Olheiros | porque o mundo do futebol se renova

Entrevistas

Ney Franco: “Estamos com tudo para que o Brasil volte a ser referência”

Assine nosso RSS

Gustavo Vargas - 12/12/2011

Passavam 23 dias de setembro quando o blog do Olheiros noticiou, no ano passado: “A CBF anunciou na noite da última quarta-feira que o técnico Ney Franco assumirá o comando da seleção brasileira sub-20 e a coordenação das categorias de base a partir de 2011” – clique AQUI para relembrar. Na época, a opção por Ney, cujo histórico na base de clubes brasileiros sempre se mostrou respeitável, foi bastante elogiada, respaldada, também, pelo fato de a indicação do seu nome ter partido de Mano Menezes, técnico da seleção principal.

Um ano depois, é possível dizer que Mano e a CBF acertaram em cheio. Sob a tutela do novo coordenador, o Brasil fez de 2011 um ano inesquecível na base, com a unificação dos títulos continentais (sub-15, sub-17 e sub-20), a conquista do Mundial Sub-20 e a confirmação da vaga nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Conquistas que, somadas à consolidação de jovens talentos como Neymar e Lucas, fortalecem o futebol brasileiro a três anos da Copa do Mundo.

Na semana passada, durante o Footecon, congresso internacional de futebol que ocorreu no Rio de Janeiro, Ney Franco concedeu entrevista exclusiva ao Olheiros. Na conversa de aproximadamente 25 minutos, em meio à suntuosidade do Copacabana Palace, ele analisou seu primeiro ano de trabalho, projetou a próxima temporada e, acima de tudo, expôs algumas de suas convicções. Ainda falou sobre Neymar, Copa do Mundo e o fracasso no Pan de Guadalajara, revelando, por fim, que está de olho em prodígios do exterior, como Rafael Alcântara, do Barcelona. Confira:

Olheiros – A temporada de 2011 foi bastante satisfatória no que diz respeito aos resultados de campo das seleções brasileiras de base. Que avaliação você faz desses resultados e o quão importante foi a unificação dos títulos sul-americanos para a afirmação do seu trabalho?

Ney Franco – Confirmamos o nome do futebol brasileiro, a tradição que o futebol brasileiro tem na América do Sul. Esses títulos em campo foram muito importantes para continuarmos marcando presença, dizermos “é o Brasil que está aqui disputando uma competição”. E o ano de 2011 foi muito interessante, também, porque estávamos diante de um projeto novo. Eu me coloquei nesse um ano à frente da CBF já com a responsabilidade de chegar e montar as comissões técnicas. Sou o treinador da sub-20, mas tive a incumbência de montar a comissão técnica da sub-17, da sub-15, começar um trabalho novo. Por isso, acho que foi muito importante mostrarmos o nosso cartão de visita, os novos projetos encabeçados pelo Mano Menezes, que pediu a minha contratação e para que desenvolvêssemos esses projetos. Foi muito legal ter confirmado isso com os três títulos sul-americanos e o título mundial da sub-20.

Olheiros – Há o plano de que Emerson Ávila (sub-17) e Marquinhos Santos (sub-15) sejam exclusivos da CBF, a exemplo do que ocorre com você na seleção sub-20?

Ney – Para o ano que vem ainda não, eu acho muito difícil. Seria o ideal, e a longo prazo o pensamento é esse, fazer um trabalho de convencimento de que isso é importante. Fui muito feliz em chamar o treinador da sub-17, o Emerson Ávila. Tanto ele quanto o Marquinhos Santos, da sub-15, já estavam no mercado, conheciam muito bem a base do futebol brasileiro. Eu estava afastado, então cheguei para treinar a sub-20 tendo que achar esse mercado, pois vinha há muito tempo fora da base. Então, acho que houve um grande passo, um ganho enorme em definirmos um treinador permanente para a sub-20, mas não há dúvidas de que queremos estender isso em determinado momento.

Olheiros – Nomes como Danilo, Alex Sandro, Casemiro, Oscar e Dudu foram convocados para a seleção principal logo após defenderem a sub-20. Esse foi o grande momento do trabalho? Como é a interação entre você e o Mano Menezes?

Ney – A interação é a melhor possível, até porque a sugestão da contratação do meu nome à CBF foi dada pelo Mano. Ele procurou no mercado um perfil de treinador que já tinha trabalhado na base, que os jogadores conheciam. A sub-20 é uma seleção cuja a maioria de seus jogadores já está nas equipes profissionais, e, na visão do Mano, era preciso um treinador conhecido, que tivesse a capacidade para coordenar a base. Tenho conversado quase que diariamente com ele sobre os problemas das seleções de base do futebol brasileiro, e estamos criando alguns mecanismos. Foi muito legal, logo no primeiro ano, depois das conquistas, o Mano já convocar alguns jogadores para a seleção principal. Esse era o grande objetivo do projeto. Um objetivo que aconteceu e foi até antecipado.

Entendo, por outro lado, que podemos tirar o Neymar dessa lista, pois ele era já era uma realidade quando foi trabalhar comigo no Sul-Americano, mas o ano para Casemiro, Oscar, Danilo, Alex Sandro, Dudu foi excelente. Por mais nome que eles tivessem nos seus clubes, passar por essa seleção sub-20, no Sul-Americano e no Mundial, ajudou na afirmação desses jogadores, pelo sucesso que ela teve deve dentro de campo. Há ainda o exemplo do Fernando, que era um jogador intermediário quando foi convocado e hoje já é uma realidade na equipe do Grêmio. Eu fico muito feliz não só com o trabalho na seleção, mas também quando acabamos contribuindo para que esses atletas possam chegar nos seus clubes e ser mais valorizados.

Olheiros – Há muita expectativa pelos Jogos Olímpicos de Londres, e todos sabemos o quanto a medalha de ouro é almejada pelo futebol brasileiro. Quais serão os próximos passos do projeto olímpico?

Ney – A primeira etapa já passou, com muita competência. Iniciaremos agora a segunda etapa, e nesse processo todo vamos ter primeiramente um trabalho de argumentação com os clubes para a liberação dos atletas, principalmente com os clubes do exterior, pois os Jogos Olímpicos não configuram uma data Fifa. Temos, juntamente com a CBF e o Mano Menezes, a capacidade de mobilização, de convencer esses atletas, e a certeza de que teremos a condição de montar uma equipe muito forte. O restante do planejamento está com o Mano, eu ainda não tive acesso, mas ele já abriu que há datas depois de fevereiro para convocações e treinamentos. Além desses treinamentos, poderemos ter alguns jogos amistosos, para que possamos preparar bem os jogadores que serão relacionados para a competição.

Olheiros – Você mesmo disse que o Neymar era uma realidade quando participou do Sul-Americano Sub-20. Como você avalia o fenômeno Neymar não apenas no futebol, mas também sob o ponto de vista midiático?

Ney – O Neymar realmente é um fenômeno, diferenciado em todos os aspectos. Fora de campo é um jogador com um carisma enorme, que tem uma solicitação muito grande do público e que acaba gerando, com isso, a possibilidade de ser utilizado pela mídia e por grandes empresas de publicidade, para fazer comerciais e divulgar as suas marcas. Estamos vivenciando a realidade de um garoto que tem um talento enorme, e esperamos que todos esses compromissos extracampo não possam ter interferência dentro dele, que o Neymar continue sendo um jogador compromissado com seus horários de treinos e jogos.

Durante o Sul-Americano, o que mais me chamou a atenção no Neymar é que, no meio disso tudo, se trata de um jogador com uma personalidade muito forte, um garoto muito bom de se lidar, de conversar, de muita compreensão. Estamos diante de um fenômeno e, felizmente, ainda bem que esse fenômeno nasceu dentro do Brasil. Cabe a nós trabalharmos para que ele esteja no caminho certo, seja sempre um bom profissional e nunca se esqueça de usar o futebol para se divertir. Entrar em campo e jogar, embora seja profissional, querendo se divertir.

Olheiros – Muito se fala em escolas de futebol, e o Brasil perdeu um pouco do protagonismo nos últimos anos. Em 2011 a seleção sub-20 venceu o Uruguai no Sul-Americano e a Espanha no Mundial, duas escolas de muita qualidade e que estarão nas Olimpíadas. Como você avalia esse contexto e o que projetar, desde já, quanto a eventuais novos confrontos contra essas seleções?

Ney – Estamos com tudo – em Minas falamos “com a faca e o queijo na mão” – para que, a partir de 2014, o Brasil volte a ser a referência do futebol mundial. Hoje, essa referência está na mão da Espanha, e também vemos a Alemanha com uma geração muito forte. Temos talento e jogadores com capacidade para isso. Cabe-nos direcionar o trabalho desse grupo, para que em Londres e 2014, quando tivermos o confronto com essas seleções, possamos ter o mesmo sucesso da sub-20. Antes do Sul-Americano, se falava que hoje, na América do Sul, o melhor trabalho de categorias de base era do Uruguai. Vencemos a final por 6 a 0 e na sub-15, há poucos dias, fomos campeões em cima deles ganhando por 4 a 0.

Vimos, nesse ano, que o nosso talento está acima, basta darmos uma coordenada nisso, não perdermos o foco de preparar bem. O Brasil sempre foi a referência do futebol mundial, não podemos perder essa referência desde que trabalhemos bem, de forma organizada. Em 2014, com a Copa do Mundo, nosso país vai ter a condição de chegar muito bem preparado e mostrar uma forma bem definida de jogar, para que isso possa se estender não só para o mundo, mas também internamente para os nossos clubes, para o trabalho de base do futebol brasileiro.

Olheiros – E hoje, o que pode ser feito internamente para que nossos clubes, também na base, estejam conectados com esse momento vivido pelo futebol brasileiro, a três anos da Copa do Mundo?

Ney – A Copa será uma grande oportunidade para evoluirmos em todos os setores, um momento no qual o mundo todo estará de olhos no Brasil. E nós, da base, não podemos achar que isso vale apenas para as equipes profissionais. Queremos mostrar alguma coisa diferente na formação do atleta, que aqui é desenvolvido um trabalho com qualidade. Penso que podemos aperfeiçoar nosso trabalho com a criação de simpósios, discutindo os grandes problemas que temos atualmente nas categorias de base.

Em 2012 eu farei dois simpósios das categorias de base no Brasil. Para o primeiro convidarei os coordenadores da base dos clubes brasileiros. Ainda não definimos se serão todos os clubes das séries A e B ou somente os clubes em que detectarmos um trabalho realmente forte de base. Num outro momento, um segundo simpósio para debatermos com os treinadores algumas questões de parte tática, técnica e se realmente compensa criarmos uma forma de jogar, padronizarmos isso ou não, se é melhor para a formação do jogador ter essa experiência de jogar em várias funções, sistemas diferentes. Tudo isso tem que ser discutido, e vamos começar a dar o primeiro passo na próxima temporada, quando teremos poucas partidas oficiais das seleções brasileiras de base. Vamos usar o ano para criar esses dois primeiros seminários e jogar a primeira sementinha, para começarmos a colher frutos para o futuro, já pensando em 2014.

Olheiros – Os clubes cariocas têm se reestruturado profissionalmente, e isso reflete na base. A seleção sub-15 foi campeã sul-americana com muitos jogadores oriundos do Rio de Janeiro, e muito se falava antes da competição de que se tratava de uma “seleção carioca”, inclusive com algumas críticas ao Marquinhos Santos. De que maneira você viu isso?

Ney – Foi bom o gancho, pois eu queria colocar isso publicamente, todos sabemos que o Olheiros tem uma visibilidade, vocês têm um crédito muito grande de quem trabalha no mundo do futebol. Na nossa avaliação, a formação de qualquer seleção brasileira trará sempre em primeiro plano a qualidade técnica, independente de onde o atleta joga, se ele joga no Brasil, fora do Brasil, se joga no Sudeste, no Nordeste, se joga no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Então, se a seleção sub-15 teve mais jogadores do Rio é porque, na nossa avaliação, principalmente na do Marquinhos Santos, os melhores estavam ali. Consequentemente eram jogadores do Rio de Janeiro, como na sub-20 tivemos muitos jogadores do São Paulo. Não existe um padrão, não existe proteção a nenhum clube, a nenhuma cidade, a nenhum estado. Existe, sim, a nossa capacidade de observação no mercado, olhar os clubes e fazer a nossa seleção. Nós estamos sujeitos a acertos e a erros, mas demonstramos, num ano, que o número de acertos está muito acima dos erros cometidos. Entendo que o Marquinhos foi muito feliz na convocação da seleção sub-15.

Olheiros – O Pan-Americano de Guadalajara foi o grande insucesso do ano. Que avaliação você faz daquela pífia participação?

Ney – No meio de tantos sucessos de repente é bom você ter um insucesso, para que se possa tirar uma lição. O Pan-Americano foi um grande insucesso por alguns fatores, mas principalmente pelo fato de as seleções que tiveram sucesso terem se preparado para a competição com no mínimo 30 dias para treinamento, enquanto nós tivemos apenas dez. E, por mais qualidade e talento que tenhamos no futebol brasileiro, todos sabemos que você sempre tem que convocar os melhores jogadores para representar o Brasil, e isso não foi feito. Outro aspecto é que o Pan era para jogadores sub-22, e nós optamos em ir com jogadores sub-20, sem levar aqueles que estavam disputando o Campeonato Brasileiro pelas equipes principais. Enquanto o México, campeão, tinha até mesmo três atletas de 30 anos, nós estávamos com uma seleção sub-20, com alguns jogadores sub-18 e sub-17. Então, o insucesso é um pouquinho disso tudo. Não nos preparamos, não usamos o regulamento. Ficou provado que, mesmo com toda nossa qualidade, se não nos organizarmos, não nos planejarmos, não focarmos, não concentrarmos, estamos sujeitos a insucessos como no Pan-Americano.

Olheiros – A preparação para o Pan foi prejudicada pelo calendário. Como você vê essa questão do calendário em relação às categorias de base no Brasil?

Ney – Tenho muita experiência em categorias de base. Trabalhei três anos no Atlético Mineiro, outros dez no Cruzeiro e, mesmo no período em que saí para trabalhar profissionalmente, sempre estive ligado ao pessoal da base. Tivemos um determinado momento do futebol brasileiro em que as grandes competições deram um passo atrás no auxílio da formação do atleta. Foi quando criou-se um conceito de que, no Brasil, o jogador com 18, 19 anos que não estivesse jogando no profissional já não prestava mais. Aí reduziram as idades das competições, como a Copa São Paulo e a Taça BH, que na minha opinião são as duas referências, agora ao lado do Brasileiro Sub-20, que já está ganhando espaço dentro do nosso calendário.

A primeira coisa que eu penso é que precisamos tentar mudar isso de novo, voltarmos a ter competições sub-20 ou talvez até sub-21, para finalizarmos o processo de formação desses atletas. Em termos de seleção brasileira também ficamos restritos. Eu tenho agora o próximo Sul-Americano e o próximo Mundial Sub-20 com a geração /93. Aí você disputa com a /93, e a /94, que foi semifinalista no Mundial Sub-17 com o Emerson (Ávila), fica marginalizada, muitos jogadores dessa categoria não têm a oportunidade de disputar uma competição oficial na fase final de sua preparação. Então, penso que precisamos discutir não só o calendário brasileiro, mas também o mundial.

Olheiros – Você falou na geração /93, e nossos blogueiros constantemente se perguntam quando será convocada uma seleção com essa faixa etária. Já há uma observação nesse sentido?


Ney – Sem dúvidas. Temos compromissos para o primeiro semestre de 2012 com a geração /93, inclusive com um torneio confirmado (NR: torneio do Mediterrâneo, na Espanha, em maio). Vamos trabalhar com esse grupo e logicamente com os /94 que têm potencial, não vamos fechar apenas com os /93. Há vários bons jogadores nessa idade, e inclusive estamos contratando profissionais para olhar o mercado lá fora. Já dei uma ligada para o Mazinho, conversei sobre o filho dele, o Rafinha Alcântara, jogador do Barcelona, sondando qual é o posicionamento dele, até para que possamos realmente contar com os melhores /93 para o próximo ano.

Olheiros – Um recado para o Olheiros e seus leitores.

Ney – Primeiramente, gostaria de dar os parabéns por vocês se dedicarem a esse trabalho de garimpar o conhecimento de jogadores de base do futebol brasileiro. E espero, da minha forma, como treinador da seleção brasileira, sempre contribuir da melhor maneira possível e passar todas as informações que vocês acharem interessantes, para que possamos informar o grande público brasileiro que realmente gosta de categorias de base.

Crédito das fotos
Ney Franco: Divulgação/CBF
Emerson Ávila: Gazeta Press
Neymar: Getty Images
Marquinhos Santos: Jornal Fênix
Rafael Alcântara: Getty Images



Colunas anteriores:

Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008

Triares