Maurício Vargas - 14/10/2009
A Suíça não era ninguém na ordem do dia do futebol mundial ou europeu de bases até o final da década de 90. Foi então que, impulsionada por um dos mais eficientes trabalhos de renovação estrutural da história, comandado por Hansruedi Hasler, a Nati passou a frequentar as fases finais dos continentais até fazer surgir uma nova geração de bons jogadores que fizeram bonito na Copa da Alemanha.
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Apesar disso, figurar nos Mundiais de base ainda é uma novidade para os suíços. Tanto que a primeira participação no Sub-20 foi apenas em 2005, e os alpinos terminaram na lanterna do Grupo F, atrás de Brasil, Nigéria e Coréia do Sul. No Sub-17 então, tudo é novo: a estreia do país na categoria será apenas agora, já que o título europeu conquistado em 2001/02 não valeu vaga (apenas os continentais com final em ano ímpar, que são os anos em que acontecem os Mundiais, é que classificam para os mesmos).
Apesar disso, aquela geração foi a que rendeu os nomes de Philippe Senderos, Tranquillo Barnetta e Johan Djourou, a mesma que foi mal no Mundial Sub-20 da Holanda e que, hoje, ajuda a seleção principal a se classificar para sua segunda Copa consecutiva. E é exatamente com este pensamento que os suíços chegam à Nigéria: mais importante do que ir longe, surpreender os favoritos ou fazer uma grande campanha, eles querem mesmo é adquirir experiência e valer-se dela no futuro, quando depender destes garotos a próxima renovação da Nati. E se conseguirem ao menos avançar às oitavas, melhor ainda.
Para isso, talvez nenhum grupo tenha sido tão perfeito quanto o B: contra Brasil, México e Japão, os suíços irão enfrentar três escolas de futebol bastante diferentes, e as melhores de cada continente. Sem obrigação alguma de vencer, os garotos de Dany Riser podem tirar proveito do fato de jogarem sem responsabilidade, aprender bastante e quem sabe voltarem mais fortes daqui a dois anos, no Mundial Sub-20 da Colômbia.
De azarões a grata surpresa
“Estamos exatamente na mesma situação em que nos encontrávamos no Europeu”, afirma Ryser. Colocada ao lado de Espanha, Itália e França nas finais do continental em maio passado, na Alemanha, a Suíça surpreendeu ao se classificar para a semifinal como campeã da chave. “As pessoas nos viam como fiéis da balança e mesmo assim terminamos no topo. O papel de mais fraco me agrada muito, pois podemos surpreender”, acrescenta.
De fato, nenhuma seleção que se classifica para o Mundial tem tanto para comemorar quanto as europeias – e dentre elas especialmente a Suíça, novata neste estágio e considerada zebra dentro do próprio continental. Isto porque são três estágios até que se carimbe o passaporte. Na primeira fase, um grupo complicado contra Noruega, Ucrânia e Islândia, que sediou o quadrangular. A vitória sobre os anfitriões na estreia foi uma injeção de ânimo e tanto para que empates sem gols com noruegueses e ucranianos, ambos considerados favoritos, garantissem a classificação no segundo lugar.
Já no Elite Round, desafio ainda maior: jogando na Grécia, os suíços enfrentaram, além dos donos da casa, a também surpreendente Eslovênia, que havia eliminado a Rússia, e a Polônia, que vinha de 100% de aproveitamento na etapa anterior. Mais uma vez, o setor defensivo provou-se fundamental e o único gol sofrido foi no empate com os gregos, na rodada inaugural. Diante da Polônia, uma vitória cirúrgica, com um gol a nove minutos do fim marcado por Seferovic – que já havia anotado contra a Grécia. A vaga na fase final foi conquistada com estilo, graças a um sonoro 6 a 0 sobre os eslovenos, com direito a hattrick do atacante Bem Khalifa, estrela da companhia.
Veio então a fase final e, como dito, a Nati chocou a todos ao deixar escapar a vitória sobre a França apenas nos minutos finais, derrotar a Itália com autoridade por 3 a 1 e empatar sem gols com a Espanha, garantindo a participação no Mundial e passando à semifinal. Contra a Holanda, foi apenas a primeira vez que a equipe saiu atrás no placar e, com dois gols ainda no primeiro tempo, a ida à final ficou muito distante – Kamber ainda diminuiria logo na volta do intervalo, mas não seria suficiente.
Mesmo com o revés, a Suíça terminou o Europeu Sub-17 em clima de festa, com quatro vitórias, cinco empates e apenas uma derrota, além de quinze gols marcados e apenas seis sofridos – a melhor defesa dentre os sete que passaram pelo qualificatório, excluindo a Alemanha, sede e que só disputou quatro partidas.
De lá para cá, foram cinco amistosos e um período de concentração um pouco maior de duas semanas em agosto, além de outro agora em Malta. Os resultados continuaram sendo satisfatórios: três vitórias, um empate e uma derrota, esta para Belarus com o time reserva. Já com a equipe que deve entrar em campo na Nigéria, foram duas goleadas (5 a 2 sobre a Polônia e 4 a 0 sobre Malta), um 2 a 1 sobre os vizinhos austríacos e um empate em 1 a 1 com os poloneses.
A preparação tem sido impecável, no melhor estilo suíço: organizada e metódica. Tanto que, ao contrário do que muitos países fazem, Dany Ryser não acumula a função de comandar uma equipe no Mundial e outra no qualificatório do próximo Europeu Sub-17, que já está rolando. A Federação Suíça tem um treinador por idade, e Ryser é hoje técnico do que é chamado por eles de “sub-18”. Aos 52 anos, assumiu a equipe em julho do ano passado e ficará com ela até o final do ano, quando a entrega para Martin Trümpler, comandante do sub-19. Uma precisão que assusta.
Entretanto, se sobra experiência europeia aos suíços, falta exatamente maior contato com essas escolas de outros continentes. Dany Ryser lamenta, por exemplo, o fato de não ter podido fazer uma aclimatação na Nigéria antes do Mundial, ou mesmo amistosos contra times asiáticos ou americanos, para acostumar os atletas a diferentes estilos de jogo.
Resto do Mundo FC
Uma coisa ao menos é certa que não faltará no time alpino: sotaque. Dos 21 convocados, nada menos que oito são descendentes ou nasceram em outros países da Europa, e possuem dupla nacionalidade. Esta é aliás uma característica muito comum do futebol suíço nas últimas duas décadas, em um fenômeno parecido com o que acontece na Alemanha.
O lateral-direito André Gonçalves, como o nome já denuncia, é filho de portugueses. Seus companheiros de setor Frédéric Veseli e Sead Hajrovic são, respectivamente, descendentes de albaneses e bósnios. Com nacionalidade bósnia são também os atacantes Igor Mijatovic e Haris Seferovic e o meia-atacante Granit Xhaka. Completam a lista os meiocampistas Maik Nakic, nascido na Croácia mas que mudou-se para a Suíça ainda muito criança, e Kofi Nimeley, que é filho de ganeses.
Essa verdadeira Torre de Babel, entretanto, é bem mais entrosada do que se pode imaginar. Destes, cinco são titulares e o time se entende muito bem, obrigado – os resultados estão aí para provar. A base é formada por jogadores de Grasshopper e Basel e o ponto forte, como os números e a própria tradição comprovam, é a defesa: Benjamin Siegrist é um goleiro alto para os padrões do país e da idade (1,94m) e já saiu da Academy do Aston Villa, fazendo parte do elenco dos Reserves. Chegou ao Villa Park no início do ano, contratado junto ao Basel.
A consistência é dada por um tradicional 4-4-2 que tem como pilares a dupla de zaga formada por Charyl Chappuis e Frédéric Veseli, este último capitão da equipe, organizador do jogo do alto de seu 1,83m e titular na Academy do Manchester City. Seguro, potente nos desarmes e ótimo pelo alto, é considerado não apenas sucessor de Senderos – mas melhor que ele. Chappuis, por outro lado, pode atuar também como meio-campo defensivo, mostrando versatilidade. A dupla serve de inspiração para Sead Hajrovic, zagueiro de 16 anos recém-completados, mais jovem do elenco e comprado pelo Arsenal junto ao Grasshopper.
A lateral direita é de André Gonçalves, embora ele tenha sido testado como zagueiro quando Chappuis vai para o meio. Aí, quem assume este lado da defesa é Bruno Martignoni. Do lado esquerdo, a posição no Europeu foi de Janick Kamber, firme na defesa e mais presente no ataque, inclusive marcando duas vezes naquela oportunidade. Se necessário, Kamber deve assumir posição mais à frente, como meia pela esquerda, abrindo terreno para que Ricardo Rodriguez, jogador mais modesto do FC Zürich, assuma a lateral.
No meio, Kofi Nimely é dono da preocupação defensiva e confere força física pouco comum aos atletas do país. Ao seu lado, costuma jogar Oliver Buff, mas após uma contusão não tem sido o mesmo do Europeu e esta é uma posição aberta no elenco. Pelos lados, Roman Buess e Granit Xhaka garantem a saída de bola e a alimentação para a dupla de ataque titularíssima, formada por Bem Khalifa e Seferovic.
O time, como se pode ver, é entrosado, possui uma defesa forte e alternativas interessantes. Por mais que não seja uma equipe que joga um futebol bonito, pode – por que não – surpreender na Nigéria. Afinal, se os africanos, brasileiros e argentinos têm a ginga e a habilidade, os suíços têm a aplicação tática que pode transformar-se em uma vantagem ou um handicap. Basta ser utilizada com inteligência para que cheguem, novamente, mais longe do que se imagina.
Curtas
- ELE PROMETE IR À CAÇA
Nassim Bem Khalifa. Artilheiro do país no Europeu Sub-17, marcou dez gols com a seleção desde o início do qualificatório e já faz parte do elenco profissional do Grasshopper – começou a temporada como reserva, marcou dois gols e já virou titular. Com 1,88m, é ótimo no cabeceio, além de possuir senso de posicionamento fora do comum para a idade. Em poucas palavras, é a resposta suíça à iminente aposentadoria de Frei da seleção principal.
- NÃO DEVERÁ PASSAR DE UMA MIRAGEM
Bruno Martignoni. Emprestado pelo Luzern ao Bellinzona, dois times bastante modestos, faz parte do elenco mais por ser um coringa que por sua real qualidade: zagueiro de origem, já quebrou galho como lateral direito, esquerdo e como volante. Entretanto, não é especialista em nenhuma das posições e só deve jogar em último caso.
- O PROFETA
Frédéric Veseli. O zagueiro do Manchester City pode ser considerado tanto a liderança moral quanto o principal jogador do time. Ele é o capitão, dono do time, voz do técnico no campo e responsável por todas as jogadas da equipe, mesmo sendo zagueiro. O sucesso alpino depende diretamente de seu desempenho, já que é o pilar do sistema defensivo e o início do ofensivo.
- O FARAÓ
Janick Kamber. O lateral esquerdo do Basel não aparecia entre os principais jogadores da equipe antes do início do Europeu. Entretanto, sua consistência defensiva e qualidade ofensiva transformaram-no na rota preferida de escape da zaga suíça e, ao mesmo tempo, na principal fonte de assistências para a dupla de ataque. Se jogar tanto quanto jogou no continental, os alpinos podem ir longe.
Elenco
GOLEIROS
Joel Kiassumbua (FC Luzern) – 06/04/1992
Benjamin Siegrist (Aston Villa-ING) – 31/01/1992
Raphael Spiegel (Grasshopper) – 19/12/1992
DEFENSORES
Charyl Chappuis (Grasshopper) – 12/01/1992
André Gonçalves (FC Zürich) – 23/01/1992
Sead Hajrovic (Arsenal-ING) – 04/06/1993
Janick Kamber (FC Basel) – 26/02/1992
Bruno Martignoni (AC Bellinzona) – 13/12/1992
Ricardo Rodriguez (FC Zürich) – 25/08/1992
Robin Vecchi (FC Basel) – 03/01/1992
Frédéric Veseli (Manchester City-ING) – 20/11/1992
MEIOCAMPISTAS
Roman Buess (FC Basel) – 21/09/1992
Oliver Buff (FC Zürich) – 03/08/1992
Kofi Nimeley (FC Basel) – 11/12/1992
Granit Xhaka (FC Basel) – 27/09/1992
Maik Nakic (FC Sion) – 17/01/1992
Pajtim Kasami (Lazio-ITA) – 02/06/1992
ATACANTES
Nassim Ben Khalifa (Grasshopper) – 13/01/1992
Haris Seferovic (Grasshopper) – 22/02/1992
Igor Mijatovic (AC Bellinzona) – 21/11/1992
Matteo Tosetti (AC Bellinzona) – 15/02/1992
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