Lincoln Chaves - 18/10/2009
Burkina Faso é mais conhecida por seu assustador índice de pobreza do que por sua capacidade reveladora de atletas. Com o terceiro pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do planeta, e renda per capita inferior a US$ 300, tem boa parte do povo abandonado e desempregado (77% do país), cuja uma das poucas alegrias é o futebol. E recentemente, essa alegria vinha sendo bastante positiva, com a brava luta dos Garanhões por uma vaga na próxima Copa do Mundo, competindo com a forte Costa do Marfim. A África do Sul não era logo ali, mas, ao menos, um posto na próxima CAN foi alcançado.
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Enquanto isso, o time sub-17 dava sinais de um futuro positivo, após se classificar para o Mundial da categoria com uma bela campanha no campeonato continental da categoria. “Dava”, pois algo que comum no futebol africano, o “gato”, rondou o esporte local com força, deixando sob dúvida o futuro de algumas dessas promessas e, evidentemente, da própria seleção na Nigéria. A chave em que estão pode ser considera acessível, especialmente se comparada a outras que os burkinenses já tiveram que enfrentar, embora não se acredite em um conto de fadas como o de 2001.
Há oito anos, um surpreendente selecionado nacional espantou o mundo do futebol ao alcançar o terceiro lugar no Mundial Sub-17. O time caiu apenas para a Nigéria, e, na disputa pelo bronze, despachou a Argentina de Tevez e Mascherano. Isso porque já haviam superado a Espanha de Iniesta e Fernando Torres na primeira fase. O grupo, comandado por Wilfried Sanou e Saidou Panandetiguiri, levou os burkinenses ao Mundial Sub-20 dois anos depois, e é base da atual seleção. Resquícios de um momento bastante bonito no futebol local, e que colocou definitivamente Burkina Faso no mapa da bola.
Dedo político
A classificação para o Mundial Sub-17 começou em junho do ano passado, quando, em dois jogos, a equipe eliminou a Tunísia. Depois, também após dois encontros, despachou a Ruanda e avançou para a CAN da categoria, na Algéria. No polêmico grupo que teve Niger como protagonista, desclassificado depois da a confirmação de que utilizara “gatos” no torneio, Burkina Faso não deu chances aos rivais, vencendo Zimbábue e Malawi para garantir vaga nas semifinais da competição e, por conseguinte, no Mundial. O time seria superado pelos anfitriões, mas assegurou o bronze após vencer Malawi novamente.
De lá para cá, mudanças drásticas e a conquista de um título, durante a fase de preparação. O técnico brasileiro Roberto Danton e o auxiliar Saraphin Dargani, foram demitidos pouco depois da classificação para o Mundial. Segundo Danton, disseram-lhe que “não estava trabalhando bem”, mesmo após a vaga para a Nigéria. Só que a queda do brasileiro teve dedo do ministro dos Esportes Jean Pierre Palm, embora o mesmo tenha negado a razão sondada pela a imprensa para a saída do brasileiro: descontentamento dos jogadores com seu jeito e estilo de treinamentos. A “participação” de Palm fica evidente também na promessa de um prêmio gordo por uma boa atuação no Mundial.
Em seu lugar, comandará o time na Nigéria o alemão Rainer Willfeld, que estava na seleção sub-20 e é um dos coordenadores de um projeto social encabeçado pela embaixada alemã em Burkina Faso, que utiliza o futebol para tirar crianças das ruas. Willfeld substitui outro treinador, Brama Traoré, colocado em regime “emergencial” no lugar de Danton e que comandou os Garanhões durante boa parte da preparação para o Mundial. Para tal, foram marcadas excursões para Alemanha e França, onde se realizaram amistosos e exames de ressonância magnética para alertar sobre possíveis “gatos”.
Foi quando veio a bomba: oito, dos 30 nomes que estavam na Europa, tinham mesmo a idade adulterada. Alguns dos principais nomes da equipe, como o atacante Jerome Ouiya, artilheiro burkinense na CAN Sub-17, o zagueiro e capitão Cheick Coulibaly e o meio-campista Pascal Kamara, um dos armadores, estavam entre os alvos, e ficaram de fora do Mundial, forçando a comissão técnica a se desdobrar para modificar o time sem perder qualidade. Como se vê, uma preparação no mínimo estranha, repleta de manchas que só um bom desempenho na Nigéria poderá tentar apagar.
Refazendo os planos
Com tantos cortes, sendo alguns deles essenciais ao elenco, Willfeld terá trabalho para montar um time realmente forte para a competição. O goleiro Germain Sanou, de excelente atuação na CAN Sub-17 e nos períodos preparatórios, é inquestionável debaixo das traves. Na defesa, após os cortes de Coulibaly e Alassana Sango, detectados como sendo “maiores de idade”, caberá aos outros titulares do setor, Adama Haiki e Ali Bagayan, serem os líderes de um setor que tende a estar bastante fragilizado, em virtude da necessidade em entrosar uma nova série de zagueiros, que deve ser encabeçada por Vabao Adama, que, mesmo reserva, foi bem quando requisitado na CAN Sub-17.
O meio de campo, apesar da saída de Kamara, é onde se concentram as principais perspectivas acerca dos Garanhões, especialmente no que diz respeito a Hamed Zoungrana, de habilidade e visão de jogo apurados, onde deverão girar as principais articulações da equipe. Não à toa, é apelidado de “Zidane” pela imprensa local. Outros titulares ao longo do ano, como Fadil Sido e Dalhata Soro, cuidarão mais da contenção (este último pode, ainda, ajudar na zaga). O entrosamento será importante aí, já que os demais setores do time estarão bastante modificados em relação à CAN Sub-17. Destaque ainda para a surpreendente convocação de Bertrand Traoré, de 14 anos.
O ataque teve o baque mais sentido: a perda de Jerome Ouiya, atleta que, após excelente desempenho nas fases continentais, entrou no hall das grandes promessas do futebol africana, foi descoberto pelos exames realizados na França como tendo mais do que 18 anos. Com isso, Victor Nikiema virou a referência ofensiva mais “experiente” do ataque, embora não seja um centroavante propriamente dito, atuando mais, na verdade, um segundo atacante. Sendo assim, o homem de área “oficial” da equipe deverá ser Louckmane Ouedtraogo, da academia do Feyenoord estabelecida em Gana.
Curtas
- ELE PROMETE IR À CAÇA...
Louckmane Ouedtraogo. Sem o “gato” Jerome Ouiya, o atacante do Feyenoord Fetteh, equipe de formação criada pelos holandeses em Gana e que revelou o artilheiro do Mundial Sub-20, Dominic Ayidiah, será o incumbido de mandar a bola para as redes e, talvez, se aproximar do que o ganense alcançou no Egito. Ouedtraogo foi novidade na convocação de Willfeld, já que o nome esperado era o de Saidou Boundane, e terá o Mundial para mostrar que o técnico estava correto.
- NÃO DEVERÁ PASSAR DE UMA MIRAGEM...
Victor Nikiema. Titular no ataque durante a CAN Sub-17, o mais velho dos Nikiema de Burkina Faso (Lassane, 15 anos, ainda é o goleiro reserva) passou em branco ao longo dos cinco jogos da competição. Quando Ouiya esteve mal e teve a oportunidade de desencantar, não conseguiu transformar as oportunidades criadas em gols. A falta do atacante “gato” e a escassez de atacantes de ofício no elenco tendem a aumentar ainda mais as responsabilidades do jogador, que pode perder espaço na equipe.
- O PROFETA...
Germain Sanou. Bastante elogiado após o desempenho no Africano Sub-17, em que sofreu apenas um gol em cinco partidas, Sanou deverá ser a voz da organização da equipe, especialmente no ponto de vista defensivo, já que o setor foi o mais afetado pelo corte dos “gatos”. Costuma passar segurança aos defensores, e no Mundial da Nigéria, a regularidade apresentada no torneio continental será essencial para que tal credibilidade seja mantida.
- O FARAÓ...
Hamed Zoungrana. O apelido “Zidane” evidencia quem é o cabeça dos Garanhões. Claro, seu futebol está longe do praticado pelo craque francês, mas a referência se dá por seu estilo mais cadenciado e voltado à criação. Sabe chegar ao ataque, e na falta de Ouiya, deverá auxiliar Nikiema, quando necessário, nas investidas ofensivas, não se limitando à armação. Único remanescente do elogiado trio de promessas locais, ao lado de Ouiya e Coulibaly, é em quem os burkinenses depositam suas esperanças.
Elenco
GOLEIROS
Germain Sanou (IFAM) – 26/05/1992
Lassane Nikiema (FAC)- 16/12/1993
Abdouraziz Guire (Feynoord Fetteh-GAN) – 26/04/1992
DEFENSORES
Adama Haiki (IFAM) – 02/02/1992
Mouhamed Ouattara (IFAM) – 07/03/1993
Delwende Yanogo (FAC) – 12/09/1993
Ismael Zagre (Kozaf) – 21/12/1992
Abdoul Nikiema (Feyenoord Fetteh-GAN) – 24/07/1993
Dalhata Soro (ASFA Yennenga) – 18/11/1992
Patrick Malo (IFAM) – 18/02/1992
MEIOCAMPISTAS
Ibrahim Barry (Faso Foot Espoir) – 31/01/1993
Fadil Sido (Naba Kango) – 13/04/1993
Hamed Zoungrana (Naba Kango) – 14/01/1993
Moussa Dao (Naba Kango) – 26/08/1992
Ousmane Derra (Faso Foot Espoir) – 13/05/1993
Bertrand Traore (ASF Bobo-Dioulasso) – 06/09/1995
Aboubacar Traore (IFAM) – 10/12/1992
ATACANTES
Victor Nikiema (Naba Kango) – 23/09/1993
Louckmane Ouedtraogo (Feyenoord Fetteh-GAN) – 17/10/1992
Abdoulaye Ibrango (Naba Kango) – 22/12/1992
Farouck Kabore (FAC) – 23/11/1993
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