Maurício Vargas - 21/11/2009
Numa série de televisão dos anos 70, Steve Austin era um astronauta que, após um acidente aéreo, recebeu implantes biônicos de braços, pernas e um olho, que custaram seis milhões de dólares (valor então estratosférico) e transformaram-lhe em um ciborgue. À época, as idéias de futuro eram bastante diferentes da realidade que conhecemos hoje. E assim também era o futebol: não são raros os casos de grandes jogadores que se aposentaram e logo foram à falência ou morreram pobres, quase indigentes, porque ganhavam pouco e já não lhes sobrara nada ao final da carreira.
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Da mesma forma como não cumprimentamos no trabalho o nosso amigo com um braço totalmente eletrônico ou viajamos em nossas próprias naves flutuantes com ar condicionado, também o futebol de hoje parece pouco com o que se imaginava quando O Homem de Seis Milhões de Dólares ainda era transmitido. Agora, são centenas de Austins por aí, valendo cifras astronômicas e sendo considerados verdadeiras máquinas de marcar gols ou criar grandes jogadas.
Há tempos, os valores que permeiam o mundo do futebol ameaçam a formação de uma bolha: jogadores mais caros cobram salários mais altos, obrigando os clubes a aumentarem suas receitas, refletindo nas cotas de transmissão e inflacionando os patrocínios. Aí está o elo fraco: basta os anunciantes recusarem-se a pagar tais valores e a bolha estoura. Mas já estamos no final do terceiro parágrafo e o caro leitor vai perguntar “e o que o futebol de base tem a ver com isso?”. Tudo.
Com os clubes estendendo suas redes de observadores ao redor do globo, descobrir um talento precoce é fundamental para a qualidade do time no futuro e também para as finanças – contratar Alexandre Pato hoje custa muito mais do que custava há três anos. Assim, dirigentes tentam blindar suas promessas e segurá-las até que possam render uma boa negociação, num interessante e complexo cabo-de-guerra que tem várias mãos puxando de cada lado.
Interessante notar, então, os altos valores de multas rescisórias atreladas aos contratos de jovens estrelas. Em lista recente divulgada pelo portal Futebol Finance, foram analisados os vinte hot prospects sub-21 mais valiosos do mundo, baseando-se principalmente em seus desempenhos até aqui e na expectativa que cada um deles gera. Quem encabeça a lista é Sergio Agüero, melhor jogador do Mundial Sub-20 de 2007, campeão olímpico em 2008 e titular de Maradona na seleção. Seu valor? 50 milhões de euros.
Os argentinos têm outro no Top 3 – Gonzalo Higuain, atacante do Real Madrid, é o terceiro com 30 milhões. Entre eles, o francês Karim Benzema, também do Real, cotado em 40 milhões. Um trio de ouro (somados, valem 120 milhões de euros) com 21 anos de idade. Em número de indicações o Brasil lidera, com quatro nomes: Pato (€ 30 mi), Guilherme e Keirrison (€ 10 mi), além do jogador mais novo da relação – aos 17 anos, Neymar vale € 12,5 milhões, mais que o dobro de Steve Austin, nosso personagem da abertura.
Qual o impacto de valores tão astronômicos na carreira e na vida desses jovens? Já hoje, eles levam vidas muito melhores que aqueles craques do passado, com mansões luxuosas, carros potentes e muitas vezes diversas namoradas. Certamente, a pressão por resultados é enorme – algo como uma bolsa de valores futebolística, em que o desempenho no final de semana pode aumentar ou diminuir a cotação, influenciando no humor dos dirigentes, empresários e procuradores, detentores de parcelas da “ação” que se transformou o atleta.
Já é comum no mundo todo as empresas de prospecção oferecem aos clubes grandes promessas do futebol mundial. Ainda que boa parte destes garotos já esteja protegida, cedo demais, por voluptuosas rescisões contratuais, é importante ressaltar que a avaliação de um jogador desta idade é muito subjetiva, sendo influenciada por diversos fatores que podem mudar ao longo da formação, tornando às vezes um atleta barato ou caro demais e podendo minar seu desenvolvimento, se supervalorizado.
É fato que a descoberta de novos talentos é um dos principais ramos do negócio futebol. Como operadores da bolsa, os especuladores brincam de taxar os garotos, utilizando-se também dos próprios meios de comunicação, plantando boatos de interesses de grandes clubes e aproveitando qualquer nota sobre “um menino destaque no campeonato de base”.
Não se pode, porém, esquecer que, acima de tudo, esses meninos são seres humanos. Nesse aspecto, apesar de valerem bem mais que o homem de seis milhões de dólares, eles evidenciam que, mesmo no futuro, somos completamente iguais ao que éramos no passado – falíveis, sujeitos a momentos ruins e incertezas.
Os 20 jogadores sub-21 mais valiosos do mundo em 2009 , segundo a Futebol Finance
| Nome | Idade | País | Clube | Valor | |
| 1 | Sergio Aguero | 21 | Argentina | At.Madrid | 50.000.000 € |
| 2 | Karim Benzema | 21 | França | Real Madrid | 40.000.000 € |
| 3 | Gonzalo Higuain | 21 | Argentina | Real Madrid | 30.000.000 € |
| 4 | Alexandre Pato | 20 | Brasil | AC Milan | 30.000.000 € |
| 5 | Mario Balotelli | 19 | Itália | Internazionale | 30.000.000 € |
| 6 | Theo Walcott | 20 | Inglaterra | Arsenal | 25.000.000 € |
| 7 | Stevan Jovetic | 20 | Montenegro | Fiorentina | 25.000.000 € |
| 8 | Juan Manuel Mata | 21 | Espanha | Valencia | 25.000.000 € |
| 9 | Ángel Di Maria | 21 | Argentina | Benfica | 20.000.000 € |
| 10 | Miralem Sulemani | 20 | Sérvia | Ajax | 15.000.000 € |
| 11 | Bojan Krkic | 19 | Espanha | FC Barcelona | 15.000.000 € |
| 12 | Neymar | 17 | Brasil | Santos | 12.500.000 € |
| 13 | Guilherme | 21 | Brasil | CSKA Moscovo | 10.000.000 € |
| 14 | Marko Marin | 20 | Alemanha | W.Bremen | 10.000.000 € |
| 15 | Keirrison | 20 | Brasil | FC Barcelona | 10.000.000 € |
| 16 | Marko Arnautovic | 20 | Austria | Internazionale | 10.000.000 € |
| 17 | Alan Dzagoev | 19 | Rússia | CSKA Moscovo | 10.000.000 € |
| 18 | Sydou Boumbia | 21 | Costa do Marfim | Young Boys | 9.000.000 € |
| 19 | Thomas Muller | 20 | Alemanha | Bayern Munique | 9.000.000 € |
| 20 | Alberto Paloschi | 19 | Itália | Parma | 9.000.000 € |
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