Lincoln Chaves - 06/09/2010
A notícia de que Neymar rejeitara os milhões de euros do Chelsea para permanecer no Santos foi recebida quase que como uma piada de primeiro de abril na Inglaterra. Mas no fundo, o alerta já fora dado alguns dias antes, quando o santista disse não saber se valia a pena ir para os Blues e ficar no time reserva, enquanto por aqui jogava com regularidade e se mantinha aos olhos da seleção. Sinal claro que de que a reputação do clube londrino quanto ao aproveitamento de jovens já é bem conhecido, e ao que consta, terá mais um ano de total descaso com os garotos.
>>> Há um ano, o Chelsea já mostrava descaso com seus jovens jogadores
>>> Título da FA Youth Cup gerou expectativas diferentes para 2010/11
No início da temporada passada, o amigo Gabriel Dudziak já mostrara como o Chelsea tratava com descaso os jovens frutos de sua academia - e também de um forte trabalho de sua equipe de observação, chefiada por Frank Arnesen. Com o advento da Premier League 2010/11 e a reconquista do título, além da vitória na FA Youth Cup, principal competição de base da Inglaterra, esperava-se que este olhar secundário destinado aos garotos, fosse mudar. Especialmente porque o relacionamento entre Arnesen, hoje diretor de futebol do clube, com Carlo Ancelotti parecia promissor.
Afinal, além dos meninos campeões, jovens como Franco Di Santo, Scott Sinclair, Miroslav Stoch e Michael Mancienne já clamavam por espaço. Mas o que fez o Chelsea, que dizia estar plenamente confiante nas “jóias” de suas canteiras após os promissores resultados de 2009/10? Com os vencedores da FA Youth Cup, nada. Garotos como Jeffrey Bruma, Fabio Borini e principalmente Gael Kakuta seguirão à espreita, jogando pelo time reserva até as coisas melhorarem e eventualmente entrando no final de alguma partida da equipe principal. Como se isso fosse o mesmo que “dar oportunidades”.
Mancienne foi novamente emprestado, voltando ao Fulham. Stoch, acabou negociado, depois de bela passagem pelo Twente, onde se sagrou campeão nacional como um dos destaque da equipe. Mas foi ignorado nos Blues e vendido ao Fenerbahçe por quase 5 milhões de euros. Já Di Santo foi liberado sem custos para o Wigan, após apenas oito jogos, em duas temporadas, pelo time londrino, que pagara cerca de 3 milhões de euros ao Audax Italiano por seu futebol. Por fim, Sinclair acabou vendido por 500 mil euros ao Swansea, depois de seis empréstimos desde 2005, e apenas cinco jogos como Blue.
Mas o que afinal deseja o Chelsea? Basicamente, que seus jogadores jovens não demorem a estrear, e quando o fizerem, possam ser capazes de disputar posições com os medalhões que fazem parte do grupo. Caso contrário, serão limados. Seria esse o desafio de Neymar, caso se confirmasse sua venda por incríveis 35 milhões de euros, como será o daqueles que ainda tentam fazer o que apenas John Terry, nos últimos onze anos, conseguiu: firmar-se desde jovem na equipe londrina. Aliás, num período em que a pressão - inclusive interna - por vitórias não era a mesma de hoje.
Essa impaciência dos azuis, como incessantemente já discutido, vai contra tudo que se pode pedir para um trabalho de “encaixe” de jogadores jovens. O próximo da lista a ser limado é Nemanja Matic. Aos 22 anos, chegou há um, não teve quase nada de chances, e acabou emprestado ao Vitesse, na Holanda. E tendo em vista o histórico com Mancienne, Di Santo e Stoch, não é difícil crer que terá futuro semelhante ao do trio. Por isso, Bruma, Kakuta e Borini, além de Josh McEachran e Patrick Van Aanholt, que teoricamente figuram hoje no elenco profissional, ainda não podem soltar fogos.
Nesse sentido, o caso de Kakuta é preocupante. Afinal, quando se esperava que passaria a ser lançado com mais frequência, principalmente depois do belo Europeu Sub-19 e do adeus de Michael Ballack e Joe Cole, o Chelsea traz Yossi Benayoun e Ramires, gasta mais de 20 milhões de euros e fecha mais uma vez o cerco para aquele que é considerada a principal promessa da equipe. Ancelotti cheogu a dizer que pretendia contar com ele para a temporada. Resta saber se esse aproveitamento será real ou se terá apenas a função de ser um terceiro substituto aos 40 minutos da segunda etapa.
Há quatro meses, quando esta coluna destacou a conquista do Chelsea na FA Youth Cup, discorreu também sobre as perspectivas criadas não somente pela vitória, mas pela predisposição declarada de, ainda que aos poucos, colocar a garotada em campo. De fato, não se diz aqui que Bruma já deve ser o titular da zaga com John Terry, ou que Kakuta deve render Kalou. Mas o discurso da cai por terra quando o ímpeto de Roman Abramovich supera o de uma sustentabilidade do próprio Chelsea.
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