Lincoln Chaves - 14/10/2009
Há quatro anos, surgia no Peru uma geração recheada de enormes expectativas para o futebol do México. Comandada pelas promessas Carlos Vela, Giovani dos Santos, Héctor Moreno e César Villaluz, a equipe superava o Brasil na decisão do Mundial Sub-17 e levantava o inesperado caneco. Em 2007, no entanto, o sentimento foi o oposto, com a Tri sendo eliminada na primeira fase do Campeonato Sub-17 da Concacaf, após empates com Haiti, Honduras e El Salvador (os dois primeiros foram ao Mundial). O fracasso foi tão retumbante que o grupo, base da atual geração sub-20 do país, amargou a lanterna do qualificatório continental, com derrotas para Canadá e Costa Rica, ficando também de fora do Mundial do Egito.
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Igualar o desempenho de Gio, Vela e Moreno é a meta defendida pelo treinador José Luis González China para a Nigéria. O objetivo, além de destemido, mostra o grau de importância que aquela geração conquistou no país. Na ocasião, após deixar para trás Austrália e Uruguai e perder para a Turquia, ainda sem empolgar, os mexicanos encarnaram o espírito copeiro e, depois de passar no sufoco pela Costa Rica, atropelaram Holanda (4 a 0) e o Brasil de Anderson, Sidnei, Denílson e Marcelo (3 a 0), garantindo o caneco no Peru. Destaque para o atacante Vela (5 gols), artilheiro da equipe no Mundial.
Como se vê, o time que vai à África terá duas missões claras: mostrar que o fracasso de 2007 foi exceção no que diz respeito à formação no país, e voltar da África com o segundo título. A confiança tem certa razão de existir, após o desempenho perfeito no zonal da Concacaf, cujo complemento foi cancelado devido ao surto de gripe suína na região. A presença de uma chave relativamente fácil (à exceção do Brasil, com quem deve se classificar à segunda fase), condiciona a Tri a uma campanha que tende a levá-la longe, até mesmo à sonhada coroa. No entanto, alcançar às semifinais já seria uma excelente conquista, especialmente pelo desfalque de última hora: o prodígio Martín Galván.
Otimismo justificado
A participação mexicana no Mundial deste ano foi assegurada com uma tranquilidade enorme. Dona da casa no Sub-17 da Concacaf, a Tri nem precisou tanto do apoio dos torcedores para atropelar Trinidad & Tobago por impiedosos 7 a 0 e, contra Guatemala, fazer um fácil 3 a 0, garantindo com uma rodada de antecipação a vaga na Nigéria, apagando o fantasma de dois anos antes. Na partida final da primeira fase, a equipe, poupando titulares para a segunda fase (que não ocorreu, por causa da gripe suína), ainda superou por 1 a 0 a Costa Rica, assegurando os 100% de aproveitamento.
De olho no segundo título mundial da categoria, a equipe se reuniu diversas vezes. Em julho, no Japão, três convincentes vitórias contra os juvenis do Niigata (2 a 1), e as seleções sub-17 eslovaca (3 a 0) e japonesa (3 a 1). Em agosto, atropelaram o Uruguai (3 a 1). Recentemente, em amistosos contra equipes universitárias dos Estados Unidos (cujas idades chegavam a 21 anos), na Califórnia, foram duas vitórias (uma delas por 4 a 0) e apenas uma derrota, nos acréscimos. Antes do Mundial, uma relação de pré-convocados rumaram para a última série de treinos na Espanha, de onde saíram os nomes definitivos.
No comando está Jose Luis Gonzalez China. Jogador de longa carreira no Atlante, fez parte da comissão técnica campeã do mundo sub-17 em 2005. Curiosamente, Gonzalez China demorou a aceitar o cargo de treinador da Tri juvenil, afirmando que seu grande objetivo era seguir para um clube da Primeira Divisão Nacional. Sete meses depois, sente que tem chances de se sagrar bicampeão mundial sub-17, dessa vez como treinador principal. Surpreendeu ao suspender, com a batuta da diretoria de seleções da FMF, o principal destaque da equipe, Galván, por “indisciplina”, após os estágios preparatórios nos EUA.
Sério desfalque
A ausência de Galván repercutiu de maneiras diversas, com uma parcela dos torcedores até defendendo a atitude do treinador, e outros a criticando, afirmando que o atacante mereceria uma nova chance. De qualquer forma, a saída do matador da equipe e mais jovem atleta a atuar pela liga mexicana (estreou com singelos 14 anos no profissional do Cruz Azul) torna Victor Mañon candidato forte à titularidade no ataque. O setor, aliás, mostra-se o mais disputado, sendo mais de sete atacantes de ofício no elenco. O que não necessariamente significa acúmulo de qualidade.
Com tanta concorrência, foi até natural que alguns desses jogadores passassem a atuar mais recuados, quando escalados. Foi o que ocorreu com Gil Cordeiro, atacante de origem, mas que, pela seleção, afirmou-se como meia-ofensivo, por onde tem atuado desde o torneio sub-17 da Concacaf. Porém, os demais nomes de ataque, como Daniel Guzmán e Luís Madrigal, abusaram de perder gols durante as excursões, e darão trabalho para decidir o parceiro ideal pára Mañon, após a dispensa de Galván. O que reforça a dificuldade que se espera no que diz respeito à finalização por parte dos mexicanos.
Taticamente, ao longo dos últimos meses, Gonzalez China mudou a equipe defensivamente. Na competição continental, armou a equipe com três zagueiros, destacando-se o capitão Kristian Alvarez, considerado promessa da posição, com convocações para a seleção sub-20. Já nos últimos treinamentos, a equipe entrou em campo com quatro defensores, com Oscar Garcia e Diego Reyes disputando posição para jogar ao lado de Alvarez, Jairo González e do prodígio e versátil Cesar Ibáñez. O sistema defensivo, aliás, tende a ser uma importante ferramenta da Tri.
Caso mantenha um esquema com quatro zagueiros e deseje segurar Cordeiro na ligação com o ataque, em um 4-3-1-2, o treinador terá que sacrificar um dos volantes do antigo 3-4-1-2 (Abraham Coronado ou Luis Fernando Telles). Pode, ainda, tirar Erick Vera ou Carlos Campos, os dois armadores, se decidir jogar com mais cautela, no que poderia dar certa liberdade para Ibañez avançar para ajudar na criação. Ainda assim, é difícil crer que os mexicanos se encolherão na defesa, não apenas pela quantidade de atacantes convocados, mas pela pressão em repetir o título de 2005, ou, ao menos, chegarem perto. Pressão que tende a dobrar após o corte do matador Galván.
Curtas
- ELE PROMETE IR À CAÇA...
Victor Mañon. O atacante foi o segundo atleta mais jovem a atuar no futebol mexicano, debutando aos singelos 15 anos e sete meses, em 2007. Até hoje, ainda que com oportunidades ocasionais, faz parte do elenco principal do Pachuca — esteve no Mundial de Clubes, aliás —, e se destaca por seu posicionamento e boa chegada ao gol adversário, especialmente quando cai mais pela direita. Sem Martín Galván, caberá a Mañon a responsabilidade de ser a referência na área.
- NÃO DEVERÁ PASSAR DE UMA MIRAGEM...
Daniel Guzmán. É a primeira opção para jogar ao lado de Mañon. O problema é que o atleta vai para a África pressionado: além de substituir Galván, deverá provar ser tão goleador quanto o pai, também Daniel Guzmán, com quem é constantemente comparado. Ainda buscando se firmar, tanto na seleção sub-17, como no Tigres, onde frequenta a base, afirma querer a Europa (o avante foi sondado pelo Reading). Terá o Mundial para se aproximar de seu objetivo. Ou se encolher perante a pressão.
- O PROFETA...
César Ibáñez. Defensor bastante versátil, joga como zagueiro, lateral-direito, volante e até meio-campista. Não a toa, apesar de apenas 17 anos recém completados, já é, desde ano passado, importante opção no elenco do Atlas, e é apontado como o principal valor da forte categoria de base do clube mexicano, atualmente líder do campeonato nacional sub-17. Sua versatilidade e experiência no time principal do Atlas serão altamente exigidas, e embora Alvarez seja o capitão, sua voz não será ignorada em campo.
- O FARAÓ...
Kristian Alvarez. Nunca é bom ser considerado o “futuro Fulano-de-Tal”, mas é difícil, ao ver o promissor zagueiro do time B do Chivas, não se recordar de Rafa Márquez, xerife mexicano nos últimos anos e da zaga do gigante Barcelona. Capitão da equipe na Nigéria, é quem comanda as ações da defesa, seja ela formada por três ou quatro jogadores, e além da disposição atrás, tem boa impulsão e cabeceio. É apontado como a grande promessa dessa geração, embora seja menos badalado que Galván.
Elenco
GOLEIROS
José Antonio Rodríguez (Chivas) - 04/01/1992
Israel Cano (Monterrey) - 17/09/1992
José Alujas (Atlas) – 09/04/1992
DEFENSORES
Cesar Ibañez (Atlas) - 01/04/1992
Kristian Álvarez (Chivas) - 20/04/1992
Jairo González (Chivas) - 27/02/1992
Diego Reyes (América) - 19/09/1992
Oscar Sebastian García (Monterrey) - 08/02/1993
MEIOCAMPISTAS
Abraham Coronado (Chivas) - 28/02/1992
Bryan Roberto Leyva (Dallas Burn-EUA) – 09/02/1992
Carlos Campos (Pumas) - 13/04/1992
Luis Fernando Telles (Atlas) - 09/02/1992
Erick Vera (Tigres) - 24/03/1992
Carlos Parra (Santos Laguna)
ATACANTES
Miguel Basulto (Guadalajara) - 07/01/1992
Daniel Guzmán (Tigres) - 28/06/1992
Gil Cordero (Necaxa) - 13/04/1992
Victor Mañon (Pachuca) - 06/02/1992
Christian Ruiz Ortega (Real Leonés) - 25/02/1992
Martín Ponce (Chivas) - 30/06/1992
Luis Guillermo Madrigal (Monterrey) - 10/02/1993
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