Lincoln Chaves - 30/08/2010
Lembram-se da polêmica dos jogadores do Santos na twitcam, ou do caso envolvendo o goleiro Bruno, e mesmo a pancadaria envolvendo os garotos das categorias de base da Ponte Preta - temas que já foram abordados em uma reportagem especial do Olheiros? Tratam-se de assuntos que podem e devem estar sempre em discussão, já que invariavelmente têm relação direta com a fase em que esses atletas estiveram na base, por vezes trabalhados quase que unicamente sob a ótica futebolística, deixando praticamente de lado a formação humana.
Sobre o assunto, o Olheiros ouviu mais uma especialista, a psicóloga da Life Psicologia, Valéria Sapienza, especialista em Psicologia do Esporte pelo Instituto Sedes Sapientiae, e que conta com trabalhos em áreas organizacionais, educativas e sociais. Para ela, houve falhas no acompanhamento psicológico dos jogadores na preparação para se lidar com a fama e o dinheiro, e ainda se está longe do que pode ser considerado adequado quanto ao preparo mental dos meninos em suas vivências nas categorias de base.
Olheiros - Que tipo de falhas de preparação na base evidencia, se é que evidencia, a recente ocorrência dos jogadores do Santos no Twitter? E o do goleiro Bruno, que mostrou-se despreparado para lidar com a fama e o dinheiro?
Valéria Sapienza - Acredito que a falha é na preparação psicológica. Acredito que eles não tenham sido devidamente acompanhados e preparados para lidarem com a fama e o dinheiro, como para vários outros fatores que não estão em evidência no momento. O preparo psicológico precisa existir paralelamente ao preparo físico para que o atleta esteja pronto para lidar com o que esteja por vir.
Olheiros - Pode-se dizer que o erro, por assim dizer, esteve sob a ótica da educação dos garotos quando ainda estavam na base (e no caso, não há somente jogadores formados no Santos, caso de Madson e Zé Eduardo), ou do preparo psicológico? Ou em ambos?
Valéria Sapienza - Acredito que ambos. Tem a questão da educação e das referências que esses jogadores tem ou tiveram na formação da personalidade de cada um. Todos nós escolhemos alguém que admiramos e utilizamos como modelo, meta e objetivo de vida. Às vezes o modelo traz alguma referência positiva e as vezes não! Mas cada um escolhe seu caminho.
Olheiros - Em uma coluna para o site da ESPN, o jornalista Lúcio de Castro retomou palavras da diretora do filme Cidade de Deus, Kátia Lund, para explicar um fato que ocorre com frequência no futebol: o clube traz 100 jogadores de vários locais do país e por vezes provenientes de condições de grande pobreza, conta com apenas dois deles e acaba se livrando dos demais 98. Nas palavras de Kátia Lund, é o fenômeno de "jogar gente para debaixo do tapete como se estas não existissem, tratando como bicho". É isso mesmo que ocorre no Brasil? O que motiva isso?
Valéria Sapienza - Não tenho propriedade sobre esses dados, mas pode ser verdade. O que fazer com os que não se sobressaem do resto do grupo? E que caminho eles vão escolher? Dois em 100 tem a oportunidade de crescer e se desenvolver, mas muitas vezes os que ganham tal oportunidade não estão preparados para lidar com as consequências
e com isso acabam desperdiçando tal oportunidade as vezes por besteira e outras por algo mais grave, como no caso do Bruno.
Olheiros - Qual o trabalho que o treinador, tanto na base como do time profissional, tem com jogadores que vivem essa realidade da ausência de um trabalho mais desenvolvido extra-técnico-tático?
Valéria Sapienza - O trabalho tem que ser realizado pelo profissional da área, o psicólogo esportivo. O treinador tem competência para perceber e trabalhar a questão técnica desses jogadores e não para lidar com a questão psicológica de seus atletas. Mas ele pode ficar atento para os comportamentos apresentados por seus atletas como, por exemplo, como seus atletas lidam com a ansiedade, agressividade, depressão, entre outras coisas. Percebendo um aumento de comportamentos inadequados para o contexto esportivo que possam interferir no seu desenvolvimento individual e dentro do grupo, este deve procurar ajuda especializada para lidar com o problema.
Olheiros - Sob a ótica de estrutura, muitas equipes possuem grandes centros de treinamento e profissionais da área técnica capacitados para o treinamento do futebol. Avalia que nos últimos anos houve um investimento maior também no campo da educação e do acompanhamento psicológico para que os trabalhos ocorram de maneira coincidente? Se sim, essa mudança é significativa em relação ao passado? E se não, o que emperra?
Valéria Sapienza - Acredito que ainda estamos longe disso. Esse investimento ainda não ocorreu como deveria. Acredito que a falta de conhecimento nessa demanda ainda é o que emperra os clubes na procura do profissional que vai lidar no dia a dia com seus atletas. Outra questão, são profissionais da Psicologia não especializados na área esportiva buscando espaço em uma área que não dominam. Com isso, o trabalho não é feito como deveria e os clubes acabam achando que é supérfluo, quando na verdade estão equivocados. O acompanhamento tem que ter inicio, meio e fim, ou seja deve ser realizado pré temporada, durante a temporada e pós temporada.
Olheiros - O ECA não é respeitado em muitos casos pelos clubes brasileiros, como no caso da convivência familiar, que, conforme a lei, é obrigatória, mas não é cumprida pelos times, que simplesmente pegam os jogadores e apenas estes, distanciando-os da família. Quais os efeitos dessa ausência, e que impacto podem ser vistos quando se chega no âmbito profissional?
Valéria Sapienza - Pois é, os atletas acabam sendo distanciados da família e das pessoas que amam e que os amam muito cedo e com pouca maturidade, fazendo com que esses atletas busquem o consolo para isso muitas vezes em coisas negativas (más companhias, bebida, drogas,...). Acredito que quando esse atleta chega ao âmbito profissional não está preparado psicologicamente para lidar com seus conflitos internos e muitas vezes com os conflitos externos que possam surgir também.
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