Gabriel Dudziak - 20/01/2010
É inegável a afirmação de que os títulos conquistados nos últimos anos colocaram o São Paulo em uma posição de protagonista dentro do cenário futebolístico. Bem como é bastante nítido que diante da empolgação dos torcedores e do êxito de sua administração, a própria diretoria do clube se inflou de um ar de superioridade ante os demais clubes.
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Além das conquistas, uma das maiores bandeiras da gestão Marcelo Portugal Gouveia - Juvenal Juvêncio, é a de que o São Paulo é um clube "diferenciado", independente de investidores como Kia, Sonda e Traffics da vida e o mais blindado da influência dos empresários. Pois os últimos meses, especialmente os últimos dois, mostraram que a situação não é bem essa.
Já no segundo semestre de 2009 houve alguns indícios de que a tal "blindagem" não era muito efetiva. Foi quando o chileno Saavedra chegou ao clube. O zagueiro, de 21 anos, foi contratado com poucas referências, sendo seu maior feito o banco do Chile Sub-21 na disputa de Toulon.
O detalhe. Saavedra é empresariado por Juan Figer, que já há algum tempo tem trânsito no clube e que foi responsável direto pela chegada de Marlos ao Morumbi. Segundo fontes ligadas ao assunto, colocar o zagueiro no tricolor foi uma espécie de "recompensa" dada ao empresário por sua atuação no caso do meia ex-Coritiba.
No final do ano, foi a vez do São Paulo se render aos grupos donos de jogadores, com a chegada de outros dois jovens ao clube; Xandão e Fernandinho. Ambos vieram do Grêmio Barueri, mas tem seus direitos vinculados à Traffic. Ou seja, assim como os rivais, o diferenciado São Paulo se abriu à influência das empresas.
No entanto, o estopim desse domínio dos empresários ocorreu na metade de dezembro. No dia 18, o meia Oscar, cotado para ser o novo camisa 10 do Morumbi e com boas chances de figurar na equipe titular já em 2010, conseguiu na Justiça a quebra do vínculo com o clube. A alegação foi de que o contrato "só beneficiava o São Paulo" e de que cláusulas haviam sido descumpridas. A decisão logo foi revertida, mas o impasse continua ainda hoje.
Dias depois surgiu o boato de que o atacante Henrique iria seguir Oscar e pedir a rescisão de contrato. No entanto o próprio jogador desmentiu os boatos. O mesmo não ocorreu com o lateral-esquerdo Diogo, 19 anos, selecionável e alçado aos profissionais. Em janeiro o atleta também foi à Justiça, alegando que o contrato que assinou quando menino tinha mais de cinco anos de duração. Até o momento sua ação não teve desfecho anunciado.
O mais recente caso ocorreu com Lucas Piazon, de apenas 15 anos. O jogador, principal nome de sua geração e jóia do São Paulo para o futuro, foi mais um a exigir seus direitos em um tribunal, no caso a anulação de um contrato de gaveta assinado há um ano e meio e que, segundo o atleta, não reflete os seus feitos alcançados em 2009. Mesmo com motivações diferentes, o que fica evidente é que a intenção real dos garotos é forçar a sua saída do clube.
Mais do que essa "coincidência" e mais do que os boatos de que a pouca utilização da base nos últimos anos tenha motivado essas ações, o fato é que Oscar, Diogo, Lucas, e até mesmo Henrique e Casemiro, são empresariados pelo mesmo homem; Giuliano Bertolucci. Ligado a investidores estrangeiros como Boris Berezowski e Kia Joorabchian - embora não confirme a relação - Bertolucci é, segundo a diretoria do tricolor, o responsável por estar "aconselhando" e influenciando os garotos.
Pior. De acordo com especulações de gente de dentro do convívio do clube, o empresário é responsável pela administração da carreira de 22 jogadores das categorias de base são-paulinas. Ou seja, além de Oscar, Diogo, Lucas e Henrique, outros 18 atletas estariam a "perigo". Segundo o diretor jurídico do clube, Kalil Rocha Abdalla, em entrevista ao Lance!, tamanho espaço foi obtido por Bertolucci em 2006, quando o São Paulo contratou Paulo Sérgio Tognasini, o Paulinho, para dirigir o time sub-15.
Paulinho já trabalhava em parceria com o empresário e a partir de sua contratação passou a recrutar atletas de Giovani. O esquema foi descoberto e o treinador foi demitido, mas a partir daí o espaço de Bertolucci já estava consolidado. Hoje Tognasini é olheiro do Chelsea, clube que tem alegada proximidade com Berezowski e Kia, e que é um dos maiores interessados em contratar Lucas Piazon.
Independente do resultado dessas ações - o notíciário da última terça dava conta de que Piazon assinou pelo Corinthians e que Diogo teria que se reapresentar imediatamente -, o que fica para os próximos meses é a noção de que os empresários estão enraizados fundo na gestão do São Paulo.
Seja no time titular, com os fundos de jogadores e empresários, ou na base, com a assombrante hipótese de um único homem ser capaz de arrasar um time inteiro em função de seus interesses, o fato é que o diferenciado tricolor já está bem parecido com os demais.
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