Dassler Marques e Maurício Vargas - 04/11/2009
O Mundial Sub-20 do Egito definitivamente foi um sucesso e não só entre a população brasileira. Essa boa aceitação encheu de otimismo para a disputa do Mundial Sub-17, mas o fato é que a versão juvenil da Copa do Mundo, até aqui, é um fiasco. Por ora, a expectativa é que a fase de mata-mata traga bons jogos, capazes de reverter o fracasso da competição.
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Os problemas na Nigéria começam na organização e vão até mesmo a fatores climáticos, já que a chuva torrencial prejudicou algumas partidas do Mundial, desde a abertura entre Argentina e Honduras. Em campo, o nível técnico também não chamou a atenção do público.
É possível dizer que as más exibições de Brasil e Holanda, duas das principais favoritas, já eliminadas, e tradicionalmente entre as mais que mais encantam pelo bom futebol, também influa nesse desinteresse. O único país a efetivamente dar show na fase de grupos foi a Espanha, o que não é exatamente novidade. Resta, por ora, aguardar o que será da Fúria na hora do mata-mata. E também o que trarão as partidas decisivas como um todo.
O Olheiros aproveita e pede desculpas pelo atraso no especial, que deveria ter ido ao ar na última terça-feira, mas foi prejudicado pelos problemas técnicos com o site. Sem mais delongas, vamos ao que houve de melhor – e também pior – na primeira fase. (DM)
Domínio europeu
Maiores campeões da categoria, os africanos têm se acostumado a fazer a festa na casa dos outros. Desta vez, entretanto, foi exatamente o contrário: dos seis campeões de grupo, quatro foram europeus, ao passo que três dos representantes do continente negro terminaram na lanterna de suas chaves. Curiosamente, Alemanha e Holanda, finalistas do Europeu Sub-17, foram os que tiveram as piores campanhas dentre os seis times da região.
De um time que não saía do zero no qualificatório a dona do ataque mais positivo da primeira fase, a Espanha teve a melhor campanha das 24 seleções e uma trajetória muito sólida, abalada por apenas 18 minutos – foi este o tempo entre o gol do estadunidense McInerney, na estreia, e o empate de Borja, que deu início à virada, mesmo com um homem a menos. Desde então, o time de Gines Melendez nunca pareceu passível de tropeços e, embora não tenha feito grandes exibições, deixou bem clara a diferença de nível nas vitórias por 3 a 1 sobre os Emirados Árabes e 4 a 1 sobre o Malaui.
A coesão e fluência de jogo características da equipe principal também apareceram na equipe de base e, somadas ao talento individual de nomes como Isco (autor de um golaço contra os Emirados Árabes), credenciam a Fúria à conquista do título que por pouco escapou há dois anos. Isso sem falar nos nomes mais baladados, como Muniain, Sarabia, Carmona e Borja, que também marcaram seus gols, transformando o ataque espanhol em uma artilharia bastante solidária.
Solidariedade que poderia resumir em uma palavra a campanha suíça na primeira fase. Única outra equipe a conquistar três vitórias, a Nati surpreendeu muitos ao vencer um grupo forte em que eram até considerados azarões. Mas os comandados de Dany Ryser só surpreenderam quem não acompanhou o Europeu: um time muito equilibrado, de defesa extremamente sólida (o ataque brasileiro que o diga) e de jogadores que, se não primam pela qualidade técnica, sobram em aplicação tática e domínio de fundamentos essenciais como passe e posicionamento. Como destaques, a mortal dupla de ataque Seferovic e Ben Khalifa e o zagueiro Veseli.
Os outros europeus que fizeram bonito foram turcos e italianos. A Itália mostrou a burocracia de sempre na estreia, vencendo a Argélia apenas por 1 a 0, mas uma exibição convicente na virada sobre a Coreia do Sul (em um dos melhores jogos da primeira fase) mostrou que os Azzurini são mais que os espasmos de De Vitis e Beretta. Pietro Iemmello, atacante que saiu da reserva para marcar o gol da virada, mostrou grande qualidade. Já a Turquia teve na dupla Demir e Bekdemir (que não é sertaneja) sua inspiração: juntos, marcaram 4 dos 6 gols que valeram a primeira colocação em um fraco grupo D.
Finalmente, os anfitriões nigerianos saíram com moral do grupo da morte, empatando com a Alemanha e vencendo Argentina e Honduras para terminarem em primeiro. Ainda assim, o que se viu foi novamente um futebol mais de força física e aplicação tática que verdadeiramente qualidade técnica – receita que deu certo na Coreia do Sul e que, em casa, não teria porque mudar. Embalados pela torcida, os nigerianos devem ir mais longe do que mereciam. (MV)
Brasil e Holanda decepcionam e caem fora
Em uma competição de 24 seleções que nada menos que 16 avançam as oitavas, é difícil imaginar zebras tão prematuras. Ainda assim, o Brasil, campeão sul-americano, e a Holanda, vice campeã europeia, conseguiram ficar pelo caminho e sequer chegar na segunda fase.
O Brasil de Lucho Nizzo começou o Mundial vencendo aos trancos e barrancos. Pegou o Japão na estreia e sofreu um bocado. Se arriscando na frente, cansou de levar contra-ataques que testavam a segurança do goleiro Allison. No segundo tempo, o jogo estava empatado em 1 a 1, mas aí surgiu o raro momento de brilho no torneio: graças à linda combinação de Coutinho e Neymar, que concluiu com drible da vaca no goleiro japonês.
Um vacilo na linha de impedimento, no entanto, deu o empate para os asiáticos, que só caíram no último lance por causa de um frangaço do goleirão Kamita após falta batida por Wellington. A partir dali, ficava evidente a dificuldade brasileira em controlar o jogo, se resguardar na defesa, e impor sua melhor condição técnica.
Em seguida, na pior apresentação no Mundial, o Brasil caiu categoricamente diante do México. Os aztecas dominaram os brasileiros, desligados e pouco inspirados, ao longo de toda a partida. Allison, de tão acionado, acabou falhando feio no único gol, anotado por Miguel Basulto. Àquele momento, já se faziam sentir as ausências de Romário e Dodô entre os titulares, enquanto Crystian, Romário Leiria, Elivélton e João Pedro decepcionavam.
Precisando só de um empate para garantir a classificação, o Brasil viveu um dia de pouca sorte contra a Suíça, semifinalista do Europeu Sub-17. Com seis pontos na competição, os suíços bateram os brasileiros e fecharam a primeira fase do Mundial com 100%. Mas, na prática, foram os brasileiros que dominaram toda a partida.
O clima de desespero tomou conta já aos 21min, quando Bem Khalifa anotou após jogada de de escanteio bem parada por Allison, em dia de redenção. A partir disso, foi um massacre dos brasileiros, que acertaram a trave e viram os suíços tirarem uma bola de cima da linha. Só os critérios de desempate salvariam a classificação do Brasil, que acabou eliminado por um cartão amarelo a mais, apenas pela segunda vez em toda a história do Mundial Sub-17.
A eliminação brasileira foi seguida pelos holandeses, que deram vexame. No primeiro jogo diante da Colômbia, que bateu o Brasil no Sul-Americano, vitória dos cafeteros por 2 a 1, apesar do gol de pênalti anotado por Ozyakup. Apesar de bater Gâmbia pelo placar da abertura e dar a sensação de que avançaria ao natural, a Jong Orange foi surpreendentemente batida pelo Irã. Em jogo franco, Milad Gharibi mandou a Holanda pra casa. (DM)
Irã e Nova Zelândia fazem história
Mundial Sub-17 sem zebra não é Mundial Sub-17, e a história comprova isso com campanhas incríveis como as de Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Omã e Burkina Faso, no passado. Mas no presente novos capítulos de uma exceção que já virou regra foram escritos.
Campeão asiático, o Irã usou a defesa para se classificar para o Mundial e tinha o discurso pronto de que esta seria a mesma arma. Mas pouca gente deu bola, ainda mais com a favorita Holanda e a interessante Colômbia no mesmo grupo. Pois bem. Após terminarem na lanterna sua única participação em Mundiais Sub-17 (em 2001, quando sequer pontuou), os iranianos aprontaram logo de cara, vencendo Gâmbia por 2 a 0.
Até aí tudo bem, afinal os gambianos vinham desfalcados e o goleirão ajudou consideravelmente. No jogo seguinte, um resoluto time iraniano segurou por 90 minutos o empolgado ataque colombiano, em um gramado castigado pela chuva que interrompeu a partida por quase uma hora. Mas o maior choque estava viria na terceira rodada: em um lance rápido, a defesa holandesa parou pedindo impedimento e Milad Gharibi marcou o gol da vitória sobre os desesperados favoritos, que acabaram eliminados. Ao final, liderança do Grupo C com a melhor defesa da competição, única a não ser vazada.
Outra grande surpresa, a Nova Zelândia conseguiu uma classificação histórica: avançou como um dos melhores terceiros colocados com três pontos e saldo de gols zerado, superior ao de Brasil e Holanda. O curioso é que os All Whites marcaram três gols e sofreram três e avançaram sem nenhuma vitória. Com três empates por 1 a 1 e três pontos, a classificação neozelandesa mostra o quanto pode ser traiçoeiro um regulamento que permite o avanço de 16 equipes entre 24.
Afinal, alguém duvida que Brasil e Holanda têm times melhores que Nova Zelândia ou Emirados Árabes? Ainda assim, os emirenses também avançaram, mesmo perdendo para Espanha e Estados Unidos. Com números idênticos aos de brasileiros e holandeses, os asiáticos se classificaram – acredite – porque levaram cinco cartões amarelos contra seis dos adversários. Faltou pouco, como se vê, para que a última vaga nas oitavas fosse decidida na sorte, na base da moedinha.
Sorte, aliás, que faltou à Costa Rica. De semifinalistas no Mundial Sub-20, os Ticos levaram sonoros 4 a 1 de Turquia e Burkina Faso e só empataram com a Nova Zelândia, em um resultado que pode ser considerado uma quase-zebra. Os burquinenses, que terminaram em segundo, foram os outros africanos a se classificar e, apesar da pouca disposição para defender, atacam como poucos e foram quem mais chutou a gol na primeira fase: 68 arremates em três partidas. Dá para pensar em seguir surpreendendo e repetir 2001, quando caíram na semifinal. (MV)
Problemas e mais problemas
O que não começa bem dificilmente termina bem. É o caso do Mundial da Nigéria, que foi motivo de preocupação da Fifa nos últimos meses. Foi só a bola rolar para os problemas se confirmarem, mostrando que competições de grande porte são uma responsabilidade grande demais para países subdesenvolvidos.
É verdade que os fatores climáticos prejudicaram e muito. Já na estreia, entre Argentina e Honduras, a chuva caiu pesado na Nigéria, evidenciando as limitações no sistema de drenagem. Os problemas foram tantos que o jogo entre Espanha e Estados Unidos precisou ser paralisado por 14 minutos por uma pane elétrica, justificada pelo comitê nigeriano como uma falha na cabine de alimentação. No Grupo D, sediado em Enugu, algo pior ainda: a chuva caía tão forte durante a partida entre Turquia e Costa Rica que o jogo precisou ser adiado para o dia seguinte, já que a drenagem não aguentou. De qualquer forma, algo impensável em uma competição Fifa.
O Mundial, que ainda não tem públicos tão empolgantes quanto ocorreu com o Sub-20 no Egito, sofre até boicote político na própria Nigéria. (DM)
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