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O brilho do Figo das Caxinas

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Lincoln Chaves - 16/11/2009

É difícil um jovem se firmar em um time grande português, em razão da pressão por vitória. É ainda mais complicado se chegar à seleção do país sem se ter a devida experiência — ou uma qualidade indiscutível. Até por isso, a entrada do benfiquista Fábio Coentrão, 21 anos, aos 24 minutos da segunda etapa do jogo entre Portugal e Bósnia, partida de vida ou morte para a seleção das Quinas, é significativa. Nem tanto pela exibição — que, na verdade, foi discreta —, mas pelo reconhecimento à rápida evolução de um jogador antes apontado como indisciplinado e emocionalmente limitado, mas que, amadurecido, mostra que o apelido do início de carreira — “Figo” das Caxinas, em alusão à região em que nasceu — pode não ser mera formalidade.

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A convocação não se deu por acaso, embora tenha sido questionada por alguns torcedores. Coentrão, contratado pelo clube da Luz em 2007 após se destacar pelo Rio Ave e no Mundial Sub-20, conseguiu, enfim, firmar-se como titular no forte Benfica de 2009/10, a ponto de ser o jogador com mais assistências no elenco até o momento, à frente, por exemplo, de atletas com perfil mais organizador, como Di Maria e Pablo Aimar. Quem têm agradecido são os atacantes Cardozo e Saviola, que têm feito do clube lisboeta uma máquina de fazer gols na atual temporada. Justamente um perfil em falta na seleção portuguesa, o que reforça a coerência da convocação do meia-esquerda do Benfica para os jogos decisivos contra a Bósnia.

O cenário que vive Coentrão hoje, porém, é muito distinto do que lhe era desenhado nos últimos dois anos, curiosamente, desde que chegou ao próprio Benfica. Aos 19 anos, ainda era “muito jovem” para ganhar mais oportunidades — o que é uma realidade do futebol local. Ainda sem força física e maturidade, começou a ser emprestado para que adquirisse experiência, passando por Nacional, Real Zaragoza e, novamente, Rio Ave. O problema é que, da mesma forma em que se exibia de maneira excepcional em algumas ocasiões, como em uma goleada nacionalista sobre o Porto, no Dragão, por 3 a 0, quando marcou duas vezes, demonstrava, externa e internamente, um total despreparo para o ambiente adulto, profissional.

O momento mais crítico se deu quando o jogador esteve na Espanha. Embora já estivesse longe dos pais há um tempo, estaria, dessa vez, sozinho, aos 20 anos, inexperiente em todos os sentidos. Após comportamentos desleixados fora de campo, e poucas oportunidades dentro dele, Coentrão não durou seis meses no Zaragoza: foi dispensado por Marcelino Garcia, então treinador dos Blanquillos, e voltou desconfigurado ao Benfica. Veio então o empréstimo ao Rio Ave, clube que o revelou, no que o ajudou a recuperar a confiança no futebol que sabia jogar. O problema é que, em junho, voltaria à Luz, ainda sem saber o que dele seria feito para a temporada.

Eis que surgiu Jorge Jesus, treinador que mudou a cara do Benfica, e, mesmo já possuindo nomes como Di Maria, Saviola, Cardozo, Nuno Gomes, Weldon, Aimar e, futuramente, Keirrison, afirmou querer Fábio Coentrão no grupo. A confiança do técnico, com quem a jovem promessa conversou muito ao longo dos últimos meses, o apoio do ídolo português Rui Costa, e a assimilação de que aquele era, enfim, o momento de sua carreira deslanchar (ou naufragar) de vez, incendiaram o jogador, que se firmou como uma peça importante no esquema desenhado por Jesus, sendo um verdadeiro coringa em campo. Prova disso é que, independente da variação tática, Coentrão está com lugar na equipe, seja como ponta-esquerda, meia-atacante e até lateral esquerdo — como tem atuado, deixando para trás o antigo titular, Shaffer.

Fábio Coentrão é um exemplo de uma conclusão que pode ser depreendida da reportagem sobre o trabalho de transição das categorias de base ao time profissional em Portugal, que este colunista teve a oportunidade de fazer: em terras lusas, mais do que capacidade ou habilidade, o psicológico é fundamental. Caso Quique Flores, que já tinha declarado não querer Coentrão na equipe, fosse mantido no cargo, muito provavelmente o garoto não estaria brilhando como está, nem teria conquistado sua primeira oportunidade na seleção nacional, mesmo com as boas exibições que vinha tendo pela seleção sub-21, que pena nas Eliminatórias para o Europeu da categoria.

Os mais supersticiosos já relacionam o fato de o jogador ter entrado em campo com a camisa 7, que é de Cristiano Ronaldo e foi de Figo. Claro, ainda é cedo, até porque, mais jovem, Ronaldo já era um dos melhores do mundo, e o segundo já era ídolo na seleção das Quinas. No entanto, Coentrão, ainda que de forma tardia, dá, enfim, os primeiros passos em um patamar mais acima. A nova cláusula de rescisão contratual, avaliada em 30 milhões de euros, a convocação de Queiroz e os elogios da exigente torcida do Benfica evidenciam que, enfim, é a hora do “Figo” das Caxinas fazer jus ao apelido. Pelo menos, começou a seguir o caminho para isso.



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