Equipe Olheiros.net - 07/07/2010
A renovação no esporte, mais especificamente no futebol, é algo natural e inevitável e precisa sempre ser feito de maneira contínua e numa velocidade muito maior à da vida humana. O compromisso dos técnicos das seleções é, além da busca pelo resultado, deixar se possível um legado para o futuro do esporte no país, dando oportunidade a jovens em grandes torneios e, assim, ajudando a preparar uma nova geração que esteja pronta para assumir o papel de protagonista quando necessário.
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Por outro lado, o desafio de jogar uma Copa do Mundo pode ser, às vezes, assustador para vários garotos. Por essa razão, muitas vezes os técnicos das grandes seleções acabam escolhendo jogadores mais experientes para compor o grupo, embora eventualmente eles tenham menos talento do que a garotada. E não se pode negar que essa postura conservadora, muitas vezes criticada, é capaz também de trazer bons resultados dentro das quatro linhas.
Diante desse quadro, o que deve pesar mais na convocação de um treinador para a Copa do Mundo? Deverá focar ele apenas no presente e pensar em contar com o máximo possível de opções “confiáveis” no banco de ou tentar construir um legado para o futuro, dando chances à juventude e já abrindo caminho para uma nova geração? Para incrementar essa discussão, Olheiros convidou os amigos Milly Lacombe e Braitner Moreira para debater o tema defendendo posições opostas sobre o assunto. Confira nas linhas abaixo. (Pedro Venancio)
Sim, é válido levar jovens à Copa do Mundo para ganhar experiência por Milly Lacombe, do blog 3 goleiros e 20 volantes
Poderia começar a defesa da convocação de jovens talentos para seleções dizendo que Pelé foi convocado com 17 anos (Mundial de 58 na Suécia, Brasil campeão). Mas aí eu daria espaço para que argumentos contrários viessem com "Ah, mas Pelé é incomparável". Ok, Pelé é incomparável, mas ainda assim o fato permanece: foi convocado aos 17.
A seleção de Dunga, já um fracasso histórico, ignorou solenemente nossos jovens. A seleção de 2006, de Parreira, outro enorme e retumbante constrangimento, idem. Em 2002, Felipão levou (e quase não usou) Kaká, então com 20 anos.Só que dessa vez, talvez por um doce acaso, tínhamos nos pés de um de nossos jovens a salvação: Paulo Henrique Ganso.
Ganso tem tudo para ser o maior jogador da Copa de 2014 e do Brasil nos próximos anos e, não fosse a caretice militar de Dunga, poderia ter começado a ajudar a pátria já nessa Copa. Ganso é um talento que não pode ser simplesmente ignorado porque é jovem. Ganso é jovem e único. Não há no Brasil de hoje outro meia armador com seu talento, e a verdade é que Ganso teria mudado a cara desse time de Dunga Isso talvez explique a não-convocação.
Ganso entrou de certa forma tardiamente no radar (aos 20 anos) porque, ainda na base, foi vítima de duas contusões sérias. Mas quem acompanha o futebol de base já sabia há algum tempo que havia ali um talento raríssimo. Não fossem as contusões, ele teria brilhado com 18 anos. Mas Dunga preferiu preteri-lo por, digamos, Julio Baptista?
Que mal teria colocar Neymar no grupo de 2010? Colocamos Kleberson, e sabe-se lá o que ele fez na Africa do Sul. Por que não levar um menino que, se não seguir pelos passos marrentos de Robinho, tem tudo para ser um dos grandes jogadores dos próximos anos? Por que não deixar ele angariar experiência? Ou quem sabe Dentinho, outro que pode aparecer bem em 2014.
Está na juventude um tipo de arrojo e de desprendimento que não se encontra abundantemente em jogadores maduros, um tipo de arrojo que pode ser usado de forma criativa, e ofensiva, no campo. Mas a impressão que se tem, até pela surpresa com que Ganso foi recebido pela imprensa especializada, é que tem pouca gente de olho na base, e isso talvez acabe comprometendo a carreira desses rapazes no que diz respeito à seleção nacional.
Se a CBF fizesse um trabalho bem apurado na base brasileira, teria como ver quem vai surgir na próxima safra e dedicar uma atenção especial a esses garotos, principalmente no que diz respeito à seriedade com que encaram a vida fora de um campo de futebol. Prepará-los para ser cidadãos, antes de mais nada - e, assim, para melhor aguentar o tranco de uma convocação (a vaidade pode colocar tudo a perder, como poderia bradar Robinho).
Mas se vamos falar sobre esse tipo de variável, temos que falar do interesse da grana que ergue e destrói bons jogadores, dos empresários e de sua influência, das convocações para seleções de base que não fazem sentido ... e acabaríamos entrando em campo minado e saindo das floridas serras românticas do futebol-arte. Voltemos pois.
Thomas Müller, o alemão que está conquistando o mundo nessa Copa, tem apenas 20 anos. Fábregas, que brilhou na Euro'08 aos 20 anos, já é hoje, muito por causa daquela oportunidade, um jogador experiente em torneios internacionais, e pode ajudar a Espanha a chegar a mais uma final. Se feita de forma planejada, a mistura desses talentos a jogadores maduros em torneios de peso não tem contra-indicação.
O diabo da experiência é que ela é um troço que só se adquire com oportunidades. Especialmente no futebol, esporte que, a cada dia mais, teima em envelhecer homens de 30 anos. A Ganso, Neymar, Dentinho e demais preteridos pelo general Dunga, um brinde. Com Coca-Cola, por favor.
Não, não é válido levar jovens à Copa do Mundo para ganhar experiência, por Braitner Moreira, do site Quatrotratti
Em janeiro de 2006, Theo Walcott deixou o Shouthampton, onde vinha brilhando, para assinar com o Arsenal. Mas só estreou com o clube londrino em agosto daquele ano. Neste período, foi convocado por uma Copa. Se tivesse estreado no Mundial da Alemanha, Walcott teria se tornado o segundo jogador mais jovem a atuar numa Copa do Mundo. Mas ele só assistiu a tudo do banco. Na brincadeira, Eriksson deixou em casa Defoe e Bent, uma escolha polêmica que, para alguns, culminou no baixo poder ofensivo que eliminou a Inglaterra nas quartas-de-final daquele ano.
Não discuto a importância que é, para um jovem jogador, ser escolhido para representar seu país numa Copa do Mundo, ainda que não entre em campo. Mas acredito que não é nada inteligente que esta escolha seja, unicamente, uma aposta para o futuro. Tem de ser convocado quem possui condições de disputar o Mundial, como Ronaldo tinha ao menos em alguma escala, em 1994. A participação do brasileiro, naquele ano, foi tão importante quanto a de Walcott em 2006. Com a diferença de que o inglês não atuou por sua seleção no Mundial seguinte.
Assim como viu Ronaldo, a Copa do Mundo viu Bismarck. Em 1990, o garoto pródigo de Sebastião Lazaroni, que havia sido eleito o melhor jogador do Mundial Sub-20 do ano anterior, viajou só para adquirir experiência internacional. Nunca mais foi convocado e viveu os melhores momentos da carreira nos oito anos em que atuou no futebol japonês, mas esteve longe de ser o craque que prometia no início da carreira.
Outro caso curioso é o do meia paraguaio José Montiel, que foi convocado para a Copa do Mundo de 2006 quando tinha apenas 18 anos. Ele não atuou no torneio e, nos anos seguintes, não conseguiu confirmar as expectativas criadas sobre si, tendo dificuldades para se firmar até no futebol romeno e perdendo o status de símbolo do futuro do futebol paraguaio. Montiel, que oficialmente pertence à Reggina, ainda não sabe aonde jogará no segundo semestre de 2010, e não é nenhum absurdo supor que a convocação precoce para um torneio tão importante possa ter prejudicado a carreira dele.
Acredito que os mais jovens merecem um maior espaço na Copa do Mundo, mas dentro de campo, ou pelo menos com a esperança de suar a camisa por seu país. Convocá-lo para assistir à competição de perto não passa de um tiro no escuro. Em curto prazo, o técnico perde um jogador que poderia ajudá-lo de verdade na campanha sem ter a garantia de que, no Mundial seguinte esses jovens estarão marcando seus gols.
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