Gabriel Dudziak - 10/03/2010
Na edição 2010 da já tradicional Copa Santiago, competição juvenil disputada todo ano na cidade homônima no sul do país, deu o já tradicional campeão Internacional. A equipe gaúcha faturou seu nono título na história do torneio. Até aí nenhuma surpresa. A grande novidade, no entanto, foi o fato de o vice-campeão em Santiago ter sido o Gama.
>>> Promissão e Santiago sofrem com concorrência da Copinha
>>> Recuperação de V.Pacheco dá lições sobre promoção de jovens
Dominante no Distrito Federal, o alviverde não tem em nível nacional a mesma relevância. Nem no profissional, em que disputa a terceira divisão brasileira, e nem na base, ocupando apenas a 48ª posição no Ranking Olheiros. Ainda assim, o Gama superou adversários como Grêmio, Vasco e Belgrano da Argentina para ficar com um honrado vice-campeonato em uma competição na qual era zebra.
Além do excelente resultado, a equipe do Distrito Federal ainda colocou quatro jogadores na seleção do torneio; o lateral Daniel, o zagueiro Diomarcos, o volante Yago e o atacante Formiga. O Gama também teve o goleiro menos vazado, Paulo Henrique, que sofreu 7 gols em 7 jogos, o melhor técnico, Aliomar Enoch, e ainda recebeu o troféu disciplina da competição, por ter levado menos cartões no certame. Tudo isso com uma base "terceirizada".
Com exceção dos jogadores e das instalações que são usadas para treinamentos, todos propriedade do Gama, o restante das atividades é administrado pelo Fundo Nacional de Formação de Atletas, o FUNFA. A empresa, fundada por Alberto Luis Mohamad e Alberto Carlos Mohamad, surgiu com incentivos de projetos sociais ligados ao esporte. Ganhou notoriedade a partir de outubro de 2008, quando celebrou um contrato com o Gama prevendo a administração das categorias de base pelo prazo de cinco anos e possibilidade de renovação por mais cinco.
Por administração entenda-se todos os procedimentos que normalmente seriam de responsabilidade do clube. "Administramos todas as categorias, do pré-mirim ao juniores, todas as responsabilidades financeiras e legais correm por nossa conta até a assinatura do primeiro contrato profissional, sendo a partir deste momento assumidas pelo Gama", explicou ao Olheiros Alberto Carlos Mohamad, o Betinho, hoje diretor de futebol do FUNFA.
Da mesma forma, todos os profissionais que trabalham com a base do Gama também são funcionários da empresa. De acordo com Betinho, além dele e de Alberto Luís na direção, o FUNFA conta com três treinadores, dois auxiliares, fisiologista, preparador físico e de goleiros, psicóloga, nutricionista, fisioterapeuta, assessor de imprensa, massagista e mordomo. Ou seja, tudo e mais um pouco do que os principais clubes gostariam de ter para a sua base.
A razão para o alviverde optar por esse sistema, pelo menos no discurso, é bastante clara. A agremiação teve grandes perdas nos últimos anos, sobretudo depois do rebaixamento para a série C em 2008, o que acabou minando a possibilidade de investimentos na base. Sem recursos, o alviverde decidiu priorizar o futebol profissional. "A parceria com o FUNFA nos proporcionou um alívio nos custos, permitindo que formássemos um time de aspirantes e atletas mais experientes para treinar e eventualmente promovê-los ao time profissional", analisa o presidente do alviverde, Paulo Goyaz, também em entrevista ao Olheiros.
No campeonato estadual 2010 já são sete jogadores vindos da base com parceria entre Gama e Funfa: o goleiro Leonardo, /91 que jogou a Taça São Paulo pelo CFZ, os volantes /89 Romário Tito e Betson, Oliveira, meia /89, o lateral-esquerdo Alexandre, /90, e os atacantes Paulo Rene, outro /89, e Tiui, /91. Além deles, também foram revelados pela parceria de 2008 pra cá os jogadores Elivelton e Antonio, ambos negociados com o Grêmio.
Evidente que o FUNFA não desempenha todas essas atividades de forma gratuita. Segundo Paulo Goyaz, a empresa recebe 10% do passe de todos os jogadores que administra, parcela que se mantém após a profissionalização. Pode parecer um valor alto, mas é, por exemplo, metade do que o CAPA tem direito em alguns atletas do Atlético-PR e que empresários e fundos como Traffic, Delcir Sonda, Gustavo Arribas e outros possuem no passe de certos atletas.
O próprio Betinho analisa a questão dessa forma ao ser questionado sobre o foco na formação dos jogadores. "Nossa meta é formar atletas para o futebol e homens para a vida, pois como todos sabem, infelizmente apenas uma minoria é que se torna jogador de futebol profissional. Se irão permanecer no Gama ou se serão vendidos antes disto, esta é uma discussão caso a caso, oportunidade por oportunidade, a ser decidida consensualmente entre a FUNFA e o Gama. Acredito que desta forma não estamos fazendo nada diferente do que já fazem os grandes clubes do futebol brasileiro", explica.
Se a parceria FUNFA e Gama foi um bom negócio, somente o tempo dirá. Até o momento ela vem sendo bastante proveitosa e as duas partes estão satisfeitas com o resultado. Mais importante, no entanto, é que tudo parece estar feito às claras e com bastante critério. O resultado da Copa Santiago e o número de atletas no time profissional está aí para provar isso.
Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008
Triares