Gabriel Seixas - 24/08/2010
Laurent Blanc é um personagem peculiar na história do futebol francês. Apontado por muitos como um dos maiores jogadores da história da seleção nacional, inclusive sendo um dos pilares do único título mundial dos Bleus, em 1998, ele assume a responsabilidade de reconduzir a França ao caminho das conquistas, desta vez como treinador.
A missão de apagar os maus resultados em campo e as turbulências fora dele está longe de ser das mais fáceis, e só poderia ser atribuída a quem concilia um ótimo currículo como treinador e o carisma dos franceses (no caso de Blanc, muito pela carreira bem sucedida nos gramados). A ascensão meteórica como técnico, alcançando a seleção principal em três anos, contrasta com a sua performance como atleta, sempre cercada de elogios e títulos, mas com diversos percalços.
Convivendo com as responsabilidades
Nascido em Alès, ao sul da França, o menino Blanc ingressou aos dez anos nas categorias de base do clube local, o Olympique d'Alès en Cévennes. Ele conciliava o sonho do futebol com o trabalho em uma fábrica, auxiliado pelo pai, Gilbert Blanc.
Sempre assumindo o papel de destaque em campeonatos infantis, foi levado para o Montpellier aos 15 anos. Dos seus 20 anos de carreira, oito foram ao serviço do clube, contando apenas a partir do momento em que assinou seu primeiro contrato profissional, aos 18 anos. Ele ainda defende o posto de maior artilheiro da história do MHFC.
A missão era difícil. O Montpellier figurava na Ligue 2, sempre vivendo a frustrada expectativa do acesso. Em sua primeira temporada, Blanc disputou apenas 15 partidas, o suficiente para evidenciar o grande potencial daquele meia-armador que posteriormente se consagrara como zagueiro. Muitos não sabem, mas foi com a camisa 10 que Blanc ganhou projeção para o futebol. Isso explica a sua ótima relação com as redes adversárias, mesmo quando recuado para a função de defensor.
As primeiras conquistas
Quatrno anos depois, ele seria imprescindível no acesso do Montpellier à Ligue 1, na que era a primeira grande conquista de sua longínqua carreira. Mais do que a oportunidade de jogar entre os melhores do futebol francês, Blanc também passou a ser presença carimbada nas seleções inferiores dos Bleus.
Em 1988, Blanc teve a oportunidade de disputar seu primeiro grande torneio de base de seleções, o Campeonato Europeu Sub-21. Ao lado de outras estrelas, como Eric Cantona e Franck Sauzée, ele foi imprescindível na conquista do título, superando a Grécia na final. A conquista por si só mudaria definitivamente a carreira de Laurent, mas outras surpresas ainda lhe estavam reservadas pelo caminho.
A partir da ideia do então técnico do Montpellier, Michel Mezy, Blanc foi recuado do meio-campo para a zaga. Inteligentemente, o treinador enxergou no garoto de 1,91m e 82kg uma ótima presença defensiva, aproveitando sua classe e liderança. Temendo perder espaço na seleção, Laurent foi contrário a ideia no início, mas acabou se rendendo ao novo desafio.
A seleção francesa vivia um momento de renovação, integrando jovens valores ao time principal, e obviamente, Blanc fez parte desse processo. A partir do momento em que ganhou sua primeira oportunidade, ele rapidamente se firmou entre os principais jogadores da França.
Diversas equipes e uma Copa do Mundo
Pouco após fazer sua estreia pelos Bleus, num empate sem gols com a Irlanda, Blanc conquistou a Copa da França com o Montpellier em 1990, inclusive marcando um gol na final. Com 26 anos, ele foi um dos primeiros jogadores franceses a tentarem carreira internacional, assinando com o Napoli em 1991. Sua passagem pelo futebol italiano durou apenas uma temporada: a rigidez do Calcio não permitiu seu melhor futebol, e Blanc retornou ao país natal, jogando pelas cores do Nimes.
No futebol francês, ele ainda defendeu posteriormente Saint-Etienne e Auxerre, sempre com grande destaque. Foi o suficiente para que tentasse mais uma vez a sorte fora da França, desta vez no Barcelona. Entretanto, prejudicado por muitas contusões, despediu-se da Catalunha com a conquista da Copa do Rei em 1997 novamente para retornar ao futebol francês, desta vez rumo ao Marseille. Foi então que Blanc recebeu o apelido que até hoje carrega consigo no futebol: Le Président.
Pela seleção francesa, Laurent e seus companheiros viviam uma situação delicada, mas com um alento. Após serem desclassificados ainda nas eliminatórias para as Copas de 1990 e 1994, foi-lhes conferida a oportunidade de sediarem o Mundial de 98.
Titular absoluto na zaga, Blanc foi um dos principais responsáveis pelo título inédito, apesar de cumprir suspensão na fatídica decisão contra o Brasil. Nas quartas-de-final, contra o Paraguai, Blanc fez o gol da vitória dos Bleus na prorrogação, o primeiro 'gol de ouro' da história das Copas.
Blanc seguiu em frente na sua carreira, e após o vice-campeonato da então Copa da UEFA com o Marseille, partiu novamente para o futebol italiano, vestindo as cores da Internazionale. Por lá ficou duas temporadas, tendo um vice da Copa da Itália como maior recordação, para depois atuar em seu último clube na carreira, o Manchester United.
Indicado por Sir. Alex Ferguson, Blanc rapidamente assumiu a condição de titular, mas conviveu com duras críticas. Aos 38 anos, pôs fim a sua carreira, depois de conquistar a Premier League na temporada 02-03. Na seleção francesa, encerrou seu ciclo com 97 jogos disputados e 16 gols. Quando jogou ao lado de Barthez, Thuram, Desailly e Lizarazu na defesa dos Bleus, nunca foi derrotado.
Prodígio também fora das quatro linhas
Sua personalidade e o apelido recebido no Marseille indicavam a Blanc um caminho no futebol também como treinador. Le Président iniciou no ramo dirigindo o Bordeaux, e logo em sua temporada de estreia, em 07-08, foi vice-campeão francês. Os Girondins quebrariam a hegemonia do heptacampeão Lyon na época seguinte, liderados pelo promissor Blanc.
A insatisfação com Domenech na seleção francesa e a franca ascensão de Laurent como treinador culminaram em uma mobilização popular pelo ídolo no comando da França. Após o fracasso na África do Sul e a saída anunciada de Domenech, Blanc foi convidado pela federação e aceitou o cargo.
Complementando a competência e o respaldo que possui, Blanc também é um homem acostumado a desafios. O de reerguer a seleção francesa, agora como treinador, talvez seja o maior de sua vida. Repetir 1998 é um sonho real. Será mesmo que não se deve (ou pelo menos não se pode) planejar o futuro pelo passado?
Ficha técnica
Nome: Laurent Robert Blanc
Data de nascimento: 19/11/1965
Local de nascimento: Alès, França
Clubes que defendeu: Montpellier, Napoli, Nimes, Saint-Étienne, Auxerre, Barcelona, Olympique Marseille, Inter de Milão e Manchester United
Seleções que defendeu: França sub-21
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