Rafael Reis - 22/01/2008
Emerson Leão terá pela frente um árduo trabalho em sua mais nova passagem pelo Santos. Sem o dinheiro que caracterizou a “era Luxemburgo”, o clube litorâneo quer reviver 2002, quando revelou, entre outros, Diego e Robinho. Para isso, pretende apostar todas as suas fichas nas categorias de base. E pouca gente entende tanto da base praiana quanto Márcio Fernandes, técnico campeão paulista sub-20 do ano passado com o Peixinho.
Em entrevista concedida por telefone ao Olheiros durante a Copa São Paulo, competição em que o Santos surgiu como um dos favoritos, mas foi eliminado pelo Internacional nas quartas-de-final, Fernandes, 45 anos, os últimos cinco dedicados ao clube, falou sobre Alemão, Thiago Carleto, Paulo Henrique e tantos outros que devem, em breve, ingressar na equipe principal.
Outro assunto abordado foi a política santista de ter em sua base pequenas estrelas, jovens promissores que ganham salários altíssimos e que possuem certas regalias impensáveis para um garoto. A filosofia tem como principal garoto-propaganda Neymar, 15, que ganhou os olhos do grande público ao participar de alguns minutos da Copinha e se tornou, desde já, uma atração para o torcedor.
Olheiros - Diego e Robinho subiram para o time profissional há mais de cinco anos e, desde então, o Santos não conseguiu mais produzir jogadores que conquistassem espaço no time titular. Por que isso aconteceu?
Márcio Fernandes - Porque eles são dois jogadores fora-de-série. Para chegarmos até eles, demoramos mais de 20 anos. Agora, precisamos de mais tempo para descobrir novos Robinhos e Diego. Até surgiram jogadores, mas isso também depende do técnico de cima aproveitá-los ou não. O nosso título paulista do ano passado, por exemplo, foi feito com um gol da base [do atacante Moraes]. Só esse gol já pagou todo o trabalho feito na base.
Olheiros - Como era a relação do Vanderlei Luxemburgo com você e com todos os outros treinadores das equipes de base do Santos?
Márcio - Com os outros não posso falar, mas comigo era boa. Ele via jogos nossos, treinamentos e observava os jogadores. Mas desculpa, eu não gostaria de falar muito do Luxemburgo não. Acho que é uma coisa chata. Agora temos um novo treinador [Emerson Leão] e não quero ficar fazendo comparações.
Olheiros - Emerson Leão assumiu o time principal com a missão de reviver de 2002 e formar uma equipe de jovens valores. Ele terá material humano de qualidade para completar essa missão? Como o senhor define a geração que está perto de alcançar o profissional?
Márcio - Eu acho que ele precisa de tempo para colocar esse trabalho em prática. Não é do dia para noite que ele vai pescar um jogador dos juniores e lançar no profissional. Ele está acompanhando a Copa São Paulo e, depois, vamos ter uma reunião. Vai ficar a critério dele aproveitar ou não esses jogadores. Eu acho que temos pela frente uma geração boa. A gente pode esperar um futuro promissor para o Santos. Mas tudo tem que ser feito no tempo certo. Não podemos acelerar a subida dos jogadores para não queimar etapas. Eles podem evoluir muito e dar alegrias para o Santos.
Olheiros - O Alex, principal jogador do Santos na última Copinha, já começa a treinar com os profissionais. Com você, ele chegou a atuar como volante em várias oportunidades. Você o vê pronto para brigar por espaço o time de cima? Em qual posição?
Márcio - Eu acho sim que o Alex tem potencial para atuar na equipe de cima. Eu o coloquei como ala, volante ou meia. Ele me serviu muito bem em todas essas posições. Mas, no profissional, será uma escolha do treinador. Tenho certeza de que ele pode ser útil.
Olheiros - Quem mais pode ser já aproveitado pelo Leão? Hudson, Anderson Sales, Wesley, que foi escalado na estréia no Paulista? Quais as chances deles?
Márcio - Todos jogadores que subiram têm uma boa experiência, mas não sei se estão prontos para serem titulares. Com tranqüilidade, eles podem evoluir e conquistar espaço no time. O Leão deve compará-los com os jogadores que ele já tem no elenco para decidir se deve ou não aproveitá-los. Ele saberá a hora de certa de colocá-los em campo.
Olheiros – O seu Santos só joga com três zagueiros. No profissional, quase sempre, se joga com uma linha de quatro homens atrás. Tal incompatibilidade tática não faz com que os laterais cheguem aos profissionais com sérias dificuldades na marcação?
Márcio - Eu acho que, em alguns anos, não existirão mais defensores e atacantes no futebol. Todos farão tudo. Os jogadores da equipe que eu treino sabem trabalhar em pelo menos duas posições. Por isso, não acho que existe esse problema. O Alex, por exemplo, jogou em três posições comigo. Gosto de fazer isso até para aumentar as chances deles de atuar no profissional.
Olheiros - A maior estrela do time campeão paulista sub-20 do ano passado, o atacante Alemão, já deu mostras de que é um jogador problemático. Ele é apontado por dirigentes do próprio clube como imaturo e deslumbrado. Essas características têm atrapalhado o seu desenvolvimento? Ele recebe algum acompanhamento especial da sua comissão técnica?
Márcio - O Alemão é um jogador que está comigo há mais de dois anos e que nunca me deu problemas. Antes, ele estava no juvenil, mas não era aproveitado exatamente por causa desses problemas. Ele tem uma personalidade um tanto forte, mas nada que uma boa conversa não possa resolver. Ele precisa sentir que tem que se enquadrar dentro do que o treinador quer. É um jogador um pouco carente e que precisa de um acompanhamento especial. Sou um treinador que acompanha bastante meus jogadores. Sempre que é preciso tenho uma conversa com ele.
Olheiros - O Paulo Henrique passou recentemente por um problema delicado no joelho. Em sua volta, na Copa São Paulo, já tem sido reverenciado como um dos grandes nomes do Santos. Como você avalia esse jogador?
Márcio – É um jogador que tem muito potencial. Ele é diferente daquilo que vemos no futebol de hoje. Ele tem uma técnica apurada, mas precisa melhorar na parte de marcação, que é seu ponto fraco. Com a bola no pé, ele mostra que realmente é diferenciado.
Olheiros –Thiago Carleto e Alemão são os nomes mais badalados de sua equipe, mas o Santos possui no júnior dois valores que estiveram com a seleção brasileira sub-18 na Sendai Cup, do ano passado: o zagueiro Diego Monar, e o volante Diego Faria. O que dá para dizer a respeito desses dois atletas?
Márcio - São dois jogadores excelentes. São exemplos como atleta e como homem. O Diego Faria não está sendo titular na Copa São Paulo, mas, mesmo assim, não se rebela. Ele trabalha e sempre está pronto para render o que esperamos. Já o Monar está fazendo uma função diferente da que ele tinha antes. É um líder nato, que a equipe escuta bastante.
Olheiros - Agora em 2008, você deve receber vários novos jogadores para formar a sua equipe júnior. Muitos deles já estão com você na Copa São Paulo. Quem você destacaria dessa safra de juvenis?
Márcio - Eu acho que tem bons jogadores, como o Serginho, o Planta e o zagueiro Dudu. Tem também o Carvalho, um grande volante que é o do Cubatão. Eu também queria que você destacasse que esses jogadores que estão se destacando nas categorias de base foram encontrados pelo técnico Zé Benedito. Lá na base do Santos, temos também um mestre, que é o Lima. Temos que bater palmas para o trabalho desses dois.
Olheiros - O Santos tem algo raro, estrelas na base. Desde muito cedo, Neymar e Jean Chera vêm sendo badalados pela mídia e têm regalias no clube, como altos salários. O senhor defende essa política e como é o relacionamento deles com seus companheiros de categoria de base?
Márcio - Se isso está certo ou errado, não compete a eu analisar, é um assunto da diretoria. Sobre o Chera, não posso falar nada porque nunca o treinei. Mas, posso falar sobre o Neymar e também do Geovani, que é um caso semelhante. Eles são humildes apesar de toda a mídia que recebem e vêm evoluindo bastante, graças ao trabalho do nosso fisiologista Rodrigo Chaves. Ele é uma pessoa que não tem uma divulgação muito grande, mas que tem uma importância enorme para o clube. O Neymar, quando chegou na base, tinha cerca de 30 kg e hoje pesa 56 kg. Esse garoto já ganhou muita massa muscular, mas precisa de mais ainda.
Olheiros – E quais os cuidados que as pessoas que tomam conta da base santista têm que ter para não queimar esses talentos precoces?
Márcio - Isso requer mesmo um certo cuidado. Eu presto muita atenção para não ser aquele treinador que arruinou um talento precoce. Trouxemos o Neymar para a Copa SP para que ele ganhasse uma convivência com os mais velhos. Estamos tendo cuidado, lançando ele sempre no segundo tempo. Nós chegamos a uma conclusão de que ele tem ganhar condições e confiança dentro de uma competição dificílima gradativamente.
Se você colocar um menino desses, que está acostumado a jogar tempos de 30 minutos, para atuar em uma Copa São Paulo, você corre o risco de queimar um garoto que carrega a expectativa do clube e da torcida. Quando entro em competição, entro para vencer. Mas, na base, você tem que saber que está trabalhando com os garotos. Então, temos que ter uma certa cautela, um cuidado total, para errar o menos possível.
Olheiros - Em 2006, em uma reportagem de capa, a Revista Placar alardeava para alguns jogadores gatos que, vindo do Pará, compunham as bases de Corinthians e Santos. Foi identificado algo sobre isso, no Santos?
Márcio - O Santos toma o maior cuidado quanto a isso, faz exames que medem a idade do jogador, mesmo que eles não sejam exatos. O Santos nunca teve problema não, a não ser naquele caso do Karioca. Não investigamos por causa da reportagem, sempre fazemos isso. Desde que o jogador chega ao Santos, ele passa por exames.
Olheiros - Uma postura que tem se tornado cada vez mais comum, tanto no Brasil, como no exterior, vide o Boca Juniors, é evitar a participação das equipes de bases nos torneios com maior visibilidade para não perder os seus talentos para outros clubes. Qual a sua opinião a respeito disso? Prejudica a formação dos atletas?
Márcio - Eu acho que a gente tem que participar do maior número de torneios internacionais para dar mais experiência aos jogadores, para que, quando eles cheguem ao profissional, mais prontos. O risco de perder os atletas realmente existe, mas o clube tem que se cercar de todas as formas legais para ter uma segurança quanto aos seus jogadores.
Olheiros - Qual a principal diferença entre trabalhar na formação de atletas e em uma equipe profissional? Você objetiva ficar muito tempo nessa função ou pretende alçar vôos maiores?
Márcio - Eu já trabalhei em clubes profissionais e acho que você é mais exigido na formação de atletas, porque tem que acompanhar o dia a dia dos jogadores. Apesar de todos os jogadores da base serem profissionais hoje em dia, os adultos continuam sendo diferentes. Na base, você precisa fazer com que o jogador se enquadre ao clube. No profissional, você pode simplesmente trocar os jogadores com quem trabalha. Mas, eu pretendo voltar ao profissional, sim. Se me aparecer uma proposta interessante, essa mudança pode acontecer em breve.
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