que as águias descobriram seus casos de adulteração de idade. A grande dúvida é se, mesmo com todas as dificuldades passadas, John Obuh conseguirá construir um elenco realmente competitivo. Uma das soluções apontadas pela federação local, com o intuito de preparar o maior número de atletas para o campeonato, foi a criação de uma equipe “B”. Assim, o treinador teria mais possibilidades durante sua escolha final para o Mundial, além de uma garantia caso fossem descobertos novos “gatos” no elenco.
Do que já foi testado pelo técnico, o ponto de maior destaque é o condicionamento físico de muitos de seus garotos. Durante o jogo contra os Flying Eagles, mesmo tendo um adversário superior tecnicamente, a equipe juvenil conseguiu impor seu ritmo através de muito vigor em campo.
Além disso, o grupo tem diversos valores individuais, especialmente no ataque. Quatro dos principais jogadores do time são opções na posição: Stanley Okoro, Terry Envoh, Omoh Ajabu e Olanrewaju Kayode. Assim, Udoh poderá usar até mesmo três avantes em campo.
No meio-campo, o ponto de referência da equipe deverá ser Abduljelil Ajagun, que ficará incumbido de realizar a maior parte das ligações com o ataque. Contudo, apesar dos destaques ofensivos, faltam nomes que se sobressaiam na parte “de trás” da equipe. Dentre os defensores convocados, a média de altura é baixa (1,71 m) e não inspira confiança nas bolas aéreas. Além disso, o camisa 1, Danjuma Paul, terá que demonstrar um bom posicionamento e muita impulsão, já que mede apenas 1,68 m.
Quanto aos desfalques, dos titulares no Africano sub-17, poucos foram os cortados por conta da adulteração de idade. A maioria saiu da lista de John Obuh por opção técnica. Dentre as maiores ausências, estão a do goleiro Emmanuel Achor, a do lateral-esquerdo Orji Kalu, a do meio-campista Festus Ajah e a do atacante Lawal Hassan. O mais curioso é que o meia Deji Joel, um dos quinze “gatos”, apareceu na convocação para o Mundial.
O grande reforço do time, entretanto, deverá vir das arquibancadas. Mesmo com o título visto como “obrigação” pela torcida local e de todas as dúvidas conseqüentes ao escândalo dos “gatos”, o apoio dos adeptos deverá ser fundamental para que o grupo embale durante o torneio. Para tanto, é preciso que os jogadores também tenham um bom controle psicológico.
Curtas
- ELE PROMETE IR À CAÇA...
Omoh Ojabu. O atacante mostrou todo o seu poder de fogo em um amistoso dos Golden Eaglets durante a pré-temporada disputada no Catar: na partida diante Qatar SC, marcou nada menos que cinco gols na vitória por 14 a 1. Apesar da fragilidade do adversário, o atleta, que atua pelo Dolphins FC, apresentou seu faro de gol diante das redes adversárias e deverá ser uma das referências dentro da grande área.
- NÃO DEVERÁ PASSAR DE UMA MIRAGEM...
Terry Envoh. O jogador do Mighty Jets FC, da segunda divisão nigeriana, era visto como uma das principais armas do ataque dos Eaglets. Apesar de marcar alguns gols na pré-temporada, para o treinador John Obuh, suas atuações ficaram abaixo do esperado. Com a forte concorrência em sua posição, terá que mostrar muito mais serviço para garantir sua vaga na equipe titular.
- O PROFETA...
Abduljelil Ajagun. O meia-atacante foi um dos principais jogadores de sua equipe, o Dolphins FC, na última temporada, quando marcou gols importantes na conquista do título da segunda divisão. É eficiente no apoio ao ataque e preciso nas finalizações. Além disso, deverá trazer perigo aos adversários nas cobranças de bolas paradas.
- O FARAÓ...
Stanley Okoro. O atacante é uma das estrelas do Heartland, equipe nigeriana que está na final da Liga dos Campeões da África, o que o torna um dos jogadores mais badalados e com mais experiência no elenco. Assim, será a referência da equipe em campo. É ótimo finalizador e demonstrou oportunismo ao marcar um hat-trick em um amistoso na preparação nigeriana. Tem grandes chances de se transformar no “xodó” da torcida durante o Mundial.
Elenco
GOLEIROS
Danjuma Paul (Ousford Academy) - 18/12/1992
Amos Izuchukwu (Team Lagos) - 09/12/1993
John Felagha (Aspire-CAT) - 27/07/1994
DEFENSORES
Aigbe Oliha (Igbino Babes) - 11/02/1993
Mohammed Aliyu (Niger Tornadoes) - 12/02/1993
Fortune Chukwudi (A & B Academy) - 18/11/1992
Kenneth Omeruo (Hard Foundation) - 17/10/1993
Chukwujike Mgbam (Standard Academy) - 22/04/1992
MEIOCAMPISTAS
Ogenyi Onazi (My People) - 25/12/1992
White George Agwuocha (Kwara Utd) - 13/01/1993
Abduljelil Ajagun (Dolphins FC) - 10/02/1993
Obinna Okoro (Young Stars) - 30/12/1992
Deji Joel (Eco Academy) - 23/11/1992
Ramon Azeez (Future Pro Academy) - 12/12/1992
ATACANTES
Stanley Okoro (Heartland) - 08/12/1992
Olanrewaju Kayode (Marvellous) - 08/05/1993
Terry Envoh (Mighty Jets FC) - 12/12/1992
Omoh Ojabu (Dolphins FC) - 14/12/1992
Sani Emmanuel (My People) - 23/12/1992
Yusuf Otubanjo (Emmanuel Amunike Academy) - 12/09/1992
Edafe Egbedi (Gizallo) - 05/08/1993
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