Marcus Alves - 20/10/2009
Malaui vive um momento mágico no futebol. O país, que já experimentou essa mesma sensação nas décadas de 70 e 80, tenta voltar a assumir uma posição de destaque no continente. A classificação para a Copa Africana de Nações após 25 anos de ausência pode ser um primeiro passo nesse sentido. E ela não está assim tão longe de vir. Nas Eliminatórias, que também distribuem vagas para a Copa do Mundo, os Flames dependem apenas de uma vitória para carimbar o seu passaporte para a competição.
>>> Entenda por que o Olheiros ficou fora do ar nas últimas semanas
>>> Confira tudo sobre o Mundial Sub-17
O bom momento no profissional também se repete nas divisões de base. Os malauianos farão a sua estreia em campeonatos organizados pela Fifa no Mundial Sub-17 deste ano. A caminhada da equipe no zonal africano da categoria foi marcada pela descoberta de um caso de “gato”, que acabou lhe rendendo o bilhete para a Nigéria de maneira nada convencional.
Em seu debute na fase de grupos do qualificatório, Malaui não vinha bem e já se preparava para voltar para casa quando recebeu a notícia de que, após uma denúncia feita por representantes de Zimbábue, um atleta com idade adulterada havia sido identificado no elenco de Níger. Após concluir as investigações, os organizadores anunciaram a eliminação das Gazelas e a classificação dos Young Flames, terceiros colocados na chave, para as semifinais. Com a decisão, estava garantida também a vaga no Mundial.
E foi assim, sem maior esforço, que os malauianos entraram mais uma vez no radar do futebol internacional. Na Nigéria, o time terá adversários de peso pela frente. Espanha, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos cruzarão o seu caminho na primeira fase. Para o técnico John Kaputa, que prefere não criar maiores expectativas em torno do desempenho da equipe, o resultado contra os Emirados, na estreia da competição, será fundamental para saber até onde é possível chegar.
Vaga no colo
O fato de a vaga no Mundial não ter vindo de forma direta gerou certa frustração em Malaui. Embora disputasse a fase de grupos do Campeonato Africano apenas pela primeira vez na história, a campanha do país nas etapas anteriores o credenciava a brigar por objetivos mais audaciosos. Não por acaso, ela provocou furor entre os torcedores, que, acostumados a acompanhar até então somente a seleção principal, passaram a se interessar também pelos juvenis.
Em seu percurso no qualificatório, os Young Flames passaram por três mata-matas antes da fase final, disputada na Argélia. Na primeira eliminatória, venceram Moçambique duas vezes, com um placar agregado de 5 a 0. No confronto seguinte, o adversário foi a África do Sul, que, a exemplo de seus rivais, não se mostrou páreo para os malauianos e perdeu tanto dentro como fora de casa. Faltava apenas a Namíbia, que vinha bem cotada após eliminar Zâmbia na fase anterior.
Contra os Brave Warriors, o time enfrentou dificuldades e perdeu o jogo de ida por 2 a 1. Na volta, no entanto, a derrota foi devolvida em alto estilo. Malaui goleou por 7 a 0 em atuação brilhante do atacante Andy Simkonda, que marcou cinco gols e se tornou, a partir de então, o principal alvo dos clubes locais. No total, “Timkonda”, como também é conhecido, balançou as redes nove vezes na fase de mata-matas, e foi apontado pela imprensa como o maior responsável pela histórica classificação do time.
Após a goleada, dirigentes da Namíbia chegaram a colocar sob suspeita a idade dos jogadores, porém, nada foi provado e a reclamação acabou não sendo encaminhada. O treinador John Kaputa e seus garotos aguardaram, então, pelo sorteio dos grupos, que, no fim das contas, favoreceu os malauienses, com a companhia de seleções mais frágeis, caso de Burkina Faso, Zimbábue e Níger. Na outra chave, Gâmbia, Camarões, Guiné e Argélia se enfrentavam.
Ainda assim, a vaga no Mundial só veio após a eliminação dos nigerenses devido ao caso de “gato” em seu elenco. Com a passagem para a Nigéria assegurada, começava a caça por novos atletas pelo país e também por competições que pudessem se encaixar no cronograma de preparação da equipe. Em ambas as frentes, Malaui se deparou com dificuldades decorrentes da falta de dinheiro.
Da Alemanha para a Inglaterra
Na caminhada até a Nigéria, o Campeonato Sub-17 da Cosafa, entidade que reúne seleções do sul e sudeste da África, era considerado pela comissão técnica o principal teste antes do Mundial. Mas a edição deste ano do torneio, que seria realizada na Suazilândia em agosto, foi adiada, a pedido dos organizadores, para novembro. A mudança marcou o início da procura por outras competições para a equipe disputar entre os meses de março e outubro.
Sem alternativas, os Young Flames aceitaram dois convites. O primeiro para um quadrangular internacional e o segundo para o Campeonato Sub-17 da Cecafa, associação que engloba países da região leste do continente. Em ambos, os resultados alcançados não foram positivos. Um terceiro lugar e uma vaga nas quartas de final foi o máximo que conseguiram os comandados de John Kaputa, mesmo brigando com seleções que não estarão no Mundial.
O fato preocupa os dirigentes, que, sabedores das deficiências de seu time, iniciaram logo após o fim do qualificatório um programa para a identificação de novos talentos ao redor do país. O diretor da entidade, Jack Chamangwana, lendário jogador local, percorreu uma série de lugares atrás de garotos com potencial para compor a equipe e encontrou, segundo ele, cerca de cinco nomes.
Eles se juntaram a uma base que já vem treinando junta há praticamente dois anos e apresenta como grandes promessas Andy Simkonda, Luka Milanzie e Kelvin Hanganda. Os três atuam, todos, entre o meio-de-campo e o ataque e mostram por que a defesa é o setor que mais preocupa o técnico John Kaputa. Se a linha de frente, que estará desfalcada de Lawrence Milanzie, flagrado em um exame de idade óssea, conseguir dar conta do recado, os problemas na retaguarda serão, ao menos na teoria, amenizados.
Na reta final da preparação, a comissão técnica desejava realizar os últimos treinos na Alemanha, mas, em virtude de dificuldades financeiras, não pôde concretizar esse plano. Foi salva por um convite de uma academia inglesa, que se propôs a receber a equipe e arcar com todos os seus custos. Assim, Kaputa, que já comandou também as seleções principal e sub-20 do país, teve a chance de dar a seus jogadores um pouco de rodagem fora do continente.
Curtas
- ELE PROMETE IR À CAÇA...
Luka Milanzie. A promessa do Escom é uma das principais apostas do técnico John Kaputa. Divide o ataque com Andy Simkonda e já treinou com a seleção principal. Foi uma das revelações da campanha do país no Campeonato Africano Sub-17. Goza de prestígio no futebol local e tenta atrair o interesse de outros centros nos gramados nigerianos.
- NÃO DEVERÁ PASSAR DE UMA MIRAGEM...
Mike Kaziputa. Com passagens pela equipe principal e sub-20, Mike Kaziputa já pode se considerar um veterano em seleções. Mas, a despeito da moral que possui, precisa adotar uma postura diferente caso queira confirmar o seu talento. Membro do elenco que conquistou a histórica classificação para o Mundial, já foi cortado de uma convocação do time adulto por indisciplina.
- O PROFETA...
Victor Nangwale. Mesmo preocupado com o sistema defensivo, o treinador John Kaputa sabe que pode contar com o goleiro Victor Nangwale para garantir a segurança do setor. O jogador de 16 anos foi um dos destaques do time em sua preparação para o Mundial. Brilhou no Campeonato Sub-17 da Cecafa e teve o seu desempenho elogiado no retorno para casa.
- O FARAÓ...
Andy Simkonda. Ser apontado por imprensa e torcedores como o responsável pelo maior feito da história do futebol de um país não é para qualquer um. E com 16 anos, então... Mas Andy Simkonda já provou essa sensação após marcar inúmeros gols no Campeonato Africano Sub-17. Agora ele tentará atingir outro nível na Nigéria. No centro de uma disputa que reuniu os principais clubes locais, o atacante pode entrar no radar dos europeus.
Elenco*
GOLEIROS
Victor Nangwale (Blackpool) - 12/10/1993
Cuthbert Seengwa (Kawale) - 19/04/1992
Jailosi Kapalamula (Nchalo United) - 12/01/1993
DEFENSORES
Issa Takondwa (Kamuzu Barracks) - 07/07/1993
Francis Mulimbika - 27/03/1993
Bongani Kaipa - 24/11/1993
Peter Mselema (Ngowe Sec. Sch.) - 20/11/1993
Robert Simkonda - 22/02/1993
Kondwani Lufeyo (Tigers) - 12/11/1992
Pilirani Zonda - 27/11/1994
MEIO-CAMPISTAS
Patience Kalumo (Dedza Sec. Sch.) - 15/10/1994
Gilbert Chirwa - 14/02/1994
Kelvin Hanganda - 15/08/1994
Kingstone Chindebvu - 12/07/1994
Willie Saenda - 07/08/1992
Mike Kaziputa (Blackpool) - 09/10/1993
Gastin Simkonda - 26/02/1993
ATACANTES
Tonny Chitsulo (Silver Strikers) - 13/08/1993
Andy Simkonda (Moyale) - 02/05/1993
Luke Milanzi (Eagle Strikers) - 04/12/1994
Maxwell Mwanyongo - 02/08/1993
*Dados não localizados.
Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008
Triares