Pedro Venancio - 19/10/2009
Atuais vice-campeões mundiais sub-17, os espanhois chegam à Nigéria para encontrar o título perdido nos pênaltis para os atuais anfitriões há dois anos atrás, na Coreia do Sul. Na ocasião, eles contavam com jogadores como Bojan, Iago Falqué, Fran Mérida, Nacho Camacho, Sergio Tejera, entre outros. A campanha durante aquele torneio foi irrepreensível, e a derrota na final, além de ter impedido o inédito título, deixou, em muitas pessoas que acompanharam a competição, uma sensação de injustiça.
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Isso porque, além de ter apresentado um futebol mais vistoso do que os campeões, a Fúria perdeu mais uma oportunidade de conquistar um título inédito, o único que falta na base. Os espanhóis já faturaram o Mundial Sub-20, em 1999, e as Olimpíadas em 1992. Com o vice-campeonato de 2007, eles já somam três na categoria. Os outros foram em 2003, quando Cesc Fàbregas apareceu para o mundo como atacante, artilheiro do campeonato e melhor jogador, mas o Brasil ficou com o título, e em 1991, quando Gana sagrou-se campeã.
Nas três oportunidades, o técnico da equipe era Juan Santisteban, que se aposentou no ano passado após 20 anos de serviços muito bem prestados à Federação Espanhola, no comando das seleções sub-16, sub-17 e sub-18. Nos sete Mundiais Sub-17 em que comandou a Fúria, Santisteban apresentou ao mundo e comandou parte do processo de evolução de jogadores como Iker Casillas, Fernando Torres, David Silva, Andrés Iniesta, Pepe Reina, entre outros.
Para este Mundial, o título é a única meta a ser alcançada. A imprensa local e a torcida vão acompanhar atentamente a competição e, apesar de saberem que o mais importante na base é revelar jogadores, certamente estão cansados de bater na trave. E o fracasso da seleção sub-20 no Mundial do Egito, somado à perda da hegemonia da base europeia para os alemães aumentam ainda mais a pressão sobre uma geração que individualmente já se mostrou muito talentosa, mais ainda não correspondeu com resultados dentro de campo.
Síndrome do 0 a 0
Bicampeões Europeus da categoria em 2007 e 2008, os espanhóis chegaram para a Euro Sub-17 de 2009, que definiria os seis classificados do continente para o Mundial, com o status de favoritos ao bicampeonato. Ficar em terceiro no seu grupo e conquistar a vaga, então, parecia apenas uma questão de mera formalidade, e o clima de “oba oba” criado antes da competição deu a impressão de que o simples fato de entrar em campo já garantiria o passaporte para a Nigéria.
O que se viu no torneio, porém, foi completamente diferente, e mesmo com nomes badalados em seus clubes como Pablo Sarábia, Borja Bastón e Isco Alarcón, os espanhóis saíram da Alemanha, país-sede do torneio, sem marcar um gol sequer. A vaga foi conquistada com três empates por 0 a 0 contra, respectivamente, Itália, França e Suíça, e a terceira posição do Grupo A, à frente dos franceses.
A chuva de críticas sobre a equipe, obviamente, foi inevitável, e o principal atingido foi Fernando Hierro atual diretor-técnico da Federação Espanhola em todas as categorias. No cargo desde setembro de 2007, Hierro é acusado pela imprensa local de ter privilegiado o fator amizade em primeiro lugar na escolha dos treinadores das categorias de base da Fúria, em detrimento da competência dentro de campo. Os maus resultados de Juan Ramón López Caro, na seleção sub-21, Luis Milla, na sub-20, e Aitor Karanka, na sub-16, colocaram em xeque o prestígio do ex-capitão da seleção principal e do e ídolo do Real Madrid, e uma reformulação em curto prazo já começa a ser cogitada no país.
Depois da Euro Sub-17, os espanhóis só se reuniram duas vezes para períodos de treinos, que deram a oportunidade para o técnico da equipe, Ginés Meléndez, de fazer alguns ajustes táticos e observar alguns jogadores que não participaram do torneio continental. Na fase final de preparação, foram marcados dois amistosos contra a Colômbia, que também irá ao Mundial.
No primeiro deles, disputado no último dia 15, vitória espanhola por 3 a 0, com dois gols do atacante reserva Álvaro Morata, do Real Madrid, e um do meia Adriá Carmona, do Barcelona. O segundo jogo acontece nesta segunda-feira, dia 19. O resultado animou Meléndez, que, entre outros cargos, já foi assistente de Santisteban, e comandou a seleção espanhola no Mundial Sub-20 de 2007. Seu histórico foi capaz de blindá-lo das críticas dirigidas aos colegas supracitados, mas as falta de pontaria dos atacantes da Fúria na Euro não foi perdoada por quem acompanhou o torneio.
Consistência defensiva
Se o ataque espanhol não funcionou na Euro Sub-17, o setor defensivo segurou as pontas e não levou nenhum gol na competição, além de ter demonstrado muita solidez, sem ter passado por muitos momentos de perigo. O goleiro Edgar Badia, se não mostra o mesmo potencial do astro sub-20 Sergio Asenjo, ao menos é seguro debaixo das traves e passa confiança para os companheiros.
Na linha de defesa, quem comanda as ações é Marc Muniesa, zagueiro que já atuou pelos profissionais do Brarcelona e conta com a admiração confessa de Pep Guardiola, que já o classificou como o “próximo tesouro das canteras do clube”. Ele forma dupla de zaga com Sergi Gómez, também do Barça, onde também joga o bom lateral direito Albert Dalmau. O lateral esquerdo Jon Aurtenexe, do Athletic Bilbao, é o único não-catalão no setor, embora ainda dispute posição com o versátil Albert Blázquez, do Espanyol, que é capaz de atuar dos dois lados do campo.
Quem também já estreou em La Liga é o segundo volante Koke, do Atlético de Madrid. Habilidoso, veloz e incansável, ele foi o capitão da equipe na Euro Sub-17, e contará com a ajuda de Alex, do Real Madrid, ou Adriá Carmona, do Barcelona, que ainda disputam posição, para garantir a consistência do meio-campo. Ao rápido e elegante meia Kevin Lacruz, que atua pelo time de cima do Zaragoza, cabe a função de criar jogadas e recompor a equipe, em caso de perda da posse de bola.
Quem atrai as atenções do mundo inteiro, porém, é Iker Muniaín, do Athletic Bilbao. Winger direito do 4-2-3-1 de Meléndez, Muniaín quebrou o recorde de jogador mais jovem a marcar um gol em La Liga, aos 16 anos e 189 dias, no dia 4 de outubro, contra o Valladolid. Reserva durante a Euro Sub-17, ele ganhou, durante o interlúdio entre as duas competições, a posição de Pablo Sarabia, do Real Madrid, e é um dos candidatos a craque do torneio. Do outro lado, o habilidoso Isco Alarcón, do Valencia, também tem um bom histórico na base espanhola e poderá ser muito útil durante o Mundial.
No ataque, um solitário e goleador Borja Bastón luta para recuperar o prestígio perdido na Euro Sub-17 e convive com a sombra do supracitado Álvaro Morata, que cresceu muito de uns tempos para cá e é o principal responsável pela ausência do também merengue Rubén Sobrino, reserva de Bastón no torneio continental.
Se conseguirem resolver o problema da escassez de gols, os espanhóis serão candidatos reais ao título na Nigéria e, muito em breve, alguns desses jogadores aparecerão como rising stars em seus clubes, provando que o trabalho de base no país, apesar de confuso nos últimos tempos, continua sendo muito bem feito.
Curtas
ELE PROMETE IR À CAÇA...
Borja Bastón. Depois de decepcionar na Euro Sub-17, o centroavante do Atlético de Madrid terá, na Nigéria, a oportunidade de se redimir trazendo um título inédito para o seu país. Comparado frequentemente a Fernando “Niño” Torres, ele já quebrou alguns recordes de gols na base Colchonera, e seu debut entre os profissionais já é aguardado com certa ansiedade pela torcida. Sua carreira, porém, é constantemente atrapalhada por lesões musculares que afetam seu processo de evolução como jogador.
NÃO DEVERÁ PASSAR DE UMA MIRAGEM...
Pablo Sarabia. Cobiçado pelo Arsenal em 2007 e titular da seleção na Euro Sub-17 desse ano, Sarabia perdeu o lugar no time para o rising star Iker Muniaín e terá que trabalhar muito para recuperar o prestígio que já teve com Meléndez. Canhoto e habilidoso, o meia deixou de ser uma das estrelas do time para se tornar apenas uma boa opção de segundo tempo, o que é pouco para quem surgiu como um craque em potencial. Ele tem, no Mundial, a chance de se recuperar de algumas atuações apagadas e dar uma “dor de cabeça” ao comandante espanhol.
O PROFETA...
Koke. Mais um produto da excelente escola de segundo volantes – ou meias-armadores, o nome não importa muito - espanhóis, Koke impressiona pela capacidade física e pela maturidade demonstrada dentro de campo e nas declarações fora dele. Capitão da Fúria na Euro Sub-17, o meia do Atlético de Madrid é o “motorzinho” da equipe, se apresentando com frequência para o jogo e movimentando-se com muita intensidade pelo campo. Se mantiver o atual nível de exibições, ele poderá, muito em breve, figurar entre os profissionais do clube com regularidade.
O FARAÓ...
Iker Muniaín. Depois de surpreender o mundo em 2007, quando, aos 14 anos, foi relacionado para a pré-temporada da equipe principal do Athletic Bilbao, Muniaín finalmente fez sua estreia na equipe de cima no início dessa temporada e vem quebrando recordes de precocidade dia após dia. Habilidoso, rápido e muito oportunista, pode jogar como atacante, se necessário, e tem, no Mundial, a oportunidade de provar, dentro de campo, que é um dos maiores talentos de sua geração.
Elenco
GOLEIROS
Edgar Badia (Espanyol) – 12/02/1992
Julen Celaya (Real Sociedad) – 13/10/1992
Yeray Gómez (Mallorca) - 10/06/1992
DEFENSORES
Albert Blázquez (Espanyol) – 21/01/1992
Jon Aurtenetxe (Athletic Bilbao) – 03/01/1992
Sergi Gómez (Barcelona) – 28/03/1992
Marc Muniesa (Barcelona) – 27/03/1992
Albert Dalmau (Barcelona) – 16/03/1992
Jordi Amat (Espanyol) – 13/03/1992
MEIO-CAMPISTAS
Jorge Resurreccion “Koke” (Atlético de Madrid) – 08/01/1992
Alex Fernandez (Real Madrid) – 15/10/1992
Adriá Carmona (Barcelona) – 08/02/1992
Javier Espinosa (Barcelona) 19/09/1992
Mohamed Kamal (Real Madrid) – 09/03/1992
Pablo Sarabia (Real Madrid) – 11/05/1992
Sergi Roberto (Barcelona) – 07/02/1992
Kevin Lacruz (Zaragoza) – 13/02/1992
ATACANTES
Iker Muniaín (Athletic Bilbao) – 19/12/1992
Borja Bastón (Atlético de Madrid) – 25/08/1992
Isco Alarcón (Valencia) – 21/04/1992
Álvaro Morata (Real Madrid) – 23/10/1992
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