Gabriel Dudziak e Maurício Vargas - 26/01/2010
Foram 169 jogos em 24 dias. 92 participantes que marcaram 596 gols – média de 3,53 por partida. E para coroar a edição com mais times nestes 41 anos, nada melhor que a Copa São Paulo terminar com um campeão de nome igual à competição: o tricolor teve a melhor campanha desde a primeira rodada e foi um vencedor inquestionável em uma decisão digna de grandes campeonatos, com emoção, gols bonitos e drama, muito drama.
Drama, aliás, que viveram os jogadores que entraram nos encharcados campos do interior paulista, graças à sempre presente chuva de final de tarde no verão brasileiro. Apelidada também de “Copa do coraçãozinho”, dado o número de artilheiros que comemoraram seus gols mandando aquele alô para as namoradas, a Copinha teve novos momentos de polo aquático, especialmente no nada resistente gramado sintético de São Bernardo do Campo.
Foi a Copinha dos laterais-esquerdos, do minguar do 3-5-2, dos grandes de São Paulo, do tropeço de grandes de outros estados e de Lucas Gaúcho. De Alan Patrick. De Carlyle. De Richard, protagonista e antagonista da final. De Aldeflan, acusado de ser gato sem sê-lo. E, infelizmente, de muitos gatos não descobertos – “sorte” que não teve Domingos, goleiro do Bahia, descoberto na última semana.
Uma Copinha que teve mais jogos emocionantes que nos últimos anos, e que ficará também marcada por mais uma ostensiva cobertura oferecida pelo Olheiros, trazendo desde um perfil único de cada uma das 92 equipes até transmissões em tempo real das principais partidas e relatos in loco da final. Confira, portanto, as próximas linhas – as últimas sobre a edição de 2010. E, claro, nos vemos em 2011. (Maurício Vargas)
Campeão com justiça
Um dos mais conhecidos bordões do mundo da bola é que no futebol nem sempre o melhor vence. Pois na edição 2010 da Copa São Paulo de Futebol Junior o melhor venceu. Em sua trajetória rumo ao troféu, o São Paulo mostrou todos os requisitos que um bom campeão deve ter. Técnica, raça, autoridade, reação, inteligência e tranquilidade foram os predicados de uma equipe de desempenho quase perfeito na competição: foram 7 vitórias em 8 jogos, 27 gols marcados e apenas 3 sofridos. O tricolor também teve ainda em Lucas Gaúcho o artilheiro do torneio, com nove gols.
Entrando na competição disposto a terminar um jejum de nove anos sem título e apagar o recente retrospecto de montar grandes times, mas sempre cair nos momentos decisivos, o SP veio com cara nova no comando: Sérgio Baresi substituiu Alexandre Vizzoli, técnico dos juniores nas últimas sete temporadas.
Já na primeira rodada o tricolor mostrou a que veio. Alinhado na formação que manteria até o fim do torneio - um 4-3-1-2 que variava para 4-3-3, com Marcelinho saindo da função de enganche para se tornar um terceiro atacante aberto - bateu o CRB por 4 a 0. Na partida seguinte, 6 a 0 no Operário-MS, garantindo a classificação antecipada, e por fim um 5 a 0 no Avaí, que fez com que a equipe terminasse com a melhor campanha da primeira fase.
De maneira mais tranquila o tricolor seguiu fazendo vítimas: 4 a 0 no Vitória na segunda fase e 5 a 1 sobre o Guarani nas oitavas, com três de Lucas Gaúcho. Mas foi nas quartas que o São Paulo mostrou a sua verdadeira força. Depois de sair perdendo do Cruzeiro, a equipe do Morumbi virou o jogo e carimbou o passaporte para a semifinal com um 2 a 1. Contra o Juventude, vitória fácil por 2 a 0 e vaga na final.
Do outro lado do emparelhamento veio o Santos, que se não tinha o favoritismo e brilhantismo do tricolor, mostrava um grande futebol e uma ascensão no torneio desde o mata-mata. Com Alan Patrick novamente inspirado, o Peixe saiu na frente e dominou todo o primeiro tempo. Na segunda etapa, porém, o tricolor partiu pra cima. O Santos se defendia bem, mas acabou pagando por recuar demais. Como em um verdadeiro drama cinematográfico, o empate veio aos 40 do segundo tempo e a vitória nos pênaltis, nas mãos do goleiro Richard. (Gabriel Dudziak)
Camisas pesadas
A mudança da faixa etária da competição, de sub-20 para sub-18, parece ir aos poucos minando a possibilidade de surpresas, principalmente pela diferença da estrutura que os grandes e os pequenos oferecem às divisões menores. O sintoma disto é a ocorrência de algo raro nestes 41 anos de Copinha: apenas pela quarta vez, três dos quatro grandes de São Paulo chegaram às semifinais (as outras foram em 78, com Corinthians, Santos e Palmeiras; em 84, Corinthians, Santos e São Paulo; e em 2004, São Paulo, Palmeiras e Corinthians).
As circunstâncias de como cada um dos três chegou foram peculiares: o Palmeiras vinha credenciado pelo título paulista sub-20, ainda que tenha perdido alguns nomes pelo limite de idade, como o meia Felipe. O Santos montou um time com diversos jogadores que há pouco tempo não estavam nas bases alvinegras, como Nikão, ex-Palmeiras, e Tindurim, trazido do Paulista no ano passado. E o São Paulo, envolto na polêmica sobre Oscar e Piazon, teve como um de seus protagonistas o meia-atacante Marcelinho, buscado no rival Corinthians.
Ao longo da competição, os três adversários foram se destacando de formas diferentes. O São Paulo possuía o melhor conjunto, um time obediente taticamente que não dava chances ao adversário, mostrando ao mesmo tempo muita qualidade na frente. O Santos, que sofreu uma derrota na primeira fase, teve o retorno de Alan Patrick da seleção sub-19 e cresceu de maneira impressionante, tornando-se uma equipe veloz, muito habilidosa e às vezes até displicente, saindo na frente mas pecando pelo excesso de zelo na garantia do resultado.
Já o Palmeiras, que apresentou a melhor equipe em anos – considerada por muitos melhor que a de Vagner Love em 2003 – tinha uma dupla de laterais insinuante em Luís Felipe e Gabriel Silva, meias talentosos como Gilsinho e Ramos e um futebol empolgante, a ponto de sua eliminação ser lamentada por muitos, que vislumbravam a decisão entre tricolores e alviverdes como a mais justa. De qualquer forma, três gerações que podem brilhar muito nos profissionais em pouco tempo. (MV)
Nocaute do 3-5-2
Depois de virar o esquema favorito entre os treinadores brasileiros e se consagrar com o tricampeonato nacional do São Paulo, o 3-5-2 parece caminhar para o esquecimento. Nesse início de temporada já foi possível observar os principais times profissionais abandonando os três zagueiros para investir em mais homens de meio e ataque e trabalhar com laterais de fato, e não alas. Pois na Copinha deste ano foi possível observar que o esquema também perdeu espaço nas equipes de garotos.
Entre os finalistas e principais equipes do certame, apenas a Portuguesa se utilizou do 3-5-2 em sua campanha. Cruzeiro, Palmeiras, Santos, São Paulo, Juventude, Paulista, CFZ-DF e outros foram a campo com variações do 4-4-2, 4-3-3 e 4-5-1. É um sinal de que em breve as equipes brasileiras profissionais terão mais material humano para não depender de um trio de zaga, contar com laterais de verdade, que sabem marcar e sair para o jogo, e ter mais meias criativos em campo.
Não à toa, na Copinha já foi possível observar que os meias, presentes em maior quantidade nas formações com 4 ou 5 homens efetivamente de meio de campo, tiveram desempenhos muito bons. Alan Patrick, Carlyle, Marcelinho, Dudu, Ramos e Nikão foram alguns bons nomes que pintaram no torneio. Da mesma forma, e até com maior destaque, os laterais foram os grandes "vencedores" do torneio deste ano.
No Palmeiras, Luis Felipe pela direita e Gabriel Silva pela esquerda mostraram força no apoio, na defesa, na cobrança de bola parada e até fazendo gols. Mais; com facilidade para trabalhar com as duas pernas, ambos trocaram de lado constantemente durante as partidas, confundindo a marcação adversária e favorecendo os avanços pela faixa central. Crystian, do Santos, Guilherme, do Botafogo, Ari, do Vasco, e Dodô, do Corinthians, foram outros laterais-esquerdos capazes de aliar com habilidade ataque e defesa, enquanto os laterais do campeão São Paulo, Filipe Aguaí e Felipe, cumpriram com correção a função tática de bloquear os lados do campo. (GD)
O retorno dos selecionáveis
Um fato que não pode ser ignorado nessa edição da Copa São Paulo foi a influência que a convocação da seleção brasileira sub-19 teve no torneio. Em dezembro, o técnico Rogério Lourenço convocou um grupo de atletas para a disputa de um Hexagonal Sub-20, a ser jogado na cidade de Punta del Este, no Uruguai, desfalcando diversas equipes na Copinha.
O caso mais emblemático foi o do Grêmio, que ficou sem três titulares, o zagueiro Saimon e os volantes Bruno Renan e Felipe Guedes. Por conta das ausências e de uma geração /91 não tão boa, o tricolor gaúcho acabou caindo na primeira fase da Copinha. O Vasco também sofreu por liberar o goleiro Lucas e ficar com o inseguro Gott como arqueiro. Vitória, Botafogo e Fluminense também tiveram dificuldades com as ausências, mas não se pode dizer que os desfalques foram responsáveis por suas eliminações.
Já Cruzeiro e Santos perderam jogadores de grande qualidade, mas avançaram sem problemas e tiveram um tremendo ganho de qualidade quando estes voltaram. Na Raposinha, o volante Uchoa acabou sendo discreto no retorno, mas Thiaguinho chegou ao Brasil voando, sendo responsável direto pela vitória contra a Inter de Limeira, nas oitavas, e quase garantindo uma vitória contra o São Paulo, nas quartas de final.
No Peixe, Rafael Caldeira foi para o banco e Alan Patrick retornou comendo a bola. Com atuações de alto nível, o meia capitaneou o Santos na vitória contra o PAEC nas quartas-de-final e foi o nome de seu time no empate por 3 a 3 com o Palmeiras, na semifinal. Na decisão, por muito pouco não foi o nome do título alvinegro, depois de dar o passe para o gol de Renan Mota na primeira etapa. (GD)
Confiança e outras histórias
Se há algo que não falta em toda a edição da Copinha são histórias curiosas. O protagonista em 2010 com o Confiança, de Aracaju, mas com um resultado diferente do de costume: os sergipanos venceram o grupo M e foram os primeiros de seu estado a avançarem à segunda fase. O time que passou por 40 horas de estrada chegou a São José dos Campos um dia antes da estreia contra o Grêmio, e mesmo debilitados seguraram o empate. Depois, goleada por 5 a 2 sobre o São José, time da casa, e vitória de 2 a 1 sobre o Nacional de Manaus.
O problema começou ao mesmo tempo em que os destaques foram aparecendo: uma enxurrada de empresários passou a assediar meninos como o zagueiro Valdo, o volante Thomas e o atacante Índio. “Tivemos de cancelar o recebimento de ligações nos quartos", disse o diretor das categorias de base, Fernando Andrade, em reportagem do Estadão. Afinal, os meninos viviam com ajuda de custo mensal de R$ 80 e passaram a receber propostas astronômicas do dia para a noite. Sem três titulares, a pressão de ser destaque e o deslumbramento natural dos meninos pesou, culminando a derrota para o Coritiba por 4 a 2.
Mas não foi só ao dragão azulino que se resumiram as surpresas da Copinha. Ainda que tenham ocorrido em menor número, alguns times pouco cotados foram longe eliminando grandes clubes, como o caso do Juventude, único representante gaúcho a passar da primeira fase e que parou somente na semifinal. Com uma defesa forte, comandada pelo goleiro Follmann e o zagueiro Bressan, o Papo foi cirúrgico em seus resultados (dois empates e uma vitória por 2 a 1), contando com os gols do atacante Hiago. Foram duas classificações nos pênaltis e uma vitória sobre o Corinthians (em jogo de três penalidades) até parar no São Paulo.
Mais até que o Ju, o CFZ de Brasília foi talvez a maior surpresa desta edição. Impulsionado por Carlyle, eleito pelo Olheiros um dos meias da seleção da Copinha mesmo com a eliminação nas quartas de final, o time ligado a Zico teve vários destaques de nomes pomposos, como Elvis e Ronaell, além do lateral Vitor Hugo. Após uma partida sensacional contra o Vasco na primeira fase, o candango eliminou o Flamengo, goleou o Coritiba e, apesar de cair antes do esperado, apresentou uma das equipes de maior qualidade técnica desta edição.
Na Copinha com mais paulistas nas quartas de final, Portuguesa e Paulista foram corresponsáveis pela estatística. O time de Jundiaí fez uma primeira fase exemplar, com direito a goleada por 8 a 0, e graças aos gols de Carlão ficou à frente do Flamengo e eliminou o Vasco. Já a Lusa voltou a ter uma geração digna da fama de reveladora de talentos com Danilo, Nilson e Guilherme. Após uma campanha ascendente e uma vitória com autoridade sobre o Botafogo, acabou parando num Palmeiras superior tecnicamente. (MV)
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