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Um mal contínuo

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Carlos Eduardo R. de Moura - 25/07/2010

No último mês, o assassinato de uma jovem adentrou o noticiário esportivo devido a suspeita de envolvimento do goleiro Bruno, do Flamengo, com o suposto crime. Porém, o mais importante em matérias criminalistas não é apurar o culpado, e sim entender como algo deste tipo pode ocorrer da maneira conforme as investigações vêm apontando.

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O goleiro, capitão da equipe e um dos maiores salários do elenco, era também conhecido por sua arrogância frente a torcedores, jornalistas e até mesmo treinadores. Além, esteve constantemente envolvido em escândalos públicos em territórios dominados pelo narcotráfico, chegando a emitir declarações de apologia a violência contra mulheres.

Dentro do ambiente de trabalho, cabe observar que ele não era o único com tal tipo de comportamento. Diferentes situações de descaso aconteceram sob as barbas do clube, como denúncias envolvendo a participação de Adriano em venda de motocicleta para a mãe de um traficante, fotografias de Vagner Love ao lado de criminosos portando armas pesadas ou ainda orgias envolvendo atletas, prostitutas e violência.

O Flamengo precisa ser citado nestes casos acima pois o clube sempre contemporizou essas práticas em nome do resultado, por esses atletas se notabilizarem pelos feitos dentro de campo. E, por declarações dadas por Zico em seu início como gestor de futebol do clube rubro-negro, esses problemas refletem-se nas divisões de base, onde há casos semelhantes incentivados por uma política omissa na direção de futebol.

Na realidade, o Flamengo é mais um dentre tantos clubes que se organizam de forma autocrática, em nome do resultado, mesmo que ele venha em detrimento à formação humana e cultural dos seus aspirantes a jogador profissional. Neste ponto, chegamos ao que os interessa: a formação de jovens talentos em um cenário de futebol global. Até onde os clubes não são co-responsáveis por barbaridades como as apontadas acima, com a precária estrutura oferecida aos atletas de uma forma geral?

Não há como, numa atividade econômica global, tratar esses jovens atletas apenas como ativos financeiros, como se fossem verdadeiras ações a serem vendidas e compradas dentro do mercado. São seres humanos e, mais do que isso, o que a maioria dos clubes não percebe é que uma boa formação dos atletas como cidadãos valoriza ainda mais os jogadores, já que ensinamentos sobre ética, princípios e profissionalismo são transmitidos neste tipo de situação.

Os clubes devem sim ser geridos tal qual uma empresa, com retidão e transparência, mas não devem esquecer a responsabilidade social em alguma gaveta. A sua função social deve estar em suas entranhas e, acima de tudo, esse tipo de postura traz inclusive benefícios fiscais no que tange ao esporte (Lei de Incentivo ao Esporte) e também à cultura (Lei Rouanet).

Portanto, usemos esse caso escabroso envolvendo o goleiro do Flamengo como resultado de um mau exemplo de gestão e, quem sabe, como um novo ponto de partida sobre a discussão dos conceitos da formação de jovens para o futebol profissional. O momento é único para que tenhamos frutos que apontem para boas gestões dos clubes brasileiros no futuro.

Carlos Eduardo R. de Moura é advogado especializado em Direito Desportivo, em consultorias contratuais, além de litigâncias nacionais e internacionais envolvendo futebol profissional. Contato: moura@msilvaemoura.adv.br



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