Alexandre Vasconcellos - 20/07/2010
A eliminação da Seleção Brasileira nas quartas de final da Copa deixou espaço para poucos heróis. O sistema defensivo, base de sustentação da equipe do técnico Dunga, falhou. Se os atores principais saíram da Copa como decepções, coube a um coadjuvante deixar o Mundial de cabeça em pé. Elano jogou apenas duas partidas, marcando dois gols e dando passe para mais um. A entrada dura do marfinense Tioté o tirou da competição, o que não apagou a boa impressão. Acostumado a ficar em segundo plano, a sua história é marcada pela superação. Das adversidades e expectativas.
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A trajetória de Elano começa em Iracemápolis, cidade vizinha à Limeira, a 170 km de São Paulo. O pai, Geraldo, cortador de cana, achava que seu filho deveria ter um nome diferente para ser um jogador de futebol. Certo dia, ajudando o pai em um caminhão, uma caixa caiu, acidentalmente, sobre a perna do menino. Assustado, Geraldo gritou para um colega. “Você está louco? A única coisa que pode me dar dinheiro nesta vida é a perna do meu filho!”. Ele estava certo.
Sempre coadjuvante, sempre decisivo
Com o tempo, a convicção do pai se justificou. Logo aos 7 anos ele se destacava na escolinha de futsal local. Não era um craque, mas, apesar de franzino, mostrava muita raça e aplicação. Seu treinador na cidade, Ismael, sabia o que tinha nas mãos. Levou Elano para um teste no Guarani, em 1995.
Com 13 anos, federou-se pelo Bugre, e logo se firmou. Participou de duas edições da Copa São Paulo. Em 1999 o clube ficou na primeira fase. No ano seguinte, após eliminar o Botafogo na fase de grupos, o Guarani avançou até as semifinais, perdendo para o São Paulo de Júlio Baptista - que viria a ser campeão - por 3 a 2. Com facilidade para marcar gols e forte consciência tática, Elano seria nome certo no time principal.
Porém, com a crise financeira que o clube já atravessava, aliada à influência de empresários, ele perdeu espaço. Os Blumer decidiram entrar na justiça e conseguir a liberação. Até hoje a família reconhece o papel do Guarani na trajetória de Elano, mas aquele momento sinalizava que era hora de seguir outro caminho.
Seguiu para a Inter de Limeira, mas era pouco para o seu potencial. Logo o Santos o resgatou no segundo semestre de 2000. No ano seguinte, o time da Vila foi eliminado na fase de grupos da Copinha pelo Fluminense. Esta base seguiu para a disputa do Campeonato Paulista de aspirantes. Elano, jogando de meia, foi artilheiro do torneio, com 11 gols. E veio a chance entre os profissionais.
Com a política de contratação do Santos à época, a expectativa era de que Elano jogasse pouco. A equipe contava com nomes como Viola, Marcelinho Carioca e Robert. Mesmo assim, ele emplacou 25 jogos e 2 gols pelo alvinegro praiano. Porém, o time não deu liga, e terminou o Brasileirão na 15ª colocação.
Para 2002, a fórmula dos elencos estelares ganhou mais uma chance, mas não deu certo. Com o fracasso no Paulista, a diretoria decidiu blindar o recém-chegado técnico Émerson Leão em um processo de reformulação. Vários garotos da base foram promovidos. Os ex-bugrinos Renato e Elano foram dos poucos que restaram. O projeto era de longo prazo, mas o respaldo da torcida e a rápida maturação da equipe surpreenderam.
Meninos da Vila
Com um começo tímido no Brasileiro, o Santos começou a chamar atenção na reta final da primeira fase. Robinho e Diego eram os astros, mas Elano ocupava espaços com maestria. Na última rodada da primeira fase, a classificação para o mata-mata veio após a surpreendente derrota do Coritiba, principal concorrente, para o Gama por 4 a 0.
Pela frente, o líder da primeira fase, o São Paulo de Kaká e Luis Fabiano. Contra qualquer prognóstico, duas vitórias santistas. Neste estágio, era nítida a ascensão dos garotos, o que rendeu a ressurreição da alcunha “Meninos da Vila”. O Grêmio também caiu por terra nas semifinais. Agora, o adversário na grande decisão seria o Corinthians de Carlos Alberto Parreira.
No primeiro duelo, vitória soberana dos meninos sobre o calejado Corinthians: 2 a 0. Na partida de volta, as pedaladas de Robinho marcaram o futebol brasileiro. Mas poucos se lembram da virada corinthiana na etapa final. Com o placar em 2 a 1, o Timão ainda respirava. Mas, aos 43min do segundo tempo, Elano concluiu jogada de Robinho, garantindo o primeiro título santista no Brasileirão.
Dois anos mais tarde, boa parte dos Meninos da Vila esteve na conquista do bicampeonato nacional do clube. Agora sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, Elano marcou 15 vezes em 41 jogos, inclusive dois gols nas duas últimas partidas que garantiram o título por pontos corridos, três pontos à frente do Atlético-PR.
Europa
Logo depois da conquista, em janeiro de 2005, Elano foi vendido por R$ 10 milhões para o Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. Em três temporadas, ganhou duas vezes o campeonato nacional, além de se destacar nas campanhas do clube em competições européias.
Em 2007, Sven-Göran Eriksson, recém-chegado ao Manchester City, pediu a contratação do jogador. Com o fracasso da primeira temporada, Eriksson deu lugar a Mark Hughes, que não utilizou Elano com a frequência de seu antecessor. Precisando de espaço para se garantir na Copa, Elano se transferiu para o Galatasaray em julho passado.
Sob o comando de Frank Rijkaard, o elenco mais caro da Turquia decepcionou. Após liderar algumas rodadas, ficou na terceira colocação, com o pequeno Bursaspor levando o título. Elano atuou 32 vezes e marcou 7 gols.
Seleção e futuro
Mas a grande escada para Elano subir na carreira no Velho Continente veio com a amarelinha. Convocado pela primeira vez em 2004, ele se firmou como presença constante nas convocações após a Copa da Alemanha, com o técnico Dunga. Na segunda partida do treinador, a vitória por 3 a 0 sob a Argentina, com dois gols de Elano, consolidou o meia como homem de confiança do comandante. As conquistas da Copa América de 2007 e da Copa das Confederações de 2009 confirmariam Elano como um dos símbolos do futebol dinâmico e eficiente deste ciclo.
O insucesso na África do Sul não deve recair sobre Elano. Com 29 anos, 46 jogos e 9 gols pela seleção, esta pode ter sido a sua última chance para conquistar a Copa do Mundo. Porém, Elano já recebeu sondagens de equipes como a Juventus para a próxima temporada. Como sempre foi, desde os tempos de canavial em Iracemápolis, só cabe a Elano buscar seu espaço como um imprescindível coadjuvante.
Ficha técnica
Nome completo: Elano Ralph Blumer
Data de nascimento: 14/06/1981
Local de nascimento: Iracemápolis, São Paulo
Clubes que defendeu: Guarani, Inter de Limeira, Santos, Shakthar, Manchester City e Galatasaray
Seleções de base que defendeu: sub-23
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