Olheiros | porque o mundo do futebol se renova

Coberturas especiais

Review do Mundial Sub-17

Assine nosso RSS

Gabriel Dudziak e Pedro Venancio - 16/11/2009

No Mundial Sub-17 das decepções, afirmações, desorganizações e zebras, o que não faltou foi emoção. Assim como também não faltaram boas disputas, principalmente na fase de mata-mata, e gols, muitos gols. Foram 150 em 52 jogos, média de 2,88 por partida. Além das redes balançando, também vimos na Nigéria os talentos e a habilidade de jogadores como Gallegos, Polenta, Borja, Isco, Sarrabia, Emmanuel, Siegrist, Ben Khalifa, Seferovic e muitos outros jovens com grandes chances de despontar e aparecer para o futebol nos próximos anos.

>>> Confira todos os detalhes da cobertura do Mundial Sub-17
>>> Coentrão se recupera no Benfica e chega na seleção

Entre as seleções que brilharam na disputa deste ano, os principais destaques foram as ofensivas e finalistas Suíça e Nigéria, mas outras equipes também tiveram  motivos para saírem satisfeitas com o futebol apresentado na Nigéria. Foram os casos de Colômbia, Espanha e Uruguai, que mesmo não chegando à final cumpriram as expectativas e mostraram grandes talentos para o futuro, e de Irã, Turquia, Coreia do Sul e Nova Zelândia, que atingiram seus objetivos e deram um importante passo rumo ao desenvolvimento de seu futebol.

Mas se por um lado o Mundial mostrou ao mundo uma série de atletas e equipes capazes de grandes feitos no futuro, por outro colocou pontos de interrogação sobre algumas figuras. Entre os fracassos nenhum foi mais retumbante do que o do Brasil. Com uma equipe forte, credenciada pelo título do Sul-Americano e reforçada por Neymar, a expectativa era de show e briga pelo título. No entanto, o que se viu foi um time desarrumado e que sentiu a falta de um camisa 9. Resultado: eliminação na primeira fase. Um duro golpe em uma geração que era tratada como superior à sub-20. Quem também ficou muito longe de render o esperado foram a Holanda, que não conseguiu passar da fase de grupos, e a Argentina, que caiu nas oitavas de final.

Também faltaram motivos para sorrir aos próprios organizadores do Mundial. Alvo de preocupações da FIFA desde antes do início da disputa, o torneio comprovou as expectativas ruins e sofreu com graves problemas de infraestrutura e organização. Na partida entre Espanha e EUA uma pane elétrica suspendeu o jogo por 14 minutos, enquanto as fortes chuvas e a baixa capacidade de drenagem dos campos nigerianos levaram ao adiamento da disputa entre Turquia e Costa Rica. Sem falar nas constantes, e irritantes, quedas de sinal da transmissão e na falta de empolgação do público local, que deixou estádios vazios e foi endossada por um boicote político contra a competição. (Gabriel Dudziak)

Suíça surpreende e fatura seu primeiro título FIFA

Antes do início do Mundial, o técnico da Suíça, Danny Ryser, já esfregava as mãos com a possibilidade de encarar, a exemplo do Europeu da categoria, mais um torneio em que seu time chegava como azarão. "O papel de mais fraco me agrada muito, pois podemos surpreender”, afirmava o treinador. Pois nem Ryser deve ter acreditado quando viu que a surpresa poderia ser deste tamanho.

Com um futebol entrosado, ofensivo e envolvente, os estreantes suíços logo começaram a dar mostras de que poderiam fazer mais do que apenas passar da fase de grupos. Na chave B bateram o México por 2 a 0, viraram pra cima do Japão em um emocionante 4 a 3 e venceram com autoridade - e um certo sufoco - a seleção brasileira por 1 a 0. Resultado; três vitórias em três jogos, sete gols marcados, três sofridos e a segunda melhor campanha da primeira fase, atrás apenas da Espanha.

Daí em diante as principais figuras suíças cresceram e o time realizou grandes partidas. Nas oitavas a Nati foi capaz de ficar à frente da Alemanha por duas vezes nos 90 minutos, mas acabou decidindo a partida só na prorrogação, vencendo por 4 a 3. Nas quartas, nem mesmo a Itália foi páreo para o poderio ofensivo de Ben Khalifa, Seferovic e companhia, e perdeu por 2 a 1. Já na semifinal um sonoro 4 a 0 mandou a Colômbia pra casa mais cedo e deu confiança para a equipe suíça encarar a Nigéria. No confronto decisivo os comandados de Ryser abandonaram um pouco o futebol de ataque, mas foram cirúrgicos. Na melhor oportunidade que tiveram, Seferovic marcou e garantiu o título inédito para seu país. O primeiro da Suíça em um torneio FIFA, independente da idade e gênero.

Além da mortal dupla de ataque formada por Ben Khalifa e Seferovic, responsável por nove dos 18 gols da Suíça no torneio, outros jogadores também mostraram um futebol de alto nível no time de Danny Ryser. Os principais destaques do ataque para trás foram os laterais André Gonçalves e Ricardo Rodriguez, que aliaram compostura defensiva com força no apoio, o zagueiro Veseli, o volante Buff e o goleirão Siegrist, que "operou" milagres durante a competição e, não à toa, foi eleito o melhor arqueiro do Mundial. (Gabriel Dudziak)

Nigéria: Sem o bi, e sem o tetra

Campeões em 2007, e também em 1993 e 1985, os nigerianos tinham tudo para conquistar novamente o título e assumir de vez a hegemonia da categoria, que atualmente dividem com o Brasil. Seria, simultaneamente, um bi e um tetracampeonato que levaria a empolgada torcida que compareceu ao Estádio Nacional de Abuja ao delírio. Mas, apesar da derrota em casa na decisão, a campanha nigeriana é digna de muitos aplausos.

Primeira colocada do grupo A, a equipe começou a segunda fase com uma goleada por 5 a 0 contra a Nova Zelândia, usando e abusando da velocidade de Okoro, Emmanuel e Egbedi. A tranquila vitória sobre a Coreia do Sul os colocou, novamente, frente a frente com a Espanha, adversária da decisão de 2007, dessa vez nas semifinais. Vencedores nos pênaltis há dois anos, os nigerianos não deram chance de vingança e aplicaram 3 a 1 com muita naturalidade. 

Pela tradição das duas equipes na categoria, o jogo contra os espanhóis era encarado por muitos como a final antecipada do torneio, e a vitória confortável reforçou ainda mais essa impressão para a imprensa e a torcida local. A vaga na final estava garantida, e o título, ao que tudo indicava, também. Mas, do outro lado, havia a Suíça, Seigrist e Seferovic, e a festa do tetra vai ter que esperar pelo menos até 2011. 

Considerando todos os problemas enfrentados pela equipe – mudança de treinador, descoberta de “gatos” no elenco, a contínua suspeita sobre a idade de alguns outros jogadores que continuaram no time e a desorganização do torneio -, o vice-campeonato pode ser considerado um resultado satisfatório. Além de sacramentar o talento de Stanley Okoro, a seleção nigeriana apresentou Sani Emmanuel ao futebol mundial, e o tempo se encarregará de dizer se os dois serão craques ou ficarão pelo caminho.

O goleiro Dami Paul, porém, pode ser considerado mais um exemplo da política equivocada de recrutamento de goleiros no país. Com apenas 1.73m, Paul não  é o primeiro baixinho a defender a seleção nigeriana em uma competição oficial da FIFA, e é inegável que, por mais politicamente correto que seja o discurso de que “o que importa é o talento, não a altura”, uns centímetros a mais fazem falta para um camisa 1. (Pedro Venancio)

Belos coadjuvantes

Para chegar à decisão, Suíça e Nigéria deixaram para trás, nas semifinais, duas seleções que, há pelo menos uma década, fazem boas campanhas no Mundial da categoria. Os espanhóis, octacampeões europeus sub-17, três vezes vice-campeões mundiais e donos de uma linha de frente poderosíssima, venceram a Colômbia por 1 a 0 na decisão do terceiro lugar e completaram, merecidamente, o pódio do torneio.

Os colombianos, que protagonizaram vitórias épicas contra argentinos e turcos para chegar às semifinais, mostraram muita raça durante o torneio, mas sucumbiram à superioridade técnica dos adversários pela vaga na final. E com a confirmação do título suíço, eles passam a ser vítima de uma incrível coincidência: nos três últimos Mundiais em que participaram, os colombianos foram eliminados pela equipe campeã – os outros algozes foram os brasileiros, em 2003, e os nigerianos, em 2007.

Os quadrifinalistas também deixaram boa impressão. O Uruguai, após passar da primeira fase e das oitavas de final aos trancos e barrancos, fez jogo duro com a Espanha e só cedeu a classificação nos pênaltis. A Turquia também cumpriu um bom papel e, após um belo início de competição, foi eliminada nos pênaltis pela Colômbia. Os italianos e os sul-coreanos, que já haviam chegado às quartas de final no Mundial Sub-20, também cumpriram um bom papel entre os juvenis e mostraram que há um trabalho consistente feito nos dois países.

Outras equipes que também tiveram bons papéis foram o Irã, que surpreendeu ao ficar com a primeira colocação de um grupo que contava com Holanda e Colômbia, e só foi perder para os uruguaios no tempo extra, e a Nova Zelândia, que se tornou a primeira seleção do país a avançar a uma fase de mata-mata de um torneio FIFA. (Pedro Venancio)

Matadores e “garçons” em alta

Em um Mundial Sub-17 recheado de gols, os destaques individuais não poderiam deixar de ser os meias e atacantes das principais equipes. Na premiação da FIFA, por exemplo, o prêmio de melhor jogador foi para o atacante nigeriano Sani Emmanuel, que, mesmo como reserva do time, também levou a “Chuteira de prata” por ter dividido a artilharia do torneio com o espanhol Borja, o uruguaio Sebastián Gallegos e o suíço Haris Seferovic, todos com cinco gols. A “Chuteira de ouro”, porém, acabou nas mãos de Borja, que também deu uma assistência no torneio, e Gallegos ficou com o troféu de bronze.

A “Bola de Prata” ficou com o excelente Nassim Ben Khalifa, que, para muitos, foi injustiçado na disputa. O nigeriano Ramon Azeez ficou com a terceira posição, à frente de seu companheiro de equipe Stanley Okoro, que fez quatro gols e conseguiu a incrível marca de seis assistências na competição. O suíço Benjamin Siegrist, como já supracitado, foi eleito o melhor goleiro e, se mantiver o nível, poderá postular uma vaga na seleção principal em um futuro muito próximo.

Entre os não premiados oficialmente, vale citar o belíssimo trio espanhol formado por Pablo Sarabia, Isco Alarcón e o badalado Iker Muniaín, que jogou bem, mas ficou abaixo dos companheiros supracitados. Sergi Roberto, do Barcelona, começou a competição na reserva, mas conquistou seu espaço na medida em que os jogos aconteciam e terminou em alta. A Colômbia apresentou ao mundo o bom meio-campista Gustavo Cuellar e o rápido atacante Fabian Castillo.

Quem também merece uma menção é o centroavante turco Muhammet Demir, que praticamente carregou sua seleção nas costas durante todo o torneio, demonstrando muita habilidade e marcando gols importantes. O atacante argentino Sergio Araujo, do Boca Juniors, justificou o interesse do Real Madrid em seu futebol com três belos gols no torneio. Pela Squadra Azzurra, quem se sobressaiu foi Federico Carraro, com dois gols e três passes decisivos. Os alemães Lennart Thy e Mario Goetze completam a lista de destaques ofensivos.

Entre os jogadores de defesa, além de Siegrist, também se destacaram os conterrâneos Frederic Veseli, líder de um talentoso e eficiente sistema de marcação, o volante Oliver Buff e o lateral direito André Gonçalves. O capitão italiano Simone Sini, o turco Furkan Seker e o uruguaio Diego Polenta também mostraram que podem brilhar em suas equipes profissionais dentro de alguns anos. (Pedro Venancio)



Colunas anteriores:

Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008

Triares