Lincoln Chaves - 26/07/2010
Que o futebol italiano necessita e passará, nas próximas convocações, por uma renovação grande visando a Eurocopa de 2012 e a Copa de 2014, não é novidade. O que ficou claro, porém, é que Cesare Prandelli terá bastante trabalho e fatalmente não poderá contar com muita gente da safra que está surgindo, se o objetivo for renovar para manter a equipe no patamar de cima do futebol mundial. A lamentável campanha da Azzurra na Euro Sub-19 foi prova cabal de que a geração que pedirá passagem nos próximos anos não tem muito a ajudar ao novo técnico da seleção tetracampeã do mundo.
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O cenário parecia ser outro até o início da fase final da competição. A Itália detinha a melhor campanha dentre os oito sobreviventes, com cinco vitórias (consecutivas) e uma derrota (quando a vaga à etapa decisiva já estava assegurada). Tinha também o artilheiro do torneio, Mattia Destro, que em cinco jogos, marcara oito gols. Contava também com duas das consideradas grandes promessas da base do Chelsea, trazidas ao clube pelo olhar clínico de Frank Arnesen: o atacante Fábio Borini e o meia direita Jacopo Sala. O favoritismo era claro, e um bom desempenho seria crucial para dar força ao processo de renovação na Bota.
Mas a realidade caiu como uma bomba, como a equipe de Massimo Piscedda, que em entrevista ao site oficial da UEFA, disse que esperava uma "performance bonita" de seus comandados. A equipe fora suficientemente competente para passar invicta na fase inicial, contra equipes extremamente limitadas, como Irlanda, San Marino e Albânia. Na etapa seguinte, passou por República Tcheca e Irlanda do Norte. Nenhum rival, portanto, com nível próximo aos de Portugal, Espanha e Croácia, que também realizaram campanhas bastante sólidas. Quando encararam adversários de mais força, foram amplamente dominados.
Foram duas derrotas incontestáveis (2 a 0 para Portugal e 3 a 0 para a Espanha) e um empate sem gols com a Croácia. Destro, que marcara metade dos 16 tentos assinalados pelos italianos até então, passou em branco. Deu apenas dez chutes a gol e foi barrado com alguma facilidade pelos sistemas defensivos rivais. Borini, por sua vez, pareceu só ter jogado mesmo contra os espanhois, quando deu sete arremates à baliza de Aítor. Antes desse jogo, só havia chutado uma única vez a gol, contra os croatas. A ineficácia dos atacantes não mobilizou os meias, que além da dificuldade em tramar jogadas, também pouco chutaram.
Paralelamente ao péssimo serviço dos homens de frente, os de trás eram envolvidos pelos ataques rivais. Em três jogos, foram duas expulsões, seis cartões amarelos e a constatação, da boca dos próprios jogadores, de que faltou cabeça à equipe, e de que o time sentiu os gols que sofria, perdendo-se em campo. O resultado da tragédia não podia ser outro: de melhor time pré-fase final, acabou como o pior dentre os finalistas, com apenas um ponto somado. Ficou fora das semifinais da Euro Sub-19 e até mesmo do Mundial Sub-20. O pior dos destinos possíveis.
É natural que muitos ignorem os desempenhos de seleções de base, tentando desagregá-los do desempenho das equipes de cima. A Alemanha está aí com seus campeões europeus sub-21 em 2009 para mostrar que não é bem assim. E evidentemente, o pífio campeonato feito pela equipe italiana terá impacto na Azzurra principal. A primeira constatação é a de que o grupo é limitado, mais do que se esperava. Até conta com garotos com potencial, como os supracitados Borini e Destro, ou o meia da Roma, Marco D'Alessandro. Mas não é uma safra daquelas que Prandelli poderá ter plena certeza que poderá contar daqui para frente.
Outro impacto diz respeito à "campanha" para que os clubes italianos percam o receio de colocarem jovens em campo. O baixo rendimento dos garotos na França, tanto tecnicamente como no rendimento global dos atletas em campo, acabam servindo como uma "desculpa" para as equipes que preferem investir em jogadores de fora ou mais velhos, a abrir espaço às "questionáveis" novas safras. Ainda que a "mensagem" devesse ser compreendida como um alerta: cenas como essa não serão raras enquanto os talentos continuarem a ser bloqueados entre os profissionais. Se para os times isso pode não ter reflexo por agora, para o país já há.
Os garotos do atual elenco sub-19 fatalmente só seriam eventualmente lembrados para a seleção principal pensando nos Jogos Olímpicos de 2016, ou na Copa de 2018, já que, a menos que Prandelli cometa o mesmo erro de Marcello Lippi e leve mais "velhos" ao Mundial no Brasil, jovens como Davide Santon e Mario Ballotelli, dentre outros, deverão ter presença mais assídua na Azzurra. Tendo em vista que a base da própria geração da dupla não é das mais brilhantes, como se viu no último Mundial Sub-20, onde uma apenas esforçada Itália caiu nas quartas sem nunca ter realmente empolgado, a fragilidade da nova safra acendeu de vez o sinal amarelo na FIGC. Passou da hora de agir.
Tempo extra
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